Trata-se, essencialmente, de uma questão conjuntural. O futebol inglês vive, a vários níveis, um período de transição, mas o facto de há doze anos (desde Howard Wilkinson, em 92, com o Leeds) um técnico inglês não vencer a Liga inglesa, ao mesmo tempo que a própria selecção é orientada por um estrangeiro, é suficiente para que as consciências do football da Velha Albion se questionem sobre qual o verdadeiro valor dos seus actuais treinadores.
Os anos 80 foram dominados, sobretudo, por duas figuras: Bobby Robson, na selecção, e Terry Venables, no Tottenham e em Barcelona, depois do castigo imposto no pós-Heysel, ter impedido a continuidade da obra europeia de Howard Kendall, mentor, nessa época, da empolgante equipa do Everton, onde brilhavam talentos britânicos como Trevor Stevens, Peter Reid, Sharpe e Andy Gray, entre outros, vencedor da Taça das Taças e da Liga inglesa em 1985. Apesar dos títulos e da reputação internacional lograda, Kendall não era, no entanto, o tipo de treinador para passar muito tempo a ensaiar sistemas tácticos. Como todos os onzes ingleses dessa época jogava num linear 4x4x2, só alterado nos jogos europeus fora, contra adversários fortes, quando adoptava o 4x5x1. Em casa, voltava ao mais rudimentar estilo, como conta Andy Gray em Flat Back Four, no qual descreve a prelecção de Kendall no intervalo do jogo com o Bayern Munique, na meia-final, a perder por 0-1: “Eles estão cheios de medo do jogo aéreo. Aterrorizados com Andy e Sharpy. Portanto, nada de passes para o lado, mal tenham a bola despejem-na, de qualquer lado, para a área. Algum ressalto irá sobrar para nós!” E, assim foi. Resultado final: 3-1
Após cinco anos fora da UEFA, as equipas inglesas sofreriam, no entanto, para redescobrir o ritmo ideal de jogar contra os onzes continentais. Uma nova geração despontara sem competir fora das ilhas. Demasiado presa ao rude kick and rush, chuta e corre, confundiam-se face ao estilo apoiado e tacticista das equipas latinas. A nível de treinadores, a última década e meia, também sentiu essa encruzilhada temporal, condicionada, sobretudo, pela invasão estrangeira.
Após cinco anos fora da UEFA, as equipas inglesas sofreriam, no entanto, para redescobrir o ritmo ideal de jogar contra os onzes continentais. Uma nova geração despontara sem competir fora das ilhas. Demasiado presa ao rude kick and rush, chuta e corre, confundiam-se face ao estilo apoiado e tacticista das equipas latinas. A nível de treinadores, a última década e meia, também sentiu essa encruzilhada temporal, condicionada, sobretudo, pela invasão estrangeira.
Steve McClaren: Um técnico inglês
para marcar o futuro

Para melhor analisar o momento dos treinadores ingleses, importa salientar, historicamente, a diferença de estilos e cultura que sempre se sentiu em relação a outra casta britânica, os escoceses, de Shankly e Busby até Ferguson, mentores das maiores glória dos grandes clubes ingleses. A Escócia cultiva, no entanto, desde a origem, uma abertura multicultural diferente, com maior tradição táctica na abordagem do football. O treinador inglês com maior visão para lá da mancha foi, claramente, Bob Paisley, profeta do mítico Liverpool dos anos 70, em cujos onzes, os defesas (Alan Hansen, Thompson, Neal, Smith e Hughes) já se sentiam, pela primeira vez na história, algo confortáveis com a bola nos pés.
Da geração que jogou nos anos 80, e hoje se senta nos bancos, nota-se uma clara indefinição estilística, vislumbrada, por exemplo, nos conceitos de Keegan ou Hoodle, respeitados por todos, mas, na selecção como nos clubes, incapazes de encontrarem a consistência defesa-ataque susceptível de equilibrar o onze, enquanto Peter Reid, antigo jogador do Everton, é um moderno discípulo de Kendall.
Neste contexto, perante o olhar patriarcal de Bobby Robson, três treinadores, respeitadores do passado e astutos com o presente, emergem para resgatar o orgulho inglês: Alan Curbishley, 45 anos, no Charlton, e, sobretudo, Steve McClaren, no Middlesbrough, antigo discreto adjunto de Ferguson e Eriksson, 42 anos, mas treinador já desde os 30, nos juniores do Oxford, após uma lesão nas costas o ter afastado dos relvados. É, ao mesmo tempo, um excelente condutor de homens e um inteligente arquitecto táctico, liberto dos dogmas britânicos, tem o perfil ideal para a selecção inglesa.
Entre os dois, situa-se outro nome a considerar: Sam Allardyce, 49 anos, o treinador Bolton que assiste sempre a primeira parte dos jogos na bancada comunicando por telemóvel com o seu adjunto no banco. Os três têm, como disse McClaren, uma das maiores qualidades do dito treinador moderno: conseguir entrar dentro da cabeça dos jogadores!