Durante os últimos oito anos, desde que chegou em 99/00, falar no Arsenal é falar, antes de tudo o mais, em Thierry Henry. Não só pela sua qualidade, mas também pela forma como a sua forma de jogar se tornou quase como uma imagem de marca do jogo do onze de Wenger, ao ponto de condicionar todos os seus movimentos e levar à criação de um sistema táctico cuja dinâmica ofensiva de saída rápida para o ataque seriam impossíveis sem ele.
Ora, o que perturba hoje todo o mundo dos gunners é mesmo isso. Deprimido, castigado ou lesionado, Henry saiu da equipa e Wenger tem de pensar agora em como viver, de forma sistematizada sem o francês voador.
A importância da sua ausência, bem como às alterações que ela pode levar à forma de jogar da equipa, podem ser compreendidas analisando, primeiro, a construção táctica que permitiu a criação de um Arsenal de dimensão europeia.
Fiel adepto de um 4x4x2 ofensivo, Wenger sentiu que para criar um onze com uma personalidade táctica mais realista, diferente da revelada nos relvados ingleses, tornando-o mais consistente a defender, sem bola, teria de abandonar o sistema preferido.
Assim, passou a escalar um rochoso e traiçoeiro 4x5x1, em cujo segredo era a maior consistência táctico-defensiva do bloco do meio-campo dividido em duas linhas, uma delas de perfil duplo.
Ou seja, enquanto atrás Gilberto Silva-Fabregas escalam uma primeira linha defensiva no corredor central, à sua frente, outra linha, com três médios estendia-se a toda largura do terreno, com dois alas e um médio centro. Sem bola, eles recuam para ganhar superioridade numérica no meio-campo frente aos habituais 4 médios adversários, ficando a defender num bloco médio-baixo. Depois, de posse da bola, como que saiam dessa trincheira defensiva e soltavam-se, com os alas transformados em extremos, desenhando um 4x3x3 a atacar.
Nesta estratégia, o movimento típico de Henry recua para se encostar (ou esconder) sobre o flanco esquerdo, quase na entrada do meio-campo adversário, donde arranca depois em velocidade serpenteada rumo à baliza adversária.
Van Persie: chave ofensiva do 4x4x2

Esta época, embora mantendo os grandes princípios de jogo (entenda-se movimentos individuais e colectivos preferenciais) deste modelo, deu-lhe um nuance estratégica mais ofensiva com a introdução de um segundo avançado que, embora quase sempre descaído sobretudo sobre um flanco, gravita em torno do ponta-de-lança Henry, e entrando de trás, desenha, a atacar, um claro 4x4x2. Este novo talento que se tornou um jogador chave no Arsenal 2006/07 chama-se Van Persie.
Sem Henry, a sua importância na dinâmica do sistema torna-se mais evidente, pois no lugar do francês, a opção natural, é Adebayor, semelhante em termos de estilo e cultura de lugar, mas muito diferente nas movimentações.
Sempre que Henry não pode jogar esta época (em jogos mais difíceis como contra Manchester United, Hamburgo e Tottenham), ele foi o escolhido para ocupar o seu lugar.
Na forma de jogar, o Arsenal é hoje uma equipa esticada no campo que prefere, estruturalmente, o passe longo para contra-atacar, defendendo em bloco-médio baixo, em vez do passe curto, essencialmente utilizado quando prefere baixar o ritmo de jogo. Como no Porto, jogando com o empate, terá como objectivo para controlar o jogo tornar o seu ritmo mais lento, é natural que prefira juntar mais as linhas e progredir de forma curta e apoiada.
Eboué, Cesc, Hleb e Van Persie:
Imaginação em movimento

Solução 1: 4x4x2 (variante 4x4x1x1): Utilizada em Hamburgo e contra o Tottenham. Dois médios no corredor central, Gilberto Silva mais posicional a defender, e Fabregas mais solto no transporte de bola defesa-ataque. Ljungberg ou Hleb abrem na ala direita, combinando a atacar com o lateral-direito Eboué, muito forte quando sobe pelo seu corredor, causando desequilíbrios e centrando tenso para a área.
Rosicky é chave para dar maior sentido de organização de jogo na zona de construção, não ficando, assim o onze tão dependente das subidas de Fabregas. Combina na perfeição com Van Persie nas trocas posicionais. Inteligente, Rosicky tanto surge descaído sobre a esquerda, para manter a largura de jogo quando Van Persie se aproxima de Adebayor no centro do ataque, como flecte para pegar na bola no centro, quando Van Persie abre na faixa e arranca depois a partir daí rumo à área adversária. Sem o checo, lesionado, é provável que Wenger coloque Hleb a fazer esse papel, mais no estilo rompedor para cair na faixa quando Van Persie flectir, do que na missão de organizador, para o qual não é particularmente vocacionado. Ljungberg também pode fazer esse lugar, ficando nesse caso Hleb na outra faixa.
Solução 2: 4x1x4x1. Utilizada na vitória em Manchester. Com apenas um pivot-defensivo fixo (Gilberto Silva) abriu nas alas com Ljgunberg, à direita, e Hleb, à esquerda, reforçando a zona de transição do meio-campo com dois médio centro (Fabregas-Rosicky), lançando o contra-ataque logo após recuperação de bola. Sozinho na frente, Adebayor. Na direita, a subir, Eboué continua decisivo para dar profundidade à faixa. Sem Rosicky, poderá surgir Julio Baptista, o que torna todo aquele sector muito mais «pesado» e dificil de controlar se a dimensão física do jogo subir.

A opção Júlio Baptista
Solução 3: Quando, durante o jogo, Wenger sente necessidade de dar um novo impulso ofensivo à equipa, o homem a lançar é Júlio Baptista. Esta época apenas fez um jogo a titular.
Mantendo a mesma estrutura, o brasileiro tem, em comparação com Adebayor, maior amplitude de movimentos, podendo até jogar como médio, mas é menos vocacionado para lutar entre os centrais.
Com Baptista, jogador que recua e sabe jogar entre-linhas melhor do que Adebayor, a equipa necessita, no entanto, de ter um outro jogador em campo mais dinâmico para dar maior profundidade de jogo pela faixa. Mantendo-se Ljgunberg na direita, seria Hleb a alargar o jogo na esquerda. Com a força de Baptista, ao lado de Fabregas, o 4x5x1 aumenta, nesta opção, a solidez do seu bloco do meio-campo a defender e atacar, recuando e avançando conforme a posse.
O SUBSTITUTO NATURAL:
Os movimentos de Adebayor

O espaço pode ser ocupado na mesma, mas não com igual qualidade, estilo, amplitude de movimentos individuais e visão de jogo de Thierry Henry. É isso, afinal, que faz um verdadeiro fora-de-classe. Capacidade de, por si só, fazer a diferença no confronto entre dois sistemas iguais.
Fisicamente, Adebayor até pode ser algo semelhante, mas, nos movimentos, é muito diferente. Sem receio em jogar entre os centrais, de costas para a baliza, quando recua, em vez de depois arrancar em velocidade como Henry, prefere o passe para a subida dos médios que entram desde trás.
Ou seja, enquanto com Henry são os médios (alas e segundo avançado) que ficam à espera do que ele vai fazer, com Adebayor é ele, pelo contrário, que fica à espera de como os seus colegas se vão movimentar para depois fazer o passar.
Antecipação e fora-de-jogo

É, portanto, um avançado mais posicional. Move-se num espaço de terreno muito menor, raramente foge para muito longe das imediações da área. Enquanto Henry marca os golos que ele próprio cria, Adebayor marca aqueces que os seus colegas fabricam.
É, por isso, menos difícil de marcar, mas o seu estilo veloz de perna longa, arrancando em passada larga, engana muitas vezes. Parece que não vai chegar à bola, mas chega. Sendo sobretudo vigiado, por exemplo, por Pepe, encontra um marcador que, fisicamente, quase parece uma sua fotocópia. O segredo, depois, estará em quem ganha a bola e o espaço em antecipação.
Um dos aspectos em que Adebayor é, no entanto, muito forte, e nisso diferente de Henry, reside no seu particular gosto em jogar no chamado limite do fora-de-jogo. Posiciona-se bem, de perfil com o último defesa e, depois, tenta, no momento exacto do passe, arrancar nessa linha para se isolar. O último jogo com o Tottenham demonstrou na perfeição esse seu atributo. Questão, portanto, de ganhar espaços e não recear duelos em velocidade.