Novos impérios ingleses

16 de Agosto de 2007
O futebol regressou aos relvados da Velha Albion. O novo Chelsea nas asas de Malouda. As maravilhas de Gerrard, o Manchester Utd. sem nº9, a nova posição de Eboué, o Manchester City de Eriksson e o regresso de Schmeichel. + Sagna (Arsenal) e Richards (M.City)
O futebol regressou aos relvados da Velha Albion. As faces dos grandes protagonistas não está muito diferente. O estilo cinematográfico com cabelos grisalhos de Mourinho. A eterna ansiedade de Ferguson, mascando pastilha elástica e seguindo o jogo com olhos esbugalhados como um miúdo de escola. O charme francês de Wenger, de pé, procurando controlar as reacções. Só Benitez está um pouco diferente. Deixou crescer uma pequena barbicha que lhe dá um ar mais duro, entre um Buda dos bancos e um novel mosqueteiro com uns quilos a mais. No resto, os jogadores. E as tácticas. Os quatro gigantes –Manchester, Chelsea, Liverpool e Arsenal- jogaram todos em 4x4x2. Apesar dos sistemas idênticos, têm todos filosofias de jogo diferentes, fruto não só das distintas características dos jogadores que lhes dão vida, como, no plano estratégico, das ideias dos seus treinadores. O onze de Mourinho está diferente. Voltou a procurar ter mais posse de bola no lugar de um mero jogo veloz de transições que muitas vezes retirava lucidez na zona de construção entre-linhas. Neste novo ciclo, um jogador se destaca: Malouda. Dentro de um 4x4x2 mais clássico, com médios ala bem abertos (Wright-Phillips, á direita) é a riqueza de os movimentos do francês que causam maiores desequilíbrios nas defesas adversárias. Ser rápido, por si só, é fácil. São características naturais que sem têm ou não, e que fazem a essência de um extremo. Difícil é conciliar essa velocidade com a precisão e diversidade de movimentos. Nesse plano, Malouda faz coisas que é raro ver noutros avançados de faixa no futebol actual. Encosta-se á linha no inicio da transição defesa-ataque e automaticamente dá largura ao jogo da equipa. Então, desenha linhas de passe ou abre espaço para a subida do lateral Cole. Nesses movimentos, flecte para zonas interiores, perto dos avançados-centro, onde se torna no elemento imprevisível nos espaços vazios, a triangular ou rematar. Todas as quatro equipas alinharam nos primeiros jogos com dois médios-centro. Chelsea (Essien-Lampard), Manchester (Carrick-Scholes), Liverpool (Xabi Alonso-Gerrard), Arsenal (Flamini-Cesc). Entre as inovações, atenção à nova asa direita do onze de Wenger. Eboué subiu para médio-ala direito e no seu anterior lugar, a lateral, surgiu o reforço francês Sagna. Uma opção que visa explorar o poder de explosão ofensivo de Eboué, colocando-o mais perto da área adversária. Os dois vão ganhando mecanização de tabelas e em trocas posicionais dão grande profundidade a todo o flanco. A atacar, Rosicky, partindo da esquerda, combina com os avançados vagabundos Hleb e Van Pesie. É o 4x4x2 mais móvel de todos, mas também o que defensivamente se desequilibra mais.

Manchester e «King» Gerrard

Dois jogos, dois empates. Em jogo jogado, porém, o Manchester United foi a equipa mais empolgante. Futebol ofensivo, aberto a toda a largura do terreno e velocidade. A ausência de golos pode ser uma razão directa: a falta de um verdadeiro ponta-de-lança no ataque, No primeiro jogo, alinhou Rooney-Giggs. No segundo, Giggs-Tevez. Avançados de categoria, mas sem o instinto de golo de um nº9 puro, como era, por exemplo, Nistelrooy. Defensivamente, a equipa está mais rigorosa, recuperando mais rapidamente após perder a bola. O futebol inglês tem, como mais nenhum outro, o dom de devolver o lado mais selvagem ao futebol. Como símbolo desse legado, o fabuloso golo de Gerrard, de livre directo, perto do fim, dando a vitória do Liverpool contra o Aston Villa. Um remate de longe, levando a bola, durante o percurso a descrever uma dócil curva, até entrar junto ao ângulo superior esquerdo. Mais do que rematar, Gerrard fez a bola descolar da relva, subir, ganhar vida própria e voar, como planando no ar, até se anichar no canto onde a coruja dorme, como dizem os brasileiros. Durante esse tempo, pode parecer estranho, mais até deu vontade de ser a bola. Voar, ver e sentir o lance como mais ninguém.

O regresso de Schmeichel

A fronteira entre a identificação e a imitação é por vezes tão ténue que é quase impossível distingui-la. Schmeichel é um nome famoso entre as redes. Marcou um ciclo em Inglaterra. O seu perfil iceberg, saindo aos adversários com os braços abertos, como um guarda-redes de andebol, um polvo gigante que tapava todos os ângulos, voltou aos relvados ingleses. Existe, porém, uma forte razão para esta assombrosa sintonia de estilos tão invulgar. O novo keeper possui igual apelido e é filho do velho Schmeichel. Depois de Peter, eis Kasper Schmeichel. De novo Manchester, mas agora o City. Os gestos, a forma como segue a bola, as discussões com os colegas e, claro, as grandes defesas. Uma pesada herança. O novo herói tem identidade própria, mas, por vezes, causa alucinações rever este estilo de culto de forma tão nítida. Até o mesmo nariz vermelho é igual. Época - clube - jogos - (suplente utilizado) - golos 2004/05 Manchester City 0 /0 2005/06 Manchester City Darlington [emprestado] 4 (0) 0 Bury [emprestado] 15 (0) 0 2006/07 Manchester City 0 (0) Bury [emprestado] 14 (0) 0 Falkirk [emprestado] 15 (0) 0 2007/08 Manchester City 2 (0) 0 0 Idade: 20 anos (5-Nov-1986) Altura/peso:1.82m • 76kg

SAGNA (Arsenal)

ÉPOCA - CLUBE-JOGOS- (Suplente utilizado) - GOLOS 2004/05 Auxerre 26 (0) 0 2005/06 Auxerre 23 (0) 0 2006/07 Auxerre 38 (0) 0 2007/08 Arsenal 1 (0) 0 O novo lateral-direito do Arsenal. Bakari Sagna, francês de origem senegalesa, 24 anos, vindo da escola do Auxerre. Elegante a conduzir a bola, sem receio dos lances divididos (apesar de só ter 1,76m e 72kg) é muito inteligente a inserir-se nos movimentos ofensivos. Tabela e desmarca-se. Fá-lo sempre, porém, sem correr riscos excessivos. Mantendo sempre o timing de recuperação controlado. Gere bem o equilíbrio, a defender, e a capacidade de desequilibrar, a atacar.

Micah Richards (Manchester City)

2005/06 Manchester City 11 (2) 0 2006/07 Manchester City 28 (0) 1 2007/08 Manchester City 2 (0) 0 Simplesmente fabulosas as exibições de Micah Richards nos dois primeiros jogos da Premiere League 07/08. Embora latera-direito de origem, é como central que arrancou de forma demolidora a nova época. Imperial no corte, de cabeça, no ar ou na relva, impecável sentido posicional, revela uma personalidade impressionante. Rápido e resistente fisicamente (1,80m. e 83k.) é, aos 19 anos, uma das grandes esperanças do futebol inglês. Claramente, um jogador de selecção.

Artigos Relacionados

  • Ranieri, destino fatal Ranieri, destino fatal 24 de Março de 2012 Após Mourinho, é impossível um treinador manter os mesmos jogadores. Do núcleo duro até às paredes, tem...
  • NOTAS INTERNACIONAIS (22) NOTAS INTERNACIONAIS (22) 22 de Março de 2012 1.NextGean- Futuro `com pernas`; 2. Existe futebol grego?; 3. Gomez é mesmo nº9 craque?; 4. O intruso...
  • As "ratoeiras" da velocidade As `ratoeiras` da velocidade 15 de Março de 2012 Uma equipa lenta como jogadores rápidos. Uma equipa rápida com jogadores lentos. Pode ser?
  • A “firma” de Klopp A “firma” de Klopp 15 de Março de 2012 Qual o verdadeiro valor de um dos treinadores menos falados mas, talvez de mais futuro no actual futebol...
  • NOTAS 2011/12 (32) NOTAS 2011/12 (32) 7 de Março de 2012 1. A questão do campeonato 2. Rubem Amorim: caso da época; 3. A `motatização` de Setúbal