O direito à «indiferença»

30 de Setembro de 2008
Defesa ou médio? Pode um jogador ser as «duas coisas» e cultivar o mesmo pensamento sobre o jogo?

 

Um jogador verdadeiramente inteligente ultrapassa com serenidade qualquer situação. A posição onde joga condiciona, no entanto, a sua forma de expressão. Estará um defesa mais exposto ao erro do que um médio? Sim e não. Ou seja, o que poderá estar em causa é sobretudo a consequência do erro no jogo, com maior impacto quanto mais perto for da sua própria baliza. A essência do jogador, porém, não muda conforme a posição. Não é possível alterar a forma de tocar a bola e ler o jogo de forma tão mecânica. Há espaços, no entanto, mais apropriados para uns gestos do que outros.
 
Independentemente onde joga, no centro da defesa ou no meio-campo, Katsouranis pensa sempre o jogo da mesma forma. A questão é, portanto, saber onde o pensa melhor. Como médio, sem dúvida. Porque é onde a extensão desse pensamento e influência sobre o jogo nos seus diferentes momentos é muito maior. A crise existencial do grego tem sido muito falada, mas nunca por essas razões tácticas. O problema é mesmo com a vida, não com o futebol. Katsouranis é o tipo de jogador que se sente bem como polivalente. No campo, como que pede o direito à “indiferença”.
 
Perguntam a Quique se o vê como defesa ou médio e o treinador do Benfica responde que “as duas coisas”. Confesso que a resposta me deixa intrigado. Porque acho impossível alguém ser duas coisas ao mesmo tempo, entendendo-se aqui “mesmo tempo” como a opção do jogador sobre qual a melhor posição para basear a sua carreira. Para além disso, antes do jogo, penso no treino. Em que posição treina Katsouranis? Médio ou defesa? Participa nos exercícios específicos de qual posição ou sector? Dirão que isso pode mudar conforme o lugar que vai ocupar no jogo seguinte e sua estratégia particular, mas tudo isto coloca o jogador como num limbo entre duas posições. Perde-se um especialista a pensar o jogo de determinada forma. 
 
A sua entrada na segunda parte contra o Sporting teve, sobretudo, a influência de estabilizar o pensamento da equipa sobre o jogo. Deu-lhe outra serenidade para combater e saltar a pressão no espaço (zona central à frente da defesa) onde isso é mais importante. Por isso, Katsouranis é médio, na essência. Tudo o resto são desvios conceptuais. Podem, por vezes, ser úteis à equipa, mas custa ver como se tornam numa bifurcação sistemática da sua carreira. 
 
Mas, deve um jogador discutir com o treinador a sua posição? Penso que sim. Não se trata de impor condições para jogar. Trata-se de debater sobre como melhor pensar o jogo. É esse o jogador mais inteligente. Custa-me ouvir um jogador dizer “jogo onde o treinador me manda, sem problema”. Dizem-no como se com isso estivessem a ser um modelo de profissionalismo e de pensarem na equipa antes deles próprios. É uma ilusão. Claro que o jogador deve entender que é uma peça de um colectivo, mas sem ele próprio fazer uma auto-análise ao seu jogo nunca o pensará da melhor forma. Em vez do direito à indiferença, deve procurar aquilo que faz a sua diferença no jogo, pensamento e táctica.      

Artigos Relacionados

  • O "Saco azul" da táctica O `Saco azul` da táctica 8 de Março de 2012 O choque do clássico: “Vítor Pereira treinador do FC Porto na Luz” derrotou “Vítor Pereira treinador...
  • África: bola, relva e táctica África: bola, relva e táctica 19 de Fevereiro de 2012 A Zambia e o CAN 201, equipas e reflexões: Qual o momento do actual futebol africano?
  • NOTAS 2011/12 (29) NOTAS 2011/12 (29) 17 de Fevereiro de 2012 1. `Parado` em velocidade`; 2. AS duas velocidades; 3. A `terceira via` de Danilo
  • NOTAS 2011/12 (27) NOTAS 2011/12 (27) 3 de Fevereiro de 2012 1. Dois lugares, um habitat; 2. Diego Barcelos, médiio ou avançado?; 3. Gil de Paulo Alves: a realidade...
  • NOTAS 2011/12 (26) NOTAS 2011/12 (26) 27 de Janeiro de 2012 1. Que lugar para Danilo?; 2. Vendo o jogo de Hugo Vieira; 3. Obsevando o U.Leiria de Cajuda