Falar em cultura de jogo e ligar essa ideia a um clube é o segredo da construção de uma identidade. A base para pensar bom futebol e conquistar títulos com regularidade. O Barcelona é um exemplo desta filosofia. Há um jogador que, ainda em fins dos anos 80, longe da projecção mediática, personifica esse início de construção: Luís Milla. A posição onde jogava era o pilar da construção desse jogar. A forma de o fazer era o legitimar de um estilo. Desde zonas recuadas, à frente da defesa, onde, mais do que defender, pensava em como começar a atacar, iniciando uma rede de distribuição e circulação de jogo.
A partir da era-Milla, o Barça criou, nas suas escolas, uma dinastia de céebros tácticos e técnicos nessa posição. Ignorando a dimensão física, cultivou um principio de construção, em vez da destruição clássica do trinco, e promoveu gerações de baixinhos capazes de jogar ao primeiro toque, ora curto, ora longo, lendo o jogo. Com isso, fugiam ao choque e jogavam rápido. Na mente e nas pernas. Sem correr riscos de perder a bola nessa zona. Nesse processo, depois de Milla, surgiu o ícone Guardiola, antecessor de Arteta ou Celades que não atingiram igual estatuto. De La Peña cresceu no mesmo berço mas virou médio-ofensivo. Outros, fugiram, como Cesc, para o Arsenal, onde também já está, nas reservas, outro exemplar raptado, Fran Mérida, 18 anos, o futuro nessa posição. Outros, tem-se afastado do lugar original. Como Xavi, hoje mais subido, ou Iniesta, talvez o mais rápido de todos, que também faz sabiamente o lugar (como provou na final da Champions de 2006).
É indiferente que Cruyff jogasse em 3x4x3 e hoje Rijkaard aposte no 4x3x3. São apenas desenhos no papel. A filosofia de jogo é a mesma. É esta noção que o Barça não pode trair. Sob pena de trair a cultura que fez o seu bom futebol. Para isso, aquela posição é chave. Vejo a crise de jogo do actual Barça e olho logo para essa zona. As ausências de Ronaldinho, Deco ou Messi fazem suspirar, mas não são eles, pelos lugares onde jogam, que sustentam esse estilo. Apenas lhe dão maior dimensão.
É da adulteração do estilo incutido pela posição «6», quase guia espiritual filosófico de jogo, que nasce a depressão exibicional do onze de Rijkaard. Nesse lugar, joga hoje Yaya Touré. Com qualidades, mas outro tipo de jogador. Mais físico, mais alto, menos técnico, que garante equilíbrio, mas que joga…outro jogo. Retira classe no controlo do meio-campo e na saída de bola. Sem esses traços, o Barça perde a sua identidade. O seu bom futebol, esfuma-se. Mais adiantados, Xavi ou Iniesta ficam com essa zona nas costas. Bastaria, talvez, um deles recuar dois passos para o jogo blaugrana resgatar esse farol do seu bom futebol
Chelsea-Fenerbahçe: O espaço antes da bola

É difícil preparar uma equipa para esconder a bola e baixar o ritmo quando isso não está na sua essência. Sem essa cultura, o Fenerbahçe sucumbiu aos primeiros minutos de pressão em Londres. Estendido num 4x2x3x1, teve largura mas sofreu para unir as duas linhas do meio-campo (Maldonado-Aurélio e Deivid-Alex-Kazim). Teria de ser um destes jogadores a sair para dar essa ligação defesa-ataque. Alex leu bem essa necessidade, mas falta-lhe a velocidade europeia, a pensar e executar, para o fazer. Sábio, o Chelsea soube roubar o meio-campo na fase táctica decisiva do jogo, transformando o 4x3x3 num 4x1x4x1 móvel. Tirou um extremo (Kalou) meteu um lateral (Beleti) e fez subir Essien (que começara a lateral) para médio, plantando uma linha de «4» médios (Cole-Lampard-Ballack-Essien) à frente de Makelele (pivot defensivo) e atrás de Drogba (ponta-de-lança) mantendo os laterais recuados. O Fenerbahçe controlava a bola mas não controlava o espaço. Sem esta relação a posse esvazia-se. Antes da bola, deve-se ganhar primeiro o espaço. Só depois a posse da bola pode fazer a diferença. O onze turco já não teve nível táctico para o fazer na meia-final de Londres. Tocara os seus limites técnicos e, sobretudo, tácticos.