As “linhas” de Lucho
Ver jogar Lucho continua a ser seguir os passos do bom futebol. No 4x2x3x1 do Marselha de Deschamps ele é o…pivot-ofensivo, à frente do duplo-pivot defensivo Diarra-Cheyrou e atrás do ponta-de-lança móvel Remy. À medida que vai se movendo, parece que desenha linhas no relvado com os seus movimentos. Linhas que traçam o mapa de construção de jogo da equipa e descobrem espaços de penetração (linhas de passe) que furam a defesa adversária. Depois, ainda tem chegada desde trás para rematar. Craque multi-funções que desmonta a tese da polivalência. Aos 30 anos, porém, é fácil, durante os jogos, detectar alguma desmotivação na sua face. Lembra o mesmo Lucho de fim de ciclo no Porto. Por isso, fala-se que ainda pode sair. Sem ele o onze de Deschamps fica tacticamente vazio na ligação entre sectores, a pensar e a executar. Desconfio, porém, de Lucho no futebol inglês (fala-se no Newcastle). Tanto pode estimular o seu jogo (reacelerando-o) como atropelá-lo na vertigem das transições rápidas.
No Marselha, será difícil encontrar um substituto. Valbuena é mais jogador de faixa do que médio-centro organizador. Outro desvio conceptual da equipa talvez seja Rémy a jogar a nº9. Vejo-o mais como ala ou entrar desde a faixa. No centro, dá profundidade mas retira peso/presença ao ataque entre os centrais adversários.
Gotze e os “duendes”
O melhor jogador brasileiro do Alemanha-Brasil desta semana foi… Gotze! Estranho? Não, porque, mais do que nacionalidade, estou a pensar no estilo. Estou a pensar em perfeita relação com a bola, técnica refinada, quase arrogante em alguns toques, procurando tabelas, e olhos sempre colados na baliza, com criatividade táctica de movimentos. Na Bundesliga, ele é o guia espiritual do Borussia Dortmund, uma equipa que respira bom futebol.
O curioso, porém, é notar que Gotze ganha maior protagonismo no sistema da selecção do que no seu clube. Isto porque na selecção (entre o 4x2x3x1 e o 4x1x4x1) ele joga como médio-centro ofensivo, enquanto que no clube (em 4x2x3x1) ele joga como ala-direito, ficando o japonês Kagawa, outro duende inventor, no centro.
Para o seu lado de arquitecto no jogo, o lugar da selecção é melhor. No clube, porém, ele não faz da faixa uma prisão. Pelo contrário, tem as grades abertas para vir para dentro e, surgir rápido a tabelar e/ou furar na área. Ou seja, a posição é importante. Dá melhores condições para as características do jogador respirar. Mas o talento, quando verdadeiro, encontra sempre uma saída.