O desejo de parar o tempo

14 de Outubro de 2008
“O tempo é a distância entre dois lugares” Os segredos do jogo escondem-se na viagem de uma área à outra.

 

O tempo. Dominar o tempo. Controlar a sua passagem, dominar as distâncias. A noção de tempo sufoca quer a curta dimensão do nosso dia a dia como a dimensão de toda a vida. Leio um ensaio de Tennesse Williams e a certo ponto ele diz que “o tempo é a distância entre dois lugares”. Dá que pensar. Quanto maior ele for, mais distantes estão esses lugares um do outro. Ou seja, até podem estar próximos que será sempre o quanto tempo se demora a chegar de um ponto ao outro que determina verdadeiramente a distância que eles estão. O mítico dramaturgo americano não pensava, claro, em futebol, mas a frase contêm pistas para lá chegar.
 
A distância entre uma baliza e outra, entre a defesa e o ataque, é igual para as duas equipas. O tempo que cada uma demora a percorrer, num sentido e no outro, é, no entanto, diferente. Mas, no futebol, como na vida, há várias formas de encurtar distâncias. As melhores são as que tornam todos os lugares e espaços mais próximos, chegando ao ponto mesmo de confundir até o próprio tempo. É a velocidade das transições.Existem várias formas de o fazer. Pensemos no jogo de Portugal na Suécia. Inicio difícil, mentalmente preso aos receios vindos do jogo anterior. Demora a passar do momento defensivo para o ofensivo. Ou seja, a área sueca parece muito mais longe do que verdadeiramente está. O tempo que a equipa levava a fazer a transição defesa-ataque aumentava a distância entre os dois lugares. Acelerar esse momento é o segredo para unir as várias linhas da equipa e dominar o tempo no jogo.
 
Para encurtar essas distâncias não basta, porém, a mera velocidade de pernas. Repare-se como Bosingwa arranca em velocidade pela sua faixa direita. Parece que vai dominar o tempo e encurtar a distância para a área adversária, mas esse movimento só faz sentido se for acompanhado pelo resto da equipa. Fazendo, portanto, subir o bloco. A transição, como outro momento do jogo, pode nascer de uma acção individual, mas só é eficaz dentro de uma atitude colectiva. Sem essa noção a equipa parte-se e fica sem elos de ligação. Isto é, a distância entre os dois lugares aumenta, porque aumenta o tempo que leva a fazer a ponte sobre a qual o onze vai caminhar. Quando Ronaldo ou Nani recuam para pegar na bola, a equipa logo parece mais unida. Mais próxima. Encurta distâncias. Seja na transição defesa-ataque, como no ataque-defesa parece que as duas áreas ficam mais próximas.
 
É neste contexto que entram os jogadores como domadores do tempo. Aqueles que em campo marcam ritmos e encurtam distâncias. Tudo isto, porém, sem nunca revelar pressa ou calma excessiva. Fechem agora os olhos e imaginem como esta frase encaixa no futebol de Deco. Ele tem a essência da posse e do passe. Porque o futebol, em campo, tem quatro componentes básicas: recepção-passe, marcação-desmarcação. Cruzem agora esses gestos táctico-técnicos e pensem no ataque e defesa simultaneamente. Está domado o tempo. A distância entre dois lugares, entre uma área e a outra, é um abrir e fechar de olhos.   

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