O direito dos mais “fracos”

19 de Outubro de 2011 13:34
A ordem defensiva e o contra-ataque: como conseguir “discutir o resultado”, estratégia e suas armas

 

O futebol é, essencialmente, um jogo de estratégia. Chegar ao mesmo objectivo por caminhos diferentes, no plano de jogo e nas armas disponíveis. A segunda, claro, condiciona a primeira. Condenar uma equipa pela sua estratégia defensiva pode ser precipitado. Porque o jogo tem vários momentos e a maior parte do tempo em que a equipa o passa, não resulta, muitas vezes, de opção própria, mas sim da disparidade de forças em confronto. É impossível ao treinador da chamada equipa pequena montar uma estratégia dita ofensiva se sabe que vai estar sem bola na maioria do tempo. Por isso, a obrigação de preparar estrategicamente a equipa para esse momento.
Neste contexto, incidir na organização defensiva (com mais ou menos jogadores atrás da linha da bola) é uma inevitabilidade táctica para conseguir o que qualquer treinador (equipa) pretende: discutir o resultado. A sua principal missão é fechar espaços. A da outra equipa é abrir espaços.
 
É difícil tirar o jogo destes pressupostos, pelo que não entendo a crítica feita às equipas pequenas nos jogos da Taça (Famalicão e, sobretudo, Portimonense). Ou melhor, o ponto onde elas incidiram: defender excessivamente. Como poderia ser o contrário se a equipa não tinha a bola (nem argumentos individuais para a ter?). Outra estratégia que tentasse o impossível (ter mais tempo a bola) abriria espaços na sua organização defensiva que os impediria de…discutir o resultado.  
Faltam, porém, outros momentos de jogo. A transição ofensiva e o contra-ataque. É na capacidade de os activar, não os deixando sufocados pelo peso excessivo da organização defensiva, que reside a superior astúcia estratégica dessa equipa que, face à evidente diferença de forças, tem nele a principal arma ofensiva. Era o que o russo Lev Filatov chamava de o direito dos mais fracos (conceito que aplico à estratégia global da equipa).
 
O futebol moderno alargou, no entanto, a importância do contra-ataque também às das ditas equipas grandes. Quem hoje não controlar o contra-ataque adversário ou não souber, nas alturas certas, activar o seu, dificilmente terá êxito.
Distinguem-se três fases no desenho do contra-ataque: recuperação, transição e finalização. A mais importante é a transição (o passe após a recuperação da bola). Quanto mais rápida for, melhor sai o contra-ataque. É essa a razão de se confundir tanto a transição rápida com o contra-ataque, este já uma forma de organização ofensiva.
 

 

O contra-ataque é, assim, uma arma de equipas grandes ou pequenas, embora nestas quase se confunde com a estratégia por não ter outra forma de passar para a organização ofensiva. Por isso, nunca crítico uma equipa pequena por defender demais, mas posso criticá-la por não conseguir lançar o contra-ataque. Todas as equipas o usam, mas enquanto para os grandes é uma arma, para os pequenos é quase toda a estratégia com bola. Sem ela, resta…defender.

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