Os anos 70 mudaram o futebol para sempre. Foi o tempo da revolução laranja de Cruyff, poema com estética táctica que, em 74, perdeu na final com a forte disciplina germânica. Desses tempos, diz Cruyff que “já me perguntei muitas vezes se trocaria todos os elogios que recebemos pelo título em si mesmo. Penso muito e, sinceramente, não creio que trocaria. Claro que gostaria de o ter ganho, mas hoje, tantos anos passados, ainda se fala mais daquela selecção da Holanda de 74 do que dos verdadeiros campeões do Mundo”. É verdade. Como sucede, também, com a Hungria de 54. Ou até com o Brasil de 82. Junto com a Holanda de 74, estas foram as três selecções que mais apaixonaram e fizeram avançar o futebol. E, no entanto, perderam. Esse «simples» facto, a derrota, ainda as tornou, porém, maiores na história.
É com essa aura que a Holanda regressa, 32 anos depois, a uma final de um Mundial. A actual equipa não tem a mesma qualidade técnica com bola na defesa, tornou-se, por isso, mais rígida no plano da organização defensiva, mas, mantém, no plano global, a mesma impressão digital de circulação de bola. O chamado «futebol circular». Sempre com alas bem abertos, embora, depois, esses jogadores (hoje Kuyt e Robben) sejam muito mais do que isso, tal a forma como invadem outros territórios adversários perto da área.
É, desde sempre, um “futebol de autor”. Passemos esta ideia para o ADN geográfico. É comum ouvir-se que “se Deus criou o mundo e os holandeses criaram a Holanda”.É verdade. Todos os outros povos modernos ocuparam territórios que antes outros possuíam. A Holanda, pelo contrário, criou o próprio solo onde habita, abaixo do nível do mar (os países baixos). Por isso, há quem acredite que aquele tipo de futebol colectivo mas não mecânico, como se em campo todos os jogadores estivessem a pensar todos a mesma coisa ao mesmo tempo, só seria possível na Holanda. Basta reparar nas suas casas, janelas, plantas e demais decorações para darmos conta que na Holanda cada um pensa a mesma coisa que o seu vizinho. O mesmo conceito pode ser aplicado na personalidade de cada holandês, simples cidadão ou estrela do futebol.
Demasiado “sério”
É possível um treinador pensar um jogo a partir da capacidade de pressionar da equipa? Sim, sem dúvida. Não acredito, porém, é que esse princípio de pensamento vá, depois, em campo, conseguir libertar-se para um segundo momento. Aquele que é subsequente à pressão. Isto é, a construção. Sem isso, o jogo esgota-se na pressão, pura e simples. Permite segurar um resultado, discuti-lo e colocar o adversário numa turbina de espaços e bolas divididas, mas não dá à equipa capacidade para ser «mais coisas» no jogo.
Esta podia ser, em síntese, a descrição da estratégia e exibição do Uruguai de Tabarez frente à Holanda. Jogou sempre para pressionar. Nunca conseguiu inverter a ordem destas palavras: pressionar para jogar. Os momentos em que, aparentemente, conseguiu mover-se mais perto da área laranja foram aqueles em que pressionou…mais alto e recuperou bolas mais à frente. Ganhou muitos lances divididos, mas raramente ganhou os espaços em antecipação. Com esta forma de pensar, pode-se viver (ou melhor, sobreviver) durante 90 minutos. É impossível, porém, construir um resultado assim. O Uruguai chegara à meia-final com «outro futebol». Na hora do último passo, morreu por querer ser tacticamente demasiado sério.