O falso «futebol das percentagens»

31 de Março de 2009
Os remates e a posse, oásis e miragens matemáticas que escondem os segredos do verdadeiro jogo.

 

A bola cruza território sueco e ao baixar junto à baliza parece converter-se na salvação da noite. Mas sente-se um desvio, Ronaldo mete-lhe a cabeça e a promessa de golo esfuma-se por cima da barra. Era o 24º remate da selecção às redes suecas. O 57º nos últimos três jogos. O golo, porém, continuava uma miragem. Levar o jogo para uma decomposição científica não é, no entanto, o melhor caminho para o entender. O chamado “futebol das percentagens” (65% de posse) é o maior alçapão em que pode cair a análise.
 
Costuma dizer-se que os jogos decidem-se nos detalhes. Talvez por isso, Queiroz, suspire que “um golo e tudo seria diferente”. Seria, sem dúvida, nos ecos à margem das quatro linhas. Não seria dentro delas. Porque os jogos, em vez dos detalhes, decidem-se nas grandes competências. Colectivas e individuais. Os tais detalhes apenas são forma de os camuflar. Para o bem ou para o mal, porque, de facto, o futebol é a única modalidade em que se pode ganhar jogando mal e perder jogando bem. 
 
Mas não é matemática. Sem hábitos criados, raramente a equipa torna o complexo em simples. Pergunta-se então o que é mais complexo: o remate ou a construção da jogada para o fazer? Os dois. Primeiro, porque até pode treinar-se remates e não treinar finalização, visto este ultimo ponto entrar já num campo específico onde a recepção orientada para o remate cruza técnica e táctica individual. O lance em que, após um passe magistral de Tiago, Danny se isola e remata para fora por ter recebido mal a bola é o exemplo de como, no jogo, há quem consiga simplificar o complexo (o passe preciso) e há quem falhe nessa tentativa (a finalização deficiente).
 
Ora isto não são detalhes. São grandes competências. Como é a escolha do estilo que deve ter o nosso nº6. Pepe fez uma boa exibição, mas sem vocação para ser o que a nossa forma de jogar exige: um primeiro pivot de construção. Falta-lhe, naquela posição, vocação cerebral para saber estar quieto para receber a bola, e, só depois, mover-se, na sua condução, gerindo ritmos. Pelo contrário, faz tudo em velocidade, sem acalmar a equipa. Aumenta-lhe a pulsação no local onde devia ser um pace-maker. Um arritmia táctica que Raul Meireles detectou e, por isso, sentiu-se forçado a vir buscar demasiadas vezes a bola ao espaço do pivot feito trinco.  
 
O jogo é uma sucessão de lutas entre o simples e o complexo. Uma equação que um gesto táctico-técnico como a tabela, o mais importante no jogo, resolve num ápice. Bem feita na entrada da área adversária é o melhor abre-latas para criar espaços limpos de remate para golo. A sua estatística é muito mais importante do que a dos simples remates. Quantas fez Portugal durante o jogo?
 
O mesmo diagnóstico (muitos remates, poucos golos) pode ter tratamentos diferentes em função das equipas e do processo de construção ofensivo que o precede. O “futebol das percentagens” é falso e, neste momento, ilude a selecção sobre a verdadeira matéria de que feita a parede invisível em que bateu nos últimos jogos.  

 
 
1.    O subconsciente e a posse
 
A cultura de posse de bola sempre foi a cara do nosso futebol. A grande questão, porém, é que ela não existe no vazio. O princípio deve estar no respeito pelas posições e, a partir dai, fazer circular a bola. Com estes pilares, a posse tem um critério. Sem isso, vagueia a maior parte do tempo sem certezas. Vemos a selecção contra Albânia e Suécia e, durante muito tempo, parece que ela choca com uma parede invisível. Tem a bola, leva-a para perto da área adversária, os jogadores movem-se, mas, no caminho, o golo esfuma-se porque o último passe nunca é cristalino. É, quase sempre, filtrado por uma volátil distribuição posicional que confunde a forma como a bola chega ao último remate.
 
O cérebro baseia o seu funcionamento em dois planos: o consciente e o subconsciente. Na vida, como durante um jogo de futebol. O primeiro parece o mais importante, mas, na vertigem do jogo, é sobretudo do segundo que os jogadores (e treinador) dependem. A forma de o tornar seguro e eficaz passa pelos hábitos e mecanismos criados. É o que falta à actual selecção. 
 
 
2.    Uma equipa, onze “sombras”
 
Quando Bosingwa sai, perde-se a forma mais desiquilibradora de Portugal atacar. A partir desse momento, tirando o guarda-redes e os centrais, todo o resto dos jogadores do onze estava em posições (ou princípios em função do sistema) diferente das que ocupam nos clubes. Duda de médio-ala para a lateral esquerdo, Pepe de central para trinco, Danny de extremo para avançado-centro, Simão de ala-esquerdo em 4x4x2 para extremo em 4x3x3, Tiago de pivot central em 4x4x2 para quase 10 em 4x3x3, Ronaldo de extremo para avançado solto, Ricardo Carvalho de central para lateral direito. Mesmo Raul Meireles, numa posição aparentemente semelhante, passa o jogo quase todo muito próximo do trinco e tem um desgaste superior como médio de transição. Quando entra Deco, sai Tiago, na altura o jogador que melhor reconhecia os espaços entre-linhas.
 
Sem tempo para treinar, uma selecção deve tentar reproduzir ao máximo (sem subverter as ideias do treinador) os hábitos de jogo que os jogadores trazem dos clubes. Só assim a inter-ligação entre eles é possível.
 
 
3. O nº9 “á portuguesa” 
 
A questão do ponta-de-lança no nosso futebol irá ser eternamente uma questão por resolver enquanto não se fizer o correcto enquadramento histórico desta posição na nossa forma de jogar. Desde gerações passadas, até hoje, insiste-se em buscar um jogador que, por natureza, não existe no tradicional estilo do futebol português: o nº9 de área, goleador puro, como é normal no estilo anglo-saxónico, ao contrário do latina.
 
A solução passa por entender o significado estilístico de jogar “à portuguesa”, como Queiroz disse antes do jogo com a Suécia. Um estilo onde não entra, por principio, o tal nº9 fixo. Para melhor explorar a forma de jogar “à portuguesa” (um futebol de médios, dizem os críticos internacionais) é necessário sobretudo um ponta-de-lança com maior relação com o jogo, do que com o golo. Principal atributo: saber jogar de costas para a baliza, segurar a bola e passar para os médios, extremos e segundos avançados que entram desde trás. Um estilo que tem em Nuno Gomes o melhor eco do nº9 à portuguesa. Até nos golos que falha.
 
 
 

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