Raul no Schalke
Após uma vida inteira em Madrid, a aventura de Raul na Alemanha, no Schalke, começou por intrigar. O choque com o maior poder físico da Bundesliga provocou o primeiro impacto de desconfiança. Mesmo atrás de Huntelaar num 4x2x3x1, o fraco início da equipa, sem criar desequilíbrios (arrastar marcações) a atacar, enjaulou-o entre centrais e trincos que batem duro e gostam de marcar ao homem. As coisas começaram a mudar quando Magath mudou para 4x3x1x2. Raul passou a jogar na dupla atacante (com Jurado a entrar desde a esquerda).
Com a época perto do fim, mesmo com a equipa longe do topo, o papel de Raul dentro do onze é uma lição de qualidade de vida futebolística. No ambiente mais adverso ao seu estilo e físico, só um grande jogador (primeiro na cabeça, depois nos pés), até porque já tem 33 anos, conseguiria o nível exibicional atingido por Raul. O segredo está, vendo os jogos com lupa táctica de movimentos, na sua capacidade de recuar, pegar na bola em espaços desmilitarizados (mais vazios) e a partir dai arrancar (impressiona como continua a correr tanto como no início da carreira) em direcção à área, procurando apoios e desmarcações/diagonais curtas. Raul é hoje a melhor prova de como o (bom) futebol é um jogo para ser jogado com a cabeça. Para explorar qualidades e defender-se dos defeitos (limitações). Craque puro!
As “viagens” de Ekici
Já se sabe como o futebol se tornou uma babilónia, mas o caso de Mehmet Ekici, o kinder-talent de 20 anos que o Bayern Munique (onde se formou) emprestou esta época ao Nuremberga, é uma história invulgar: em Setembro jogou pela selecção Sub-21 da Alemanha (onde nasceu); em Novembro jogou pela selecção principal da Turquia (onde tem origens). Tudo legal, naturalmente. Tudo confuso, legalmente.
Pelo tempo curto que mediou as duas aparições e por, quer para as selecções jovens como para a sénior, ter sido seleccionado pelo bom futebol demonstrado na Bundesliga, na primeira equipa do Nuremberga. E, de facto, Ekici joga muito. Posicionalmente, é um médio ofensivo que também sabe jogar a partir da ala. Chega muito bem à área para rematar e marca muito bem livres. Não é um criativo, nem um operário. Ou seja, o seu estilo cruza as duas influências estilísticas, mesclando técnica e robustez. A escolha pela selecção turca sénior entende-se por ter maiores oportunidades de jogar mais vezes. O talento de Ekici é multicultural.
“Visão-FC Copenhague”
Foi a equipa fora da elite mais milionária, a ir mais longe na Champions. O FC Copenhague caiu nos oitavos-final, frente ao Chelsea (0-2 e 0-0), mas mostrou porque se tornou na maior referência do futebol dinamarquês (6 vezes campeão nos últimos 8 anos). Um domínio que honra o estilo da Dinamarca, o mais latino do futebol norte-europeu. Mais do que o linear futebol físico, põe a bola no chão e procura jogar apoiado.
Para começar a desenhar essa filosofia, começa num duplo-pivot posicionalmente e fisicamente forte, embora algo lento: Kvist-Claudemir. Kvist é o gestor de ritmos, joga sempre de cabeça levantada, ora segura a bola, ora lança o ataque. Claudemir, brasileiro que jogou duas épocas no Vitesse, é mais fixo, daqueles jogadores que dá mais peso à posição.
Partindo de um 4x4x2 com dois avançados soltos (N´Doye e Gronjkaer que passa da faixa para se mover mais pelo meio) ganha rigor de contenção também devido à acção com e sem bola dos alas (Vingaard-Bolaños) para além da segurança dos habituais laterais titulares (Pospech-Wendt). Na defesa, Zanka Jorgenssen, de 21 anos, dinamarquês de origem gambiana, é um central de grande futuro, esguio no corte e sempre bem colocado, alinhando o sector.
Uma equipa que prova como o futebol do frio pode ser uma excelente fonte de prospecção.