Entre 1977 e 1985, em nove épocas, por oito vezes (cinco consecutivas) uma equipa inglesa chegou á final da Taça dos Campeões. Ganhou 7. Liverpool, Notthingham Forest e Aston Villa.
Ao longo dos tempos, a fama mítica que o futebol inglês conquistou por toda a Europa tinha uma razão básica: a alquimia de ter descoberto a fórmula que excita o mais imparcial dos adeptos: mínimo de ordem, máxima liberdade e a emoção do puro futebol de ataque, sempre desenhado num vertiginoso 4x4x2, que, com paixão, ria-se do pragmatismo transalpino.
Quando regressaram, no inicio dos anos 90, muita coisa já mudara no status do futebol europeu. Dos bons velhos tempos, ficou na memória, em 78/79, uma fratricida primeira eliminatória que, num tempo onde o sorteio era puro, sem cabeças-de-érie, logo ditou um embate entre o campeão europeu Liverpool de Paisley e Dalglish contra o novo campeão inglês, o Nottingham Forest de Clough e Francis, que ganhando esse choque de titãs ingleses, iniciou a caminhada para duas inolvidáveis vitórias na Taça dos Campeões.
26 anos depois desse histórico duelo e 20 após a ultima final europeia do Liverpool (no horror do Heysel), duas equipas inglesas voltam-se a encontrar no supremo palco europeu: Liverpool e Chelsea.
Entre os dois tempos e respectivas equipas há, porém, um abismo de conceitos futebolísticos a separá-los. No lugar dos míticos Paisley e Clough, ao mesmo tempo filhos e pais do genuíno futebol inglês que nos fazia levantar excitados das cadeiras vendo imagens a preto e branco, estão dois pragmáticos técnicos, Benitez e Mourinho, vindos do futebol continental que Shankly tanto desprezava ao ponto de dizer que se um dia acordasse e visse uma equipa italiana a jogar no seu jardim, de imediato corria as persianas.

Pois bem, esse estilo italianizado mora agora nos relvados ganhadores da Velha Albion e, pior, mesmo á frente da sua estátua, na relva de Anfield. Em Turim, o Liverpool segurou o 0-0 sem fazer um remate á baliza durante 90 minutos face a uma Juventus nula em criatividade. Neste contexto, o arrepiante hino «You never walk alone», "tu nunca caminharás só", cantado a plenos pulmões pelos adeptos como se cumprissem uma culto religioso, faz-nos percorrer o corpo uma fria brisa fantasmagórica.
Paisley é o único treinador na história que conquistou três competições europeias consecutivas. A Taça UEFA, em 76, e antiga Taça dos Campeões, em 77 e 78.
Esta época, outro homem, pode atingir, com igual percurso, a mesma proeza. Mourinho, pois claro. Tanto ele, como Benitez, podem, como ladrões de sonhos, ganhar a coroa europeia. Nenhum deles, porém, ganhará, para os verdadeiros amantes do futebol inglês dos bons velhos tempos, a dimensão mítica de Paisley ou Clough.
Sem homens como estes, o futebol inglês nunca teria sido nada e, por muito que Mourinho ganhe, a história não recebe lições de ninguém. São, no fundo, perturbadores sinais dos tempos