O "berço" do génio

24 de Dezembro de 2011 10:13
Qual o melhor local para o futebol de Neymar crescer, Brasil ou Europa? Três centrais, “3x7x0” e Guardiola além de Cruyff:

 

O Santos andou quase meio ano a prepara este jogo. No final, Muricy Ramalho, o treinador brasileiro tacticamente mais elogiado, disse que o Barcelona jogara num sistema de 3x7x0. O «0» era o número de avançados que, em termos de referência posicional, colocava no sector atacante. Para combater esta ideia, Muricy montara uma estratégia táctica com…três defesas-centrais! Esta simples constatação diz muito de como está hoje o pensamento brasileiro sobre a abordagem táctica do jogo. Os três centrais nunca viram quem marcar durante o jogo porque, pura e simplesmente, nunca viram um avançado perto deles de forma permanente. Eles não estavam lá. Eles apareciam lá.
 
Essa falsa ausência de avançados no modelo de jogo do Barça é sua imagem de marca há duas épocas, pós-Ibrahimovic. Nunca antes o Santos jogara assim como esquema preferencial. Com essa opção, Muricy desmontou o meio-campo (tirou Elano) ficando sempre em inferioridade numérica na ocupação dos espaços frente ao tal sector de «7» jogadores do Barcelona. Quando tentou recompor o seu esquema habitual (metendo Elano e tirando um defesa), já os avançados invisíveis do Barça tinham engolido o jogo e toda a magia brasileira prometida.
 
Reflectindo sobre a crise do futebol argentino, Menotti dizia que antes a essência de jogo era “passar e, depois, correr”, agora é “correr e, depois, chocar”. É uma ideia que pode-se estender ao conjunto sul-americano que, no passado, ensinara aos europeus exactamente o contrário, quando pelo Velho Continente mandava a filosofia da força.
Após cada golo e jogada encantada do Barça, o ecrã enchia-se com um grande plano de Neymar estarrecido com o que via e a pergunta entrava então na nossa mente: poderá o génio de Neymar triunfar já no futebol europeu? Repare-se, não questiono a sua imensa qualidade e imaginação técnica. Questiono o transfer disso para as maiores exigências europeias a pensar o jogo e movimentações necessárias para lhe meter toda essa magia de finta, passe e remate. Penso na resposta e concluo que para a encontrar, a questão deve ser diferente: qual o melhor lugar para Neymar crescer? No seu Brasil sul-americano ou na Europa?
Não acho que o problema sul-americano esteja, na essência, dos jogadores. Porque os talentos continuam a nascer. O problema é que depois, na idade sénior, eles são preferidos a modelos mais atléticos e combativos. Por isso, Menotti falava desse processo dizendo que “onde antes existia formação, agora existe deformação”. O futebol sul-americano (e brasileiro em particular) necessitava, sem dúvida, de visão mais competitiva, mas tudo isso necessita de um enquadramento táctico para o qual o treinador brasileiro está, no geral, muito atrás dos europeus, sobretudo latinos. Por isso, o melhor local para Neymar crescer, para poder jogar no…jogo tudo o que sabe, será na Europa. O objectivo é só um: fazer crescer tacticamente a técnica dos jogadores.
 
 
Guardiola além de Cruyff
 
Compara-se muito este Barcelona com outro idolatrado nos anos 90, o Dream Team de Cruyff. A fonte de inspiração, o berço do estilo é, de facto o mesmo. Existem, porém, muitas diferenças. Este Barça de Guardiola é, tacticamente, um upgrade do Barça de Cruyff. É muito melhor equipa porque Guardiola acrescentou-lhe um factor fundamental: saber defender. O decálogo de Cruyff só vivia para o momento ofensivo. Goleava mas também levava 6 em Saragoça ou 5em Osasuna. Com o estilo Guardiola isso é impossível.
A equipa é um poema de posse de bola, passe, técnica, jogo posicional e mobilidade, mas nunca se desequilibra em campo no momento da perda da posse. Ou seja, tem a organização defensiva sempre muito bem definida. Viu-se em, Madrid como a sua defesa a «3» se moldou ao Real e voltava ao desenho a «4» sem nunca perder a sua personalidade. Puyol caiu na direita, Dani Alves subiu para ala, mas a chave para todo esse relógio táctico, é um jogador que Menotti, quando o viu, telefonou logo a um amigo a dizer: “Vi um jogador de uma espécie desaparecida!”. Esse jogador é Busquets. No papel, pivot. No jogo,também central. Referência posicional sem bola e qualidade de saída em posse. Um «pivot ordenador». O pilar das manobras tácticas de toda a equipa nos diferentes momentos: equilíbrio defensivo e segurança…ofensiva. É El Pep Team, para além de Cruyff
 

 

 

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