O eterno renascimento

25 de Setembro de 2008
Na senda dos eternos renascimentos do futebol emocional, eis a nova versão do derby capital. As duvidas de Quique e Bento, por entre o buraco da fechadura táctico de Nuno Gomes, Aimar, Derlei e Postiga.

 

As grandes equipas não vivem de estados de alma, mas o futebol e o seu jogo de emoções, não passam sem eles. Um derby é a expressão máxima desse sentimento.
 
Estar ao mesmo tempo em campo pode não implicar por si só que os jogadores estejam a jogar juntos. Esta afirmação pode parecer estranha mas, futebolisticamente falando, ela tem a ver com aquilo que se entende verdadeiramente por jogar. Nesse conceito, mais do que correr e tocar na bola, entra uma combinação de movimentos cruzada entre vários jogadores, de forma organizada e imaginativa, com um pensamento estratégico comum para ultrapassar o adversário. É a dúvida que surge quando se debate a possibilidade de Aimar, Cardozo e o renascido Nuno Gomess entrarem no onze inicial do Benfica. Quique tem visto Aimar no mesmo espaço onde Nuno Gomes se move melhor. Como segundo avançado móvel, nas costas de um ponta-de-lança mais fixo.
Para evitar esta sobreposição ideológica, a solução poderia por passar Aimar para uma das alas do meio-campo ou, optando por outra variante do 4x4x2, do clássica para o losango, e colocar o argentino como médio-vértice ofensivo. Ambas as opções mexem com os hábitos que a equipa vem adquirindo. O crescimento de uma equipa passa, porém, por conseguir resolver este tipo de problemas. Descobrir como encaixar os melhores jogadores sem criar dogmas posicionais (no sistema e dinâmica). Face a perguntas diferentes, dar….respostas diferentes. Este derby coloca questões diferentes a Quique. A pedir, portanto, outra equação táctica, frente a um onze leonino que faz do losango a sua casa há várias épocas.
A variante predilecta de Bento permite maior versatilidade de movimentos aos jogadores e ocupa melhor o central do terreno de uma área à outra. Isto é, enquanto o losango tem dois habitantes originais nesse corredor central (um à frente da defesa, outro atrás dos avançados) o sistema clássico coloca esses dois jogadores originariamente de perfil à frente da defesa, pedindo depois que um deles avance no terreno. Mais do que a ideia de jogo, está neste caso em causa a sua aplicação. No plano de Quique tem sido Carlos Martins a assumir esse papel de transportador de jogo, mas nem sempre com a melhor estabilidade táctica e emocional. Há jogador que, talvez, possa fazer essa posição. Porque sabe sair bem da zona de pressão e conduzir então a bola em posse. É Ruben Amorim. Tem surgido, porém, sempre descaído para a direita, com missões mais de fechar a faixa.
 
Na senda renascimentos que fazem o futebol emocional, surge, no mundo do leão, a nova versão de Postiga. De novo, o enigma do futebol emerge quando se pensa como este Sporting passou a atacar melhor, ou de forma diferente e menos previsível, quando perdeu o seu melhor goleador. Liedson, claro. Paulo Bento já o tinha dito. Liedson condiciona demasiado a forma do Sporting atacar. Porque só respira com outro avançado ao lado e repete quase sempre os mesmos movimentos. Postiga, com Derlei ou Yannick ao lado (ou até só estes dois juntos) dão outra movimentação ao ataque do Sporting. O que está em causa aqui não é uma melhoria de jogo, mas sim uma diversificação da forma de jogar ou atacar. Ou seja, a ausência forçada de Liedson, acabou por ajudar ao pensamento de Bento a criar estratégias alternativas. E os adversários têm hoje mais dificuldade em adivinhar como a equipa vai se mexer a atacar.
 
Tudo isto são questões tácticas. O chamado futebol cientifico. Nada disto, porém, faz sentido sem os estados de alma do inicio do texto. É a táctica pensada com a emoção.

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