Chamam-lhe o Derby do Mundo e nos mil e um nomes do velho e novo futebol essa definição espelha bem as diferentes formas como, através dos tempos, a bola foi tratada. Itália e Brasil, Europa e América do Sul, Velho Continente e Novo Mundo, a táctica e a arte. Do duelo Leônidas-Meazza, nos remotos anos 30, passando, nas grandes Finais, pelo recital de Pelé em 70 e o drama do penalty falhado de Baggio em 94. A suprema memória destes duelos de galáxias futebolistas mora, porém, em 82: Zico e Falcão contra Conti e Rossi, o ponta-de-lança com cheiro a enxofre que, numa tarde abrasadora, disse como a fria táctica podia vergar a mais sedutora arte. Para muitos, naquele dia, o futebol romântico morreu.
Quando me preparo para assistir, na neblina de Londres, a mais um derby do mundo todas estas imagens cruzam-se na mente. São outros tempos. A dungazização do futebol brasileiro inventou um novo rosto e, no seu posto, surge um jogador alto, forte, que apesar de ter começado a carreira como médio ofensivo tornou-se, no futebol adulto, num médio pica-pedra que amassa a bola à frente da defesa. Apoiado por Elano e Gilberto Silva, o 4x3x1x2 canarinho rouba o primado da táctica ao dolce fare niente italiano. Lippi joga dois jogos em 90 minutos. A primeira parte em 4x3x3, a segunda em 4x4x2. Pirlo e De Rossi ganham lugar no meio-campo, mas Montolivo, o médio mais ofensivo, cai para dar lugar a outra face táctica, mais comedora de metros de relva (Camoranesi-Perrota), com dois avançados complementares, o gigante Toni e o baixinho Rossi. Resgata o equilíbrio táctico, mas quem desequilibra na relva atacante são os toques de samba ofensivo de Ronaldinho e Robinho com o monstro Adriano por perto. Dois golos marcam a diferença e o segundo, um solo com finta, drible e remate de Robinho resgata a lógica das diferenças que a história eternizou. Desde 1982 que a Itália não vence o Brasil. A diabolização de Rossi continua a fazer sentido para separar estes dois mundos futebolísticos.
Fora do duelo, um avançado perdido na passagem do tempo: Amauri. Um brasileiro feito no Calcio e que balança entre as duas selecções. Fugiu à convocatória de Dunga porque se sente mais importante no futebol italiano. O paradoxo genético em campo faz dele um jogador mais italiano (estilo Luca Toni) do que brasileiro. É nesta encruzilhada de estilos, confundindo referências, que vive o futebol moderno cuja face anfíbia do jogo de Amauri é a expressão máxima. Valeu o toque moleque de Robinho para nos devolver às raízes. Uff. É, como diria Drumond, “de tudo sempre resta um pouco…”