Há clubes que, com uma aura vinda de outras eras, vivem o presente a tentar reinventar o passado. Mas não é fácil. Porque os tempos mudam. O Ajax continua uma referência na formação, mas hoje é difícil segurar as estrelas durante muito tempo. Essa nova ordem futebolística/financeira retirou-o da elite do grande futebol europeu. Sete anos depois reconquistou o título holandês.
No banco, está um treinador, De Boer, que aprendeu como jogador todas essas bases da fórmula-Ajax. Nota-se nos grandes princípios de jogo do seu actual 4x3x3. Quando substituiu De Jol uma das primeiras medidas foi dar maior qualidade táctico-técnica ao espaço do pivot. Para isso saiu Enoh, médio de contenção, forte mas pouco construtivo, e puxou de lateral para o lugar 6, o mais tecnicista Anita, aparentemente frágil fisicamente mas com muita visão de jogo nas pernas e cabeça. É ele que, na saída de bola, baixa para o meio dos centrais que alargam nas faixas, soltando os laterais para posições mais adiantadas (excelente, na direita, Van der Wiel, enquanto, na esquerda, a revelação Bolesen é um jogador a seguir no futuro). Outra forma de sair a jogar é, na tradição da escola-Ajax, através de um central em posse. Neste onze, quem faz essa condução é o canhoto belga Vertonghen.
Mais forte a mandar nas transições, o rotativo De Zeeuw, libertando o jogador mais criativo do onze, Eriksen, de 19 anos, elegante com a bola, capaz de romper e criar desequilíbrios ofensivos ou recuar e organizar jogo. É o farol ofensivo que muitas vezes não joga com um ponta-de-lança puro. Ou melhor, com um nº9 com essas características, pois em vez do marroquino El Hamdaoui, goleador nato, joga De Jong, que gosta mais de recuar no terreno, não tanto para arrancar desde trás, mas sim para também participar no jogo através de triangulações. Metido na área, porém, move-se muito bem em diagonais curtas para finalizar.
Respeitando a génese do estilo, a equipa nunca se esquece da importância dos flancos e tenta sempre, em todos os jogos, recriar dois extremos. Foi, nessa visão que após a saída da fábrica de golos Luiz Suarez, surgiu, na esquerda, Ebecilio, com apenas 19 anos, procurando a linha, enquanto, na direita, Sulejmani ganhou mais espaço de intervenção. Sempre procurando diagonais, ele é muitas vezes o segundo avançado da equipa.
Apesar dos traços positivos que a equipa transmite, é difícil vislumbrar nela dimensão competitiva internacional. Defensivamente (tal como todo o futebol holandês) tem uma organização defensiva pouco agressiva. Frente a adversários que acelerem o jogo, os alicerces tremem. São os frágeis pilares do novo futebol laranja de clubes.
