O “comboio fantasma”

April 9, 2011 4:01 PM
Corunha, Sampdoria e River Plate. Seguindo históricos na II Divisão

 

O futebol é tão rápido que causa alucinações. Brinca com a história. E, nessa roleta russa com bola, clubes históricos surgem em divisões secundárias. Passei a última semana a seguir três deles: Corunha, Espanha, a Sampdoria, Itália e, claro, River Plate, Argentina.
Só o impacto com o nome do adversário choca: Desamparados de San Juan. Bem-vindos à Nacional B mais profunda do fútbol argentino. O onze do River de Almeyda está quase todo renovado, mas no ataque tem uma velha dupla de estrelas: Cavenaghi e El Chori Dominguez. Quem agarra a equipa são dois reforços que jogam atrás deles: Cesar Sanchez, uruguaio de raça e remate, e um pibe de…17 anos, ainda com a casca de ovo na cabeça, Ocampos. É um jogo passional. Na semana anterior, já tinha sofrido frente ao Independiente de Rivadavia. Com a cancha enlouquecida sofreu o golo primeiro. A reacção surgiu. O 1-2 resultou de uma confusão na área que o comentador da TV argentina definiu na perfeição: agora sim, este é um típico golo de II Divisão. E é assim que o River tem de passar a viver. Aprender que aqui, mais de que jogar, luta-se. Contra o Desamparados, Sanchez pegou na equipa nos últimos 30 metros. Ganharam 3-1, com Passarela, o caudillo agora presidente, encafuado num camarote. Ver o River na II Divisão é uma autêntica viagem num comboio fantasma. Tão fascinante como perturbante.
 
Na Corunha, o Depor entra em campo pela mão (cabeça e chuteiras) de um professor sem idade: Valeron. Riazor arrepia. Tem mais adeptos do que a época passada. 20 mil a carregar a equipa com um cartaz a recebe-la: Volveremos! Este é o futebol que me faz emocionar. A época passada sofreu até ao último segundo por um golo salvador que nunca chegou. Nesta, começa a marcar logo no início. O futebol brinca com os sentimentos. Colotto festeja como se o golo valesse a subida. Mas não. Faltam mais…41 jogos. O onze tem muitos jogadores que não fugiram ao inferno: Pablo, o portero Aranzubia, Guardado, Riki e, claro, o patriarca Valeron agora a jogar mais adiantado. 
Em Itália, a Sampdoria mantém a estrutura da época passada. A Série B italiana não difere muito, na essência táctica, do Scudetto principal. Palombo, o homem-capitão que no último jogo da época passada, pedia, lavado em lágrimas, desculpa aos adeptos, marca um grande golo de livre na estreia frente ao Padova. Festeja com raiva. A equipa tem jogadores experientes. Aparece Maccarone, Pozzi ainda mexe no ataque, Romero na baliza, mas, como seta espetada no coração, um golão de Milanetto, ex-Genova, o rival visceral, faz o empate. A Samp percebe como é longa a estrada da Série B (22 equipas…).
 
Com o avançar da época todo este lado passional que domina os jogos destes históricos na II divisão irá desvanecendo. Surgirá o verdadeiro impacto com a realidade. Um relvado de futebol rodeado de adeptos ansiosos por todo o lado nunca foi um conto de fadas de muita confiança.
 

 

 

Artigos Relacionados

  • Ranieri, destino fatal Ranieri, destino fatal March 24, 2012 Após Mourinho, é impossível um treinador manter os mesmos jogadores. Do núcleo duro até às paredes, tem...
  • “Lost in translation”* “Lost in translation”* July 2, 2012 O abraço de Mourinho a Sérgio Ramos. A importância de não perceber as palavras para tornar a história...
  • Atraídos pelo impossível Atraídos pelo impossível May 8, 2011 A nova época coloca novos dilemas: como fazer para melhorar? Comprar muito ou pouco? E para que posições?...
  • O “tanque” e o “burrito” O “tanque” e o “burrito” June 18, 2011 Estranhos heróis do fútbol argentino. O onze de Gareca, o treinador saído das profundezas da alma
  • Notas 2010/11 (23) Notas 2010/11 (23) May 2, 2011 1. Liedson: sete anos depois… 2. E depois de David Luiz? 3. Uma questão de pedigree