O «diabo» Miccoli

8 de Agosto de 2005
FUTEBOL EM ALTA VELOCIDADE, COM DRIBLES, «ZIGZAGS», REMATES E GOLOS.
Com a imaginação solta na ponta das chuteiras, Miccoli é daqueles talentos impossíveis de domar por simples esquemas tácticos. Uma ironia subversiva no futebol italiano, escondida no corpo de um baixinho que não consegue conceber o jogo sem dribles, zigzagzs por entre defesas confusos e, claro, golos, se possível após fintar o guarda-redes e entrar com a bola pela baliza dentro. Avançado, médio ofensivo ou mezzapunta, como chamam os italianos ao segundo avançado, o ADN do seu futebol permanece o mesmo.
Há momentos que ficam para a história. Recuemos até 1996, quando a selecção italiana Sub-18 defrontava a forte Jugoslávia. Para espanto de todos, no ataque, surgia um pequeno ragazzo que, vindo de um clube da III Divisão, o Casarano, não parecia ter mais de… 13! Era Fabrizio Miccoli. Avançado centro baixote, olhos esbugalhados, eléctrico e sempre a pedir a bola com o braço no ar. Num ápice, virada a defesa jugoslava de pernas para o ar, carimbando os golos da vitória, todos se rendiam ao seu talento. Chamaram-lhe então o… Romario del Salento. Foi assim que, na época seguinte, saltou para o Ternana, já na Série B. Manteve o mesmo estilo, mas os golos desapareceram. Apenas um durante toda a época. Estava iniciada a metamorfose do piccolo Miccoli. De ponta de lança para segundo avançado. Recuando no terreno, evitava as duras marcações de centrais pelos menos 20 centímetros mais alto do que ele, apenas com 1,68m., medida tirada, dizia-se, com as chuteiras calçadas... Mas se tanto os piores venenos como os melhores perfumes se escondem nos fracos pequenos, porque é que um grande jogador também não estaria escondido num corpo com apenas 63 quilos? Na época de 2001/02, tudo volta ao normal: 34 jogos, 15 golos e... 13 remates ao poste!

Em Perugia, a grande explosão

Em quatro anos no Ternana, encanta com o seu jogo malabarista e tecnicista. Tudo executado sempre a grande velocidade, o principal traço do seu futebol. A Juventus viu isso antes dos outros, e contratou-o, mas, para ganhar corpo e maturidade, emprestou-o ao Perugia onde encontrou um treinador que até hoje melhor explorou as suas grandes capacidades, Serse Cosmi. Com ele, Miccoli fixou-se atrás do ponta de lança. Mais do que um trequartista, o médio ofensivo estilo nº9,5 dos italianos, era antes uma espécie de mezzapunta, como os transalpinos chamam ao segundo avançado. O objectivo era explorar a sua enorme velocidade e poder de explosão vindo de trás, sem nunca perder a leitura de jogo e o controlo da bola. Nessa forma de jogar, foge ás marcações e nas imediações da área também solta o seu remate colocado, em jeito ou em força. Apesar de ser um destro natural, Cosmi descobre uma nova forma de enganar os adversários, colocando-o de algumas épocas actuando sobre o centro, sobre o flanco esquerdo, de onde parte em terríveis diagonais, irresistível rumo ás redes adversárias. Todos se levantam quando ele pega na bola.

2003/04: O ano na Juventus

Após o fabuloso ano de Perugia, a Juventus decide ficar com ele em 2003/04. Com Del Piero e Trezeguet na frente e Nedved a rasgar de trás, é difícil para Miccoli entrar na equipa. Faz 11 jogos a titular, alinhando, num sistema de 4x4x2, como avançado, no apoio a Trezeguet. O seu futebol, inserido na exigência de um candidato ao titulo, distante da alegria de Perugia, mais rígido tacticamente, perde fulgor, sendo obrigado a defender e a trabalhar também na recuperação. Mesmo assim, chega à selecção, onde se estreia contra Portugal, fazendo dupla no ataque com Corradi. Na Juventus, porém, é sempre visto como o substituto de Del Piero. Nesse contexto, é quase impossível conquistar a titularidade. Em campo, parece faltarem-lhe… cinco centímetros para sentir-se verdadeiramente jogador da Juventus.

Que tipo de jogador é hoje Miccoli?

O futebol, como a vida, é uma constante aprendizagem. Por isso, na análise táctico-técnico que hoje se pode fazer ao futebol de Miccoli, encontram-se os ensinamentos e as diferentes experiências, entenda-se posições em campo, que recebeu e viveu durante os anos que passou nas diferentes equipas, com distintos treinadores e missões dentro das quatro linhas. Assim, pode-se dizer que Miccoli é um avançado polivalente, no sentido que pode jogar em toda a frente de ataque. Como avançado centro (onde começou a carreira), sobre a esquerda (como fez no Perugia), sobre a direita (pois é destro natural) ou como médio ofensivo trequartista ou segundo avançado, o lugar mais indicado para soltar o seu estilo veloz e desiqulibrador quando entra desde trás, nas costas de um ponta de lança clássico, com a bola dominada, buscando espaços para furar ou rematar. É, ao mesmo tempo, um criador e um definidor. Produz jogo e finaliza jogadas. Neste sentido, pensando no actual Benfica, poderia jogar perto de Nuno Gomes, bem nas suas costas, em esquemas de 4x2x3x1, servindo de referência central na organização ofensiva. Mais difícil será enquadrá-lo no discutido 3x4x3, pois nesse sistema é necessário que os médios tenham maior maturidade táctica defesa-ataque-defesa. Em 4x4x2, pode fazer dupla no ataque ou, na variante do losango, ser o vértice ofensivo do rombo. É, portanto, um jogador que, em termos ofensivos, encaixa em quase todos os puzzles tácticos.

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