CORUNHA: MEIAS-FINAIS DA CHAMPIONS

May 5, 2004 12:00 AM
CORUNHA-FC PORTO: O GELO E A ARTE DE UM PLANO PERFEITO; CHELSEA-MÓNACO: OS SEGREDOS DA POSSE DE BOLA.
Algumas reflexões tácticas e técnicas sobre os dois jogos que decidiram os finalistas da Liga dos Campeões 20003/04, um torneio que se transformou numa sublime lição sobre como as grandes equipas do futebol moderno, mais do que constelações de estrelas desiqulibradas, são, sem grandes efeitos especiais, inteligentes mesclas de ordem e talento.
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CORUNHA-FC PORTO: O GELO E A ARTE DE UM PLANO PERFEITO

Enquanto Irureta (que, no Porto, se limitara a especular com o facto de ainda ter o jogo da segunda mão em casa) manteve o seu dogmático 4x2x3x1, Mourinho, por sua vez, confundiu os planos do técnico basco e, após o 4x5x1 da primeira mão, lançou um criativo 4x4x2, muito personalizado, típico das grandes equipas que assumem o seu rótulo e entram em campo para agarrar o jogo pelos colarinhos. Sem revelar o onze inicial até poucos minutos antes da hora do jogo, Mourinho surpreendeu o monocórdico Irureta com um sistema e um modelo de jogo só ao alcance de uma equipa com um nível competitivo e capital de confiança muito elevado. Mantendo a defesa de quatro elementos, chefiada no centro por uma poderosa dupla de centrais, Jorge Costa-Ricardo Carvalho (fortes na antecipação, no tackle, nas marcações e na leitura do trajecto da bola, saindo sempre no timing certo para o corte, de cabeça ou com os pés, nos cruzamentos ou nos lançamentos longos) os grandes catalisadores do sistema foram as linhas do meio campo e do ataque, activadas, sobretudo, através do seu fabuloso elo de ligação: Deco. Assim, o FC Porto, sem medo, surgiu a jogar com um trinco puro á frente da defesa, Costinha, regente da primeira linha de cobertura defensiva, vigiando de perto o criativo galego Valerón –que nunca teve espaço para pensar ou pegar no jogo e na bola. A seu lado, abrindo ou fechando nos flancos, Pedro Mendes, sobre a direita, e Manniche, sobre a esquerda, com maior profundidade ofensiva e liberdade para, nas manobras atacantes perto da área adversária, flectir no terreno e tentar encontrar espaços para o remate. Quando isso sucedia, Carlos Alberto tinha mais tendência em cair para o flanco vazio, arrastando os seus marcadores desde o centro. Entre linhas, nas costas da dupla atacante, o vagabundo Deco, deambulando pelos dois flancos, inventando bom futebol, driblando, triangulando, arrancando faltas, garantindo o controle do ritmo de jogo. Mais adiantado, incansável, Derlei, ao mesmo tempo ponta de lança e primeiro defesa do onze tal a forma como saia a pressionar os defesas galegos quando estes pretendiam iniciar a saída de bola, ou, numa demonstração de capacidade física notável, recuava para lutar pela bola em zonais mais atrasadas. Noutros momentos, surgia sobre a direita, a tentar furar, compensando o facto do onze não ter, nessa faixa, um estremo ou um flanqueador fixo. Verdadeiramente impressionante como um jogador, após seis meses de paragem devido a um grave lesão nos ligamentos, regressa ao nível como o que o “ninja” azul e branco demonstrou na relva do Riazor. No plano defensivo, sobre as faixas, saliente-se o facto de ambos os laterais, Paulo Ferreira e Nuno Valente raramente terem passado a linha do meio campo, alinhando mais recuados, sobretudo com preocupação de fechar os flancos e, como comportas, estancar a principal fonte de jogo ofensivo do Corunha, os seus médios ala flanqueadores, Luque, á esquerda, e Victor, á direita. Com ambos os extremos galegos sem espaços para penetrar pelos flancos, cobertos pelos personalizados laterais portistas, Mourinho cortou as asas ao sistema de Irureta e o Corunha perdeu, ao mesmo tempo, os seus "carilleros" e os motores propulsores no qual se baseia o seu jogo ofensivo. Estava dado o primeiro passo para mais uma sublime lição táctica de como, primeiro, controlar um jogo, e, depois, dominá-lo.
Cristalizado no mesmo sistema, Irureta viu o FC Porto regressar para o segundo tempo com a mesma atitude e postura táctica. Perante a passividade do seu técnico, o onze galego que pouco mais de duas semanas atrás esmagara no mesmo palco o AC Milan, não conseguia criar uma única jogada de penetração na defesa portista, na qual Jorge Costa não teve necessidade de fazer nenhuma falta (ao contrário dos centrais do Corunha, com Naybet expulso por acumulação de amarelos e César, que cometeu um penalty “irresponsável" sobre Deco), Ricardo Carvalho esteve sempre tranquilo e Baía não fez uma defesa. Sem Mauro Silva, o patriarca para quem todos olham na hora de elaborar jogo desde trás e com as suas principais referências de circulação de bola muito marcadas, o Deportivo caiu num impasse: Valerón desapareceu, os extremos esbarraram nos laterais-comportas e Pandiani transformou-se numa ilha deserta entre Jorge Costa e Ricardo Carvalho. O controle do jogo era, claramente, do FC Porto, e, depois de Derlei, após uma passe longo na diagonal de Deco que rasgou toda a defesa galega, ter enviado uma bola ao poste, o golo surgiu, num penalty tão indiscutível como irresponsavelmente cometido por César (o substituto de Jorge Andrade). Só nesse momento, Irureta decidiu mexer na equipa e no sistema. Com 66 minutos de jogo, insere Tristan, sai Victor e passa a jogar com dois pontas de lança, Pandiani-Tristan, num esquema de 4x4x2 com um trinco (Duscher), depois de Sérgio dar o lugar a Scaloni que ocupou a banda direita. Nesse momento, Mourinho já estava, no entanto, preparado para o novo design galego e, no minuto imediato, colocou em acção o plano B, previamente pensado para o caso de estar a ganhar e o Corunha, muito previsivelmente, passar a jogar em 4x4x2: retirou Carlos Alberto e inseriu um terceiro central, Pedro Emanuel, para vigiar Tristan e, assim, garantir superioridade numérica na luta da área. Foi, porém, uma nova batalha táctica de curta duração. Apesar de nesse nova dinâmica o Depor ter, finalmente, criado dois ou três cruzamentos perigosos, sobretudo após a tardia entrada de Fran (com muito maior precisão de centro do que Luque, um ponta de lança reciclado como extremo, mas que joga essencialmente em ir á linha), o destino da eliminatória seria sentenciado a 20 minutos do fim, quando Naybet, após dura falta sobre Paulo Fereira, viu o segundo amarelo e foi expulso. Até ao final, o FC Porto passeou classe na relva do Riazor a caminho de Gelsenkirchen, perante o olhar desolado dos adeptos do Deportivo, incrédulos com o frio tacticismo do onze de Mourinho, um treinador que, sente-se, respira futebol, entra na cabeça dos jogadores e construiu, no Porto, a, talvez, melhor equipa portuguesa dos últimos 30 anos. Esteve perto de cair em Old Trafford, é certo, mas, mesmo nessa eliminatória, foi, durante a maioria esmagadora do tempo, superior ao Manchester United. Do outro lado, fica a triste imagem da excessiva previsibilidade do sistema-Irureta que, tal como quase todos os treinadores espanhóis do presente, revela pouca versatilidade e imaginação em mexer no design táctico da equipa, antes ou durante os jogos, demasiado preso ao 4x2x3x1 com doble-pivot, um esquema que, sem criatividade, caiu sem apelo na teia de aranha montada por Mourinho. Ou seja, para quem conhece bem esta equipa do Corunha e o estilo de Irureta, o feitiço virou-se contra o feiticeiro.
Irureta já provou, ao longo de várias épocas no futebol espanhol, ser um treinador astuto e inteligente. Mourinho, formado desde o berço com manuais de futebol debaixo do braço, respira confiança e saber táctico. É um “futbólogo” no verdadeiro sentido teológico do termo. Na Corunha, no sublime palco de uma meia-final da Liga dos Campeões, ambos deram um recital de táctica. A vitória, no entanto, pertenceu, claramente, ao treinador lusitano, ao ponto de, pela sua sagacidade táctica e capacidade de ler, prever e encarcerar a postura adversária, ter começado a ganhar o jogo muito antes do apito inicial.
Tem a beleza das equipas que gostam de fazer circular a bola, adornando a sua posse com o perfume dos tecnicistas, e explora o sentido de contra-ataque como uma velha e tradicional equipa latina á moda antiga. Eis o Mónaco de Deschamps, sensacional finalista da Liga dos Campeões, que depois de estar “contra as cordas” em Stanford Bridge, quando o Chelsea chegou a 2-0 aos 44 minutos, resgatou, num ápice, através da categoria individual de Rothen e do instinto predador do caça-golos Morientes, o controlo do jogo e da eliminatória. Embora mantendo o seu sistema de jogo base, um 4x4x2 aberto a toda a largura do terreno com uma dupla de médios de contenção recuados, Deschamps realizou algumas alterações de pormenor no onze que surgiu em Londres. Assim, com o regresso de Squilacci ao centro da defesa, Givet passou para lateral direito e Ibarra subiu para o meio campo, como ala direito, embora com missões sobretudo de cobertura defensiva. Com a faixa direita entregue ao argentino, Giuly, a alma da equipa, abandonou o seu flanco e actuou na frente de ataque como jogador mais adiantado, entre os centrais Gallas-Terry, ficando Morientes mais nas suas costas, entrando de trás e iludindo as marcações. Com esta alteração, no entanto, Giuly perdeu espaço para a sua velocidade e drible em progressão, no qual executa perigosas diagonais, pelo que, sem essa referência construtora, o trinco Benardi subiu mais no terreno, surgindo mais perto da linha avançada, explorando a sua precisão vertical de passe. Embora não dê muita profundidade ofensiva ao jogo, Benardi é um jogador chave neste Mónaco e raramente falha um passe, privilegiando o jogo curto e o futebol apoiado. No segundo tempo, sentido a necessidade de mexer no meio campo para controlar o ritmo de jogo que, na primeira parte, fora gerido pela vertigem de movimentos do Chelsea, Deschamps recuou Ibarra para lateral direito e colocou no seu lugar o checo Plasil. Desta forma, o Mónaco passou a segurar melhor a bola, dando tempo para Benardi subir no apoiar o ataque (notável a precisão do seu passe de primeira para o golo, 2-2, de Morientes) e coordenar o meio campo, ao mesmo tempo que na esquerda, com Melchiot confundido, Rothen dava um verdadeiro recital de belo futebol, explicando como se estivesse a ler de um manual, como deve jogar um extremo-flanqueador. A sua inteligência de movimentos, o controle de bola em velocidade, driblando e ultrapassando adversários em progressão, procurando a linha e levantando a cabeça no momento certo para executar o centro, fazem dele um dos melhores extremos do actual futebol europeu.
Impedido de contar com os seus esquerdinos de referência, Duff e Mutu, o Chelsea de Ranieri, esquematizado também num 4x4x2 aberto nos flancos, mas com dois avançados em cunha entre os centrais, Jimmy-Gudjhonssen, apoiados, na esquerda pelo criativo Joe Cole, e, na direita, pelo veloz Gronjkaer. No centro, Geremi fechava os espaços nas marcações e Lampard assumia-se como o verdadeiro motor orquestral da equipa de Ranieri. A velocidade de circulação de bola e a atitude agressiva de todo o onze na sua recuperação, encarceram, durante todo o primeiro tempo, o Mónaco em missões defensivas. O esquema de Deschamps tremeu, mas bastava reparar nas ténues investidas de Rothen pela esquerda para se pressentir o potencial de contra-ataque camuflado nas botas que tinham vindo da Corte de Ranier. A forma tranquila como o onze reagiu á avalanche ofensiva dos ingleses, revela, por si só, a personalidade da equipa de Deschamps. Sofrendo um golo (2-1) mesmo em cima do final do primeiro tempo, o Chelsea sentiu que o controle do jogo lhe tinha fugido. Num ápice, a atitude confiante da equipa, perdeu-se em movimentos descoordenados e na falta de ordem táctica. Apesar da necessidade em marcar três golos, Ranieri manteve o mesmo modelo e mesmo quando faltavam 30 minutos para o final, logo após o 2-2, não abandonou o seu 4x4x2, limitando-se a trocar Jimmy por Crespo e Geremi por Parker, numa altura em que, face á desvantagem, poderia ter arriscado num sistema de três defesas, mantendo Jimmy e passando a apostar num trio ofensivo muito poderoso na exploração do chamado “jogo directo”, feito de bolas longas e cruzamentos para a área. Nada disso sucedeu. Rendido aos movimentos circulares do Mónaco, o Chelsea sentiu a eliminatória a fugir e, sem pestanejar, viu desvanecer-se o seu sonho europeu.

CHELSEA-MÓNACO: OS SEGREDOS DA POSSE DE BOLA

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