Notas Internacionais (20)

23 de Dezembro de 2011 10:41
1. Dost, o mistério dos golos; 2. Tigres, como joga o campeão mexicano; 3. Montpellier, segredos; 4. O que diz Valbuena? ; 5. Hazard e o futuro;

 

 
Dost, mistério dos golos
 
Cinco golos num jogo não se marcam por acaso. Bas Dost, o ponta-de-lança do Heerenveen tornou-se quase num objecto de estudo futebolístico na última semana após lograr esse feito frente ao Excelsior. O facto de o fazer na Liga holandesa pode lhe tirar algum impacto, mas olhando os registos, Dost, 22 anos, entre a época passada e esta, já fez 27 golos em 48 jogos. Merece, pois, análise. Ainda há uma semana, nesta página, destacava um extremo dessa bela equipa do Heerenveen, o fantasista Narsingh, que então vira esmagar o líder AZ por 5-1.
Fui, agora, rever o jogo com o Excelsior (no excelente canal da Liga holandesa EredeviseTV). E confirmei o mesmo. O craque é mesmo Narsingh. Que jogo! Quatro assistências, grandes jogadas, finta, velocidade, desmarcação, cruzamento.
E Dost? Pois bem, é o típico nº9 versão pinheiro, 1,92m. e 78kg de presença na área, forte de cabeça (a chegar à bola e no gesto técnico de cabeceamento). Três dos golos são de cabeça. Tem boa técnica de recepção, move-se pouco mas é inteligente a dar aquele passo à frente e outro atrás, parecendo adivinhar sempre onde a bola vai cair e então cumpre, com frieza mortífera, a burocracia do remate, no estilo perna-longa quase impossível de marcar em cima. Se pode fazer muitos golos numa Liga mais competitiva? Duvido muito. O craque, disso não duvido, é mesmo Narsingh. Esse sim. Comprava de olhos fechados!
 
 
2. Tigres, o campeão-“vulcão” mexicano
 
Cada Final da Liga mexicana é um jogo para ficar na memória. São grandes jogos (espectáculos emocionantes) disputados em ambientes escaldantes. Esta semana, numa madrugada rasgada pelos empolgantes comentários da TV Azteca, segui a Final (segunda mão), Tigres-Santos Laguna. Ganhou o Tigres (Universidade Nuevo León é o verdadeiro nome do clube) por 3-1 e 29 anos depois reconquistou o título mexicano.
Mesclando garra com técnica, num estilo de jogo sempre em ritmo alto, superou o golo sofrido e fez uma segunda parte fantástica guiada pelo maestro argentino Lucas Lobos, 30 anos, que já passou pelo Cádiz, em Espanha, num onze que resgatou Salcido (ainda é jogador do Fulham) para o futebol mexicano, jogando agora como médio-centro defensivo. Na frente, uma dupla endiabrada que se complementa muito bem: o imaginativo brasileiro Danilinho e a presença goleadora do nº9 chileno Mancilla, 31 anos. Bem dirigido pelo argentino Ricardo Ferretti, é um onze muito bem organizado que maneja com classe as mudanças de velocidade.
Acreditem: vale a pena comprar uma parabólica só para ver o futebol mexicano!

 

 

3. Segredos de Montpellier
 
É a melhor notícia da Liga francesa desta época. O belo Montpellier de René Girard continua firme como líder, sacudindo os milhões qataris do PSG. É um onze com um bloco muito coeso que já se conhece de anos anteriores (esta época apenas entraram o central Hilton e o lateral esquerdo Bedimo). Tornou-se, porém, mais ofensivo, sobretudo em termos de dinâmicas a meio-campo.
O ponta-de-lança já não passava 90 minutos desterrado na frente. Nessa reciclagem ofensiva, preferencialmente num 4x2x3x1 que sonha ser um 4x3x3 a atacar, Belhanda, que antes se destacava sobretudo em jogadas pela faixa, está, esta época, a jogar mais vezes numa posição mais interior, quase espécie de segundo avançado atrás do elegante ponta-de-lança goleador Giroud. Nas alas, Utaka e Dernis ou Camara dão largura e profundidade permanente. Na primeira linha do meio-campo, Marveaux é o médio de transição que conduz a bola desde trás e faz a ligação entre-sectores. Tudo jogadores de equipa no sentido táctico-solidário do termo, mas os dois que vão dar em breve o salto para uma dimensão maior são, claramente, Belhanda (criativo objectivo com bola) e Giroud (nº9 oportuno e de capaz de finalizar tout doucement).
Será difícil o Montpellier aguentar-se lá em coma até ao fim (o poder de PSG e Lyon vão apertar…) mas pelo bom futebol que joga pode continuar a sonhar com as chuteiras assentes em relva firme
 
 
4. O que diz Valbuena? 
 
Sempre foi dos jogadores que senti poder dar mais e até ser uma estrela europeia. Tem visão e técnica com remate para isso. Falo de Valbuena, baixinho francês, 27 anos. Voltei a ter essa sensação quando, em Dortmund, com o Marselha quase perdido, entrou ao minuto 73. Fez um golo fantástico, com um remate em arco à entrada da área que fez logo recordar outro parecido, que marcara anos atrás em Liverpool.
Mas Valbuena não é só esses relâmpagos de golos bonitos. Quando entrou, fez um trio atacante com Rémy e A.Ayew, mas em geral é visto quase sempre como um jogador de faixa (ou que joga mais sobre a faixa) quando me parece que podia soltar-se mais, na finta com simulação e passe, em zonas centrais. Claro que no 4x2x3x1 preferencial de Deschamps (como entrou em Dortmund) existe Lucho nesse espaço, mas uma solução podia ser recuar o argentino para condutor criativo e meter Valbuena mais à frente. Claro que isso mexe na solidez do duplo-pivot Diarra-M´Bia e nesse espaço um treinador deve sempre evitar mexer muito. Por isso, o mais natural será continuar a ver os relâmpagos de Valbuena sobre os territórios da faixa.
 

 

 

5. Hazard e o futuro
 
Cada vez surgem mais jogadores para fazer sonhar mas é impossível prever o futuro. Sou um admirador de Gotze, tenho espectativa que Wilshire seja a nova referência técnico-táctica da Inglaterra, mas o jogador que mais quero ver crescer é…Hazard, o aprendiz de feiticeiro belga que joga em França, no Lille. Cada jogada dele é um presente de bom futebol, mas sinto cada vez mais necessidade de ver tudo isso fora de França, onde o nível de jogo, apesar de ter crescido muito nos últimos anos, dá-lhe, naturalmente, um espaço nas marcações e liberdade de movimentos que não encontrará, por exemplo, em Itália (mais fechadas) ou Inglaterra (jogo mais intenso). O futebol de Hazard necessita dessa nova exigência competitiva. Para crescer e responder as perguntas mais difíceis. Isto é, marcações mais apertadas a exigir maior velocidade de decisão/execução e maior competitividade a pedir aumento de intensidade de jogo.
Tenho tanta vontade como receio de o ver nesses novos habitats mais hostis. Porquê o receio? Pelo medo que o estilo solto francês esteja a faze-lo parecer melhor jogador do que realmente é.
 

 

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