Dois treinadores filosoficamente divididos e um jogador vindo de outro planeta. Milão entre Terra e Marte. Quando, porém, numa das jogadas iniciais, a bola veio parar pela primeira vez aos pés do ET, leia-se Messi, logo surgiu, voando baixinho, um jogador meramente terreno, leia-se Cambiasso, que com um tackle decidido roubou-lhe a bola. O estádio reagiu entusiasmado. Aquele jogo ia, afinal, ser disputado num relvado do planeta Terra. A aparição mais semelhante a um ser supra-natural surgiu noutro sector e espaço. Passada larga, a natureza colocada ao serviço da inteligência táctica. É o futebol de Maicon, o lateral-direito locomotiva do Inter. Mourinho sabe da sua importância. Os seus avançados, em campo, também. Por isso, mal pressentem ao longe a aproximação das suas pisadas aterradoras, aquele que estiver (Eto´o ou Pandev) no flanco por onde ele vai entrar, afasta-se (fazem um movimento interior) para ele passar. Os últimos jogos revelam, porém, cada vez mais um movimento diferente no desequilíbrio ofensivo. Em vez de ir à linha, procura um movimento interior, uma diagonal de ruptura e penetração por dentro, sendo, ao invés, o avançado que abre (encosta-se) na faixa. Reveja-se o lance do 2-1. Dessa forma, a máquina de Mourinho rompeu a organização defensiva do Barça. É Maicon, o estranho caso do lateral transformado num interior rompedor.
Quando se usa a palavra «pressão», pensa-se logo numa equipa a não deixar jogar. Muitas vezes, é, de facto, mesmo assim. Joga-se para pressionar. A diferença nas grandes equipas é essa palavra não se esgotar nesse lado redutor e conseguir… pressionar para jogar. O Inter uniu estas duas faces da «pressão». Conseguiu levar o jogo para onde os seus jogadores (ou melhor, o modelo a que estão habituados) se sentem melhor. Permitiu ao Barça subir, resistiu a sair no corte e correr o risco de perder o posicionamento defensivo, deixando a pressão colectiva organizada para linhas mais adiantadas. O encarceramento táctico de Xavi e Mesi teve essa origem. Depois, o lado construtivo do pressing, pós-recuperação, com uma transição rápida que, preferencialmente, se expressa num passe longo. Reduziu espaços a defender («campo pequeno»), esticou-os a atacar («campo grande») mesmo com distância entre-linhas.
No papel, as equipas até desenhavam a mesma estrutura (4x2x3x1) mas as formas de expressão são muito diferentes. Nesse jogo de diferenças, um roubo de bola teve mais força do que um drible. Cambiasso desarmou Messi e o estádio vibrou. Há algo de estranho nisto. Era como numa banda desenhada de super-heróis vencesse a ameaça. Veremos em que planeta será a segunda parte desta história.
O triunfo
do drama
Pode-se acreditar quando diz que não se sente feliz no futebol italiano. Depois de Inglaterra, onde as emoções (como o jogo) correm soltas, Itália é uma espécie de cárcere emocional futebolística. Esse lado dramático do jogo é, no entanto, a face mais fiel do seu futebol: o estilo-Mourinho. A táctica como moldura e mordaça de uma equipa que ambiciona partir os corações dos adeptos do futebol romântico.
Messi entre três adversários, mais do que uma marcação individual, uma marcação “tridimensional” no espaço por onde ele se movia. Aprisionado o mágico partiu-se para outra tarefa: aprisionar o cérebro, entenda-se Xavi. Tirar-lhe espaço significou tirar-lhe tempo para pensar.
Depois, a segunda parte do plano, com as suas locomotivas em velocidade. Três-quatro passes e a bola logo perto da baliza, num trajecto no qual o Barcelona prefere fazer com 13 ou 14. Conceitos diferentes por entre os quais o dramatismo que Mourinho e a atmosfera clássica do futebol italiano fura com uma frieza insensível ao jogo mais tecnicista que o outro lado possa apresentar. S. Siro não é para românticos. Talvez o Nou Camp.
Lahm, a “carta” de Van Gaal
A acção do jogador, o pensamento do treinador. O que nasce primeiro? Existem muitas formas de explicar um resultado. Muitas vezes, elas até coexistem, mas há sempre uma mais importante do que as outras. O Bayern venceu o Lyon e sobreviveu 30 minutos com menos um jogador (expulsão de Ribery). Depois, expulso Toulalan, igualdade numérica restabelecida, pegou no jogo e ganhou. Seria tentador dizer que a razão para a vitória esteve nesse segundo momento, quando atacou mais, mas, decompondo o jogo, conclui-se que tal só foi possível pela forma como esteve quando em inferioridade. Nessa altura, impôs-se o rigor das ordens do treinador. Por isso, no fim, Lahm dizia que “a disciplina táctica fez a diferença. Mantivemo-nos disciplinados mesmo só com 10 e seguramos bem a bola”.
A cartilha de Van Gaal nunca teve uma face amigável, mas quando o jogo cai no território da hostilidade táctica, ninguém como ele sabe colocar-lhe uma mordaça. Defrontar Mourinho na Final seria o supremo choque dos «monstrostácticos» mais duros.