Leio uma entrevista com Paulo Sérgio, treinador do Guimarães, e quando lhe perguntam se sente prejudicado por haver quem diga que não tem boa imagem, responde que “não dá muita importância a isso. Um bom casaco não faz um bom treinador, mas um bom treinador faz um casaco”. Depois de alguns jogos e, sobretudo, de alguns vários bons resultados, é, de facto assim. O maior exemplo é, claro, o sobretudo cinzento de Mourinho. Ficou famoso porque foi ele que o levou para o banco e não o treinador do Stoke. No início, porém, o mesmo casaco não é visto da mesma forma num treinador como noutro. Sempre se falou nos chamados “treinadores da moda”. Mais do que a simples questão de ganhar, essa entrada na moda (e, consequentemente, na preferência das escolhas de mercado dos clubes) resulta de um protótipo de imagem que, ciclicamente, se cria.
O boné de Pedroto já teve na moda, os bigodes farfalhudos de Artur Jorge também, tal como o chapéu de Macieira de Eriksson. O poder (das vitórias) dá carisma. Mas, paralelamente, também cria mitos e fogueiras. Que ora promove treinadores, ora destrói competências dos mesmos. Ou seja, não é de facto o casaco que faz o “bom treinador”, mas para o dirigente que escolhe há uma pré-concepção de imagem de sucesso que condiciona a escolha. Por isso, a geração de pequenos “novos mourinhos” cresceu tanto após o sucesso do verdadeiro. O discurso curto é assertivo, auto-confiança quase arrogância, barba de três dias, sobrolho carregado. Até aqui tudo bem. Só faltava ganhar. E, em muitos casos, esse pormenor restante nunca foi alcançado. Até a imagem voltar ao seu verdadeiro local.
Poderá a imagem de Jorge Jesus esbracejando e mascando ao mesmo pastilha elástica com a boca aberta tornar-se uma “ boa imagem” de marca para os novos treinadores da moda? Se ganhar, sim. Da mesma forma que, quando ainda preso em clubes de segundo plano, se dizia não ter perfil (ou imagem) para treinador de um “grande”. Jesualdo permanece à margem de todos estes debates. Critica-se muito a sua postura “esfíngica”. Diz-se que “não chega aos adeptos”. Já ganhou três campeonatos mas a sua imagem continua sem cativar. Ou, pegando nas reflexões anteriores, não se torna “moda”. Como explicar? Não é muito fácil, até porque, vendo bem, o professor mudou muito nos últimos anos. Cortou o bigode do treinador português à moda antiga, actualizou o corte de cabelo, veste roupa de marca. Deixou de fumar no banco mas não começou a mascar chiclet. No plano do conhecimento futebolístico, nada disto faz sentido.
Afinal, que qualidades e características fazem, em teoria, um grande treinador? Os métodos de treino, a capacidade de unir o grupo, a autoridade no balneário, o saber táctico, a astúcia em ler o jogo? Os livros ou a experiência dos relvados? Será uma mescla de tudo, com um pequeno (grande) pormenor no dia-a-dia da equipa: conseguir entrar na cabeça dos jogadores!
Trata-se, no fundo, de uma tese que espelha a ideia de que a comunicação, ou, digamos, o invólucro que reveste o discurso, é, muitas vezes, o segredo do sucesso ou, pelo menos, da sedução. Mas nem todos podem ser um “D.Juan”. Muitas vezes sucede um treinador ter um conteúdo perfeito mas falhar no chamado invólucro que, no fundo, vende a sua imagem e projecto. O treinador da moda tem as duas coisas. O curioso é que a primeira só se descobre depois de construída a segunda.
Todas estas imagens e conceitos parecem uma face oculta do jogo. Não são. Porque dentro dela esconde-se o poder e a eficácia da comunicação (para jogadores, dirigentes, adeptos, imprensa..). Mais do que um choque de conceitos, é um choque de personalidades, no discurso e na postura. A imagem tanto pode ser uma feira de vaidades como uma fogueira de competências. Para o moderno futebol pragmático, a fronteira entre as duas é muito ténue. A diferença é feita por uma bola no poste ou dentro da baliza.