O fantasma de Paisley

15 de Abril de 2005
EM DEFESA DO FUTEBOL INGLÊS DOS BONS VELHOS TEMPOS.

Keegan, Dalglish, Neal, Kennedy, Clemence, McDermott, Souness, Hansen, Thompson, Johnston, Rush… Para os velhos amantes futebolísticos, ver, vinte anos depois, o Liverpool de Benitez chegar, entrincheirado na sua área, á meia final da Liga dos Campeões, causou, apesar da dimensão da proeza, uma sensação estranha. Era a memória ecoando na mente aqueles míticos nomes de outrora.
Entre 1977 e 1985, em nove épocas, por oito vezes (cinco consecutivas) uma equipa inglesa chegou á final da Taça dos Campeões. Ganhou 7. Liverpool, Notthingham Forest e Aston Villa. Ao longo dos tempos, a fama mítica que o futebol inglês conquistou por toda a Europa tinha uma razão básica: a alquimia de ter descoberto a fórmula que excita o mais imparcial dos adeptos: mínimo de ordem, máxima liberdade e a emoção do puro futebol de ataque, sempre desenhado num vertiginoso 4x4x2, que, com paixão, ria-se do pragmatismo transalpino. Quando regressaram, no inicio dos anos 90, muita coisa já mudara no status do futebol europeu. Dos bons velhos tempos, ficou na memória, em 78/79, uma fratricida primeira eliminatória que, num tempo onde o sorteio era puro, sem cabeças-de-érie, logo ditou um embate entre o campeão europeu Liverpool de Paisley e Dalglish contra o novo campeão inglês, o Nottingham Forest de Clough e Francis, que ganhando esse choque de titãs ingleses, iniciou a caminhada para duas inolvidáveis vitórias na Taça dos Campeões. 26 anos depois desse histórico duelo e 20 após a ultima final europeia do Liverpool (no horror do Heysel), duas equipas inglesas voltam-se a encontrar no supremo palco europeu: Liverpool e Chelsea. Entre os dois tempos e respectivas equipas há, porém, um abismo de conceitos futebolísticos a separá-los. No lugar dos míticos Paisley e Clough, ao mesmo tempo filhos e pais do genuíno futebol inglês que nos fazia levantar excitados das cadeiras vendo imagens a preto e branco, estão dois pragmáticos técnicos, Benitez e Mourinho, vindos do futebol continental que Shankly tanto desprezava ao ponto de dizer que se um dia acordasse e visse uma equipa italiana a jogar no seu jardim, de imediato corria as persianas.
Pois bem, esse estilo italianizado mora agora nos relvados ganhadores da Velha Albion e, pior, mesmo á frente da sua estátua, na relva de Anfield. Em Turim, o Liverpool segurou o 0-0 sem fazer um remate á baliza durante 90 minutos face a uma Juventus nula em criatividade. Neste contexto, o arrepiante hino «You never walk alone», "tu nunca caminharás só", cantado a plenos pulmões pelos adeptos como se cumprissem uma culto religioso, faz-nos percorrer o corpo uma fria brisa fantasmagórica. Paisley é o único treinador na história que conquistou três competições europeias consecutivas. A Taça UEFA, em 76, e antiga Taça dos Campeões, em 77 e 78. Esta época, outro homem, pode atingir, com igual percurso, a mesma proeza. Mourinho, pois claro. Tanto ele, como Benitez, podem, como ladrões de sonhos, ganhar a coroa europeia. Nenhum deles, porém, ganhará, para os verdadeiros amantes do futebol inglês dos bons velhos tempos, a dimensão mítica de Paisley ou Clough. Sem homens como estes, o futebol inglês nunca teria sido nada e, por muito que Mourinho ganhe, a história não recebe lições de ninguém. São, no fundo, perturbadores sinais dos tempos

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