O “Ásterix” espanhol

8 de Julho de 2010 22:00
Naquele cabeceamento de Puyol, a bola levava a força de quem ia mudar o curso da história

 

Um estilo sugere uma atmosfera diferente no ar. Neste caso, futebolisticamente falando, na relva. Quando Puyol subiu para cabecear por entre uma montanha de defesas alemães, levava consigo a alma com mais 100 anos de história do futebol espanhol. A caminho da baliza, imparável, a bola levava a força de quem queria mudar o destino. Após longas décadas presa ao mito da fúria, o estado de espírito que muitos confundiram com estilo, a Espanha mudou o curso da (sua) história. Criou um novo estilo, inspirado por um profeta holandês, Cruyff, a escola que, ironia do destino, vai defrontar na Final, e revolucionou o futebol moderno no sentido em que frisou a importância de ter a bola em contraste com outros projectos que, em nome de teses defensivas, a rejeitam como «bem essencial» para ganhar um jogo.
Nesta encruzilhada do tempo e de estilos é, por isso, simbólico, que o jogador que protagonizou essa passagem de fronteira (com um golo voador) tenha sido aquele que, talvez, melhor personifique essa mescla temporal e estilística. Puyol é uma espécie de Asterix espanhol, tal semelhança física com o herói da banda desenhada, baixote, cabelo comprido meio ruivo e jogando quase como tivesse um frasco de poção mágica atado à cintura. A diferença é que essa poção mágica, no ideal colectivo, já não é fúria, mas sim a técnica…feita táctica. 
De repente, em nome desse estilo, esfumaram-se do jogo monstros físico-tácticos como Schweinsteiger e Khedira. Terá sido o dia em que a Alemanha, habitualmente sempre de nariz no ar e botas cardadas, mais se condicionou (no campo e na estratégia) ao jogo do adversário. Em nome do respeito pela bola, a Espanha desmistificou a tese das transições rápidas como forma ideal de sair para o ataque. A Espanha faz transições lentas e apoiadas entre-linhas. Lateraliza o jogo em vez de o verticalizar, mas à medida que gira o jogo (e a bola) vai abrindo espaços de progressão. Faz uma construção pensada: 14 ou 16 passes para chegar à baliza (cansando o adversário) em vez de 3 ou 4 mais directos (dizendo logo tudo ao adversário). E, no final desse caminho, tem sempre uma moral adequada para dar à história (jogada).
 
 
 
O factor Xabi Alonso
 
No debate sobre o duplo-pivot (conceito e dinâmica) que envolveu este Mundial, a evolução do jogo espanhol também se tornou um elemento essencial para o perceber. O jogador que interpretou essa transformação é Xabi Alonso. A forma como, à medida que os jogos foram avançando, se foi libertando (em pose) do espaço posicional do duplo.pivot, que nessas alturas, fica entregue apenas a Sergio Busquets, mudo a face do meio-campo e construção de jogo espanhol. Nessa dinâmica, o meio-campo passava de «2x1» para «1x2», com Xabi Alonso mais próximo de Xavi (surgindo muitas vezes até a tentar o remate) do que de Busquets. Noutro contexto, também permitiu que Xavi passasse a baixar mais vezes para pegar a bola atrás e conduzi-la desde esses espaços como ele tanto gosta (e tão bem faz).
Tudo isto são processos de construção de um jogar que emerge do próprio jogo. Del Bosque soube entender essas cambiantes que o jogar espanhol necessitava e hoje, cruzando a subida (no campo) de Xabi Alonso com a maior largura e profundidade na ala que Pedro (como podia ser Silva ou Navas) pode dar, conseguiu dar uma face táctica mais completa à dinâmica do processo de construção e definição atacante do jogo da equipa.

 

 

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