
A organização de um jogo, a forma de pensar melhor a sua coordenação colectiva, é, dizem os livros, a partir do centro do terreno. É esta a zona dos arquitectos que traçam as coordenadas dos movimentos de todo o onze. Neste sentido, o Mónaco de Deschamps é um interessante case study táctico, pelo facto do seu circuito preferencial de organização de jogo se desenvolver, num atraente jogo de flanqueadores, da faixa esquerda para o centro, abrindo-se, depois, muitas vezes, á direita. Tal opção, evidente no jogo contra o Chelsea, resulta sobretudo da falta de um médio centro clássico. Assim, o homem que procura pegar no jogo na saída de bola para o contra-ataque é o ala-extremo esquerdo Rothen. Recuperada a bola, nos pés da dupla de trincos, flecte no terreno e aproxima-se de Bernardi, o recuperador mor da corte, que a entrega num toque curto. Ocupando zonas demasiado centrais, Rothen não é, no entanto, o mesmo jogador. Nessas alturas, deixando o corredor vazio nas suas costas, o lateral-esquerdo Evra sobe no terreno, inserindo-se nas manobras ofensivas, mas este jogo de compensações entre o extremo e o lateral tira fluidez á circulação de bola, pois nem Rothen se transforma num verdadeiro organizador de jogo, já que sempre que corre com a bola, tende a cair para o flanco esquerdo, nunca verticalizando o jogo, nem Evra se assume como um verdadeiro carrilero que faz todo o corredor, pois tem sempre como principal preocupação a marcação defensiva pelo seu flanco. Os trincos (Zikos-Bernardi) jogam demasiado recuados. O argentino Bernardi sobe mais, mas, embora jogue de cabeça levantada e possua boa precisão de passe curto e longo, não é distribuidor de jogo clássico.

Este espaço vazio que se abriu, assim, no meio campo monegasco, com o pressing defensivo a ser feito muito atrás, permitiu, no primeiro tempo, que Lampard se inseri-se nele, passando o Chelsea, através deste seu motor, a controlar essa zona e, quase sempre, o ritmo de jogo. Nesse momento, o Chelsea, jogando num 4x4x2 com o quarteto de meio campo em linha (Parker-Makelele-Lampard-Gronjkaer) parecia uma equipa tipicamente latina, desdobrando o sistema em 4x5x1, sem bola, e em 4x3x1x2, com bola, fruto da subida de um dos médios. Após o golo do empate, Ranieri, de pé, junto á linha lateral, pediu aos seus jogadores aquilo que nunca vemos pedir um treinador inglês, dando a indicação gestual para trocar a bola, ao mesmo tempo que gritava: “play, play, play!” Com Parker, um criativo central, limitado ao flanco direito, e Gronjkaer, um destro adaptado, devido á falta de Duff, ao lado esquerdo, era difícil a bola rolar com fluidez por todo o campo. Para além disso, ficou claro, que o Chelsea, sem Glen Johnson, tem um problema no seu flanco direito, onde Melchiot, muito faltoso (viu um amarelo muito cedo por uma duríssima entrada sobre Rothen) não tem, nem por sombras, a mesma classe, quer a defender, quer a atacar. No segundo tempo, Ranieri mexeu na equipa e inseriu Veron no lado esquerdo, saindo o desadaptado Gronjkaer. Com a bola nos pés, o argentino tinha tendência e flectir, sem ela bria na linha. Um sistema e um movimento semelhante, afinal, ao desenvolvido por Rothen no Mónaco.

Com a expulsão de Zikos, Deschamps retirou um dos pontas de lança, Prso, e inseriu um novo médio defensivo, Cissé, passando a jogar claramente em contra ataque num esquema simples de 4x4x1, que se abria em 4x3x2, a atacar, com as subidas, pela direita do inesgotável Giuly. Naturalmente, o Chesea pasou a deter maior posse da bola. Ranieri fez entrar Jimmy, que se encostou á esquerda, tirando o inseguro Melchiot (sempre muito perto de ver o segundo amarelo) e, saindo Parker, surgiu Huth, central de origem, na lateral direita. Por momentos, com estas alterações, pensou-se que ia optar pela defesa a «3», mas, na prática, o sistema adquiriu o design 4x3x3, com os laterais a subirem no apoio ao ataque, sobretudo Bridge na esquerda, para aproveitar a sua maior capacidade de cruzamento. Seria porém, numa dessas incursões de Bridge que nasceria a revolta francesa, quando, contra a corrente de jogo, num puro lance de contra-ataque, como uma boa e venenosa equipa latina á moda antiga, Giuly recuperou uma bola a meio do meio campo inglês e isolou, na direita, com um passe subtil, o perigoso Morientes que num remate poderoso fuzilou Ambrosio. Deve-se, porém, ver este 2-1 com atenção pois ele nasce, exactamente de uma arriscada subida de Bridge pela esquerda, centro e cabeceamento de Jimmy ao lado. Reposta a bola rapidamente em jogo, o Mónaco apanha as linhas do Chelsea muito avançadas. É então que, astuto, Giuly lança Morientes num flanco direito, esquerdo da defesa do Chelsea, vazio pelo prévio adiantamento de Bridge e consequente falta de compensação defensiva, a tal dobra, feita por um médio (seria Veron). Quando Morientes apanha a bola, Bridge ainda vem na linha do meio campo, a regressar a passo. Terry ainda tenta, em esforço o tackle, mas Morientes, mortífero, não perdoa. Numa noite em que o Chelsea tinha o jogo controlado, onze contra dez, ficou, num ápice, em cinco minutos, com a eliminatória quase perdida, sobretudo depois do frio 3-1 de Nonda. Mais uma vez, no “principado dos milagres”, o rigor criativo do Mónaco e seus extremos organizadores (Giuly-Rothen) venceu um gigante, desta vez o inglês de cariz latino Chelsea, traído, como o Real Madrid semanas antes, pelo excesso de confiança final.
MONACO-CHELSEA: O PRINCIPADO DOS MILAGRES NA BATALHA DO 4X4X2

É uma questão de estilo. A bola, no seu percurso até á baliza adversária, deve percorrer as três linhas, rodar o campo e surgir, na área, ao alcance do ponta de lança transportando, debaixo do braço, um mapa com o plano de ataque. Num jogo em que teve a esmagadora maioria da posse da bola (74% contra os 26% do Deportivo), mais uma vez ficou claro que a base da criatividade do sistema do FC Porto de Mourinho, em 4x4x2, repousa, sobretudo, na inteligência técnico-táctica dos seus cinco médios, que nos seus movimentos entre-linhas e nos triangulos que desenham, com e sem bola, fazem a equipa adquirir outros sistemas, 4x3x3 ou 4x1x4x1. No inicio, o modelo, com Costinha intocável no posto de médio central defensivo, apostou na boa forma de Maniche para, numa missão híbrida, fechar atrás junto de Costinha a defender, mas, de posse da bola, avançar de imediato no terreno, ocupando a zona dos 30 metros, em busca de espaços para remate ou executar passes verticais para o ponta de lança ou para os alas que entram em diagonal, Alenitchev, sobre a direita, e Carlos Alberto, que começou sobre a esquerda, mas, que depois deambulou pelas zonas centrais. É um sistema que aposta em dois vagabundos criativos entre linhas, Deco e Carlos Alberto, dois talentos “irresponsáveis”, no bom sentido, movimentando-se nas costas do ponta de lança e á frente do médio de contenção. Apesar da posse de bola e clara intenção de jogar pelos flancos, o sistema nunca conseguiu abrir espaços de penetração nas duas linhas defensivas do Deportivo de Irureta, um técnico que não escondeu a intenção conservadora de abordar o jogo (jogando com o encontro da segunda mão) plantando-se num imóvel num 4x5x1 que mascarava o seu 4x2x3x1 de referência, desta vez muito longo ou seja a o quarteto defensivo (com os laterais Pablo e Romero sempre recuados) jogou muito próximo do doble-pivot (Mauro Silva-Sérgio), sem cerimónias no pressing, mas este ficou depois muito longe da linha criativa do meio campo, como Valerón, bem vigiado por Costinha, demasiado desamparado, tal como, claro, o solitário Pandiani na frente de ataque. Nas alas, Luque, na esquerda, procurou sempre conter as investidas de Alenitchev e, na direita, Victor retirou profundidade ofensiva ao seu jogo para fechar o flanco. Missão cumprida.

No segundo tempo, perante esta postura galega e a falta de capacidade para criar desiqulibrios entre linhas por parte da sua dupla de mágicos Deco-Carlos Alberto, Mourinho modificou o sistema e apostou numa dupla de pontas de lança, colocando Jankauskas em cunha entre os centrais ao lado de McCarthy. Desta forma, o FC Porto, para além de poder continuar a trocar a bola, buscando uma brecha na muralha galega, também passaria a ter, com a presença do alto lituano junto a Naybet e Jorge Andrade, uma segunda opção em temos de modelo: o jogo directo. Ao mesmo tempo, na direita, o lateral Paulo Fereira, com a saída de Luque, lesionado (substituido por Fran) passou a ter maior liberdade para atacar. Do outro lado, Irureta procurou aproveitar os espaços libertos nos flancos, mas receoso de perder posições de cobertura defensiva, o contra-ataque galego apenas fez “cócegas” num ou noutro cruzamento de Fran sobre a esquerda. Com Carlos Alberto em permanente movimento e Deco procurando espaços para soltar a sua precisa capacidade de cruzamento, o onze de Mourinho, com o peso do meio campo suportado pelo excelente momento de forma de Maniche (enquanto Pedro Mendes, no lugar de Costinha, vigiava Valerón), dançou em frente ao quarteto defensivo de Irureta, mas só por uma vez Deco conseguiu descobrir espaço na direita para ir á linha e, no espaço de uma cabina telefónica, fazer um centro que, procurando a cabeça de Jankauskas, poderia dar golo.

A incapacidade de desenhar passes verticais ou de ganhar espaços para cruzar atrasado, acabaria por levar Mourinho, 25 minutos depois, a alterar pela terceira vez o sistema, regressando ao desenho de um só ponta de lança (Jankauskas), fazendo entrar Marco Ferreira para o flanco esquerdo, procurando com uma unidade estranha confundir as marcações computadorizadas de Irureta. Criou-se, assim, um triângulo atacante, com Deco e Carlos Alberto nos vértices recuados e Jankauskas no adiantado, ficando Marco Ferreira como principal desequilibrador. Na batalha do futebol “curto e apoiado”, Mourinho e Irureta não conseguiram, no entanto, encontrar formas para desfazer o puzzle táctico desenhado por ambos os onzes no relvado. Apesar de ter perdido para o jogo da segunda mão dois jogadores chave (o patriarcal pivot Mauro Silva e o central Jorge Andrade) o técnico galego conseguiu, claramente, o que mais procurava: não sofrer golos. Uma postura desoladora após a espectacular exibição realizada frente ao Milão, no polo oposto da filosofia do FC Porto de Mourinho, embora, neste jogo, sem encontrar a dinâmica certa para dobrar o muro galego.
FC PORTO-CORUNHA: A TÉCNICA E O TOQUE CURTO SEM ESPAÇOS

LEGENDA: ______» Movimento com bola --------» Movimento sem bola
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