Fabricar estrelas no futebol nunca foi tão fácil. Imaginem um país qualquer. O seleccionador entra na conferência de imprensa, diz boa tarde, anuncia os convocados, mas falta um jogador que anda agora a aparecer. A pergunta surge de imediato. O treinador explica que não o convoca porque ele ainda está a crescer, ainda não “explodiu” mesmo. “Como não? Então ainda hoje partiu tudo no jogo onde entrou”, logo o corrigem. O treinador fica espantado pois estivera a ver o jogo e nada disso se tinha passado. “Quando? Nos últimos minutos, uma jogada espantosa”. É então que se lembra. Saíra cinco minutos mais cedo para fugir ao trânsito. Devia ter ficado. Foi o que bastou para perder a confirmação dessa estrela. É assim que funciona hoje o futebol. Um simples lance, no momento certo, pode fazer um jogador. A fronteira entre a ilusão e a afirmação é tão ténue que assusta. As contratações também seguem esses impactos.
Referindo-se à essência do homem, Sartre dizia que “ninguém é mais do que parece”. Não sei se filosoficamente terá razão, mas futebolisticamente, num tempo de futebol de impactos, tenho dúvidas. Nesse mundo de ilusões, nem sempre as coisas são o que parecem. São craques aqueles que nos fascinam de verdade todos os jogos e por vezes também os que numa jogada bem vendida furam entre a elite. Como os distinguir?
Existem algumas fórmulas. O futebolista joga sempre por inspiração, no sentido que tem de resolver situações imprevistas que surgem no jogo. O craque verdadeiro será aquele que mais situações resolve consecutivamente. Por isso, desconfio de olheiros de apenas um jogo. Para fazer uma contratação segura, pelo menos seis jogos, três em casa e três fora, em ambientes diferentes, contra adversários distintos no grau de dificuldade. Porque, no futebol, muitas vezes alguém é menos (ou mais) do que parece.
Mas nem sempre as coisas são assim tão simples. Di Maria é um jogador que confunde todas estas teorias. O golo que marcou na Final olímpica, um “chapéu” fantástico em corrida, após veloz desmarcação, arrepia quem o vê. Tem mais força do que muitas jogadas juntas. O seu nome surge em várias listas de grandes clubes europeus. O Real Madrid pensa nele. Fala-se em verbas faraónicas. E, no entanto, Di Maria nem é titular no Benfica. Cada jogo seu é uma “montanha russa”. Nuns lances, é um craque. Noutros, um jogador vulgar.
Muitos jogadores provocam esta sensação enigmática. Como decidir? O segredo é tentar “pintar” o jogador. Isto é, definir qual a sua característica mais forte do seu jogo e dar-lhe uma “cor”. No caso de Di Maria a “cor” dominante é a velocidade. A explosão nos espaços vazios. Aproveita-os muito bem, mas não é exímio a criá-los. Executa rápido, mas tem dificuldade em espaços curtos. Olhando estas “tonalidades”, quem o contratar deve olhar primeiro para a forma de jogar da sua equipa e perceber se as suas características fortes encaixam ou não nesses espaços, ritmos e estilo de jogo dominante. A confusão que o valor de Di Maria provoca resulta da falta dessa prévia definição de moldura táctica na relva.
Isto vale para muitos jogadores mas pressa de descobrir craques turva este processo. Para um jogador ter muitas vezes inspiração no relvado tem que a merecer. Como? Estando no jogo durante 90 minutos e não só a espaços. Não treinar apenas exigindo suor, mas sobretudo estimulando o pensamento. Nunca ficar só a olhar para o jogo. Mesmo com a bola longe, o verdadeiro craque descobre sempre qualquer coisa de útil para fazer em campo. Nem que seja só decidir o que vai fazer na jogada seguinte quando tiver a bola. O melhor improviso, mesmo no futebol, é o preparado.