Fugindo dos relvados mais faraónicos e seguindo a pista do bom futebol noutros territórios, essa busca pode levar-nos a locais improváveis. Fazendo esse exercício, parei nas últimas semanas na Turquia e na Suíça. O alvo, duas equipas que têm cativado pelos seus resultados e, sobretudo, projecto de jogo. O surpreendente Bursaspor, que ameaça o domínio dos clássicos monstros turcos (está a um ponto do líder Fenerbahce) e o Young Boys, bom exemplo do rigor táctico helvético (de inspiração italiana) com alguns aromas africanos no onze.
Vendo o Bursaspor jogar no terrível terreno do Galatasaray (0-0) com uma personalidade impressionante, segurando bem atrás, controlando o meio-campo e lançando muito rápido o ataque, ficou clara a qualidade de jogo desta sensação turca. Não tem estrelas no seu onze. Ertugrul Salam, o seu jovem técnico, monta um 4x2x3x1 com dois alas muito rápidos. Ozan Ipek, à esquerda, e Volkan Sem, à direita, apoiando o ponta-de-lança: Yldirim, possante e rápido, ou, entrando mais de trás, como falso 9, o austríaco Turgay. Mas não existem grandes equipas sem um bom médio centro ofensivo. No Bursaspor ele pode ser Ergic ou o quase avançado argentino Batalla (vindo do Deportivo Cali da Colômbia) que, sendo o jogador com mais liberdade de movimentos, faz a diferença em termos criativos no onze dos crocodilos (nome porque são conhecidos por equiparem todos de verde).
O Young Boys começa por chamar a atenção pela fábrica de golos que tem no ataque, o avançado Doumbia, outro talento vindo da Costa do Marfim, mas, depois, no colectivo, destaca-se a boa distribuição táctica do seu 3x4x1x2 (ver quadro em baixo). E, neste caso, são mesmo três centrais, ficando os laterais livres para atacar. Raramente se vê a defesa a «5». Na dinâmica do jogo pelas faixas, o lateral Degen, sobre a direita, faz todo o campo e quase se transforma no quarto avançado, aproveitando a mobilidade dos três homens da frente, com a dupla Doumbia-Bienvenu (este vindo dos Camarões) ficando Regazzoni mais solto nas costas. Embalados, este quarteto é muito difícil de ser parado. Está na luta pelo título com o Basileia.
É verdade que a competitividade do futebol suíço está longe de ser muito alta, mas os traços de bom futebol reconhecem-se em qualquer local do mundo. O problema é, depois, perceber a sua aplicação noutros territórios mais exigentes. É a dúvida que fica em relação a Doumbia. Menos, porém, em relação ao trinco Hochstrasser, num lugar mais táctico, posiciona-se bem e faz o jogo mover-se. O bom futebol pode esconder-se, no entanto, nos locais mais improváveis. De Bursa a Berna, a táctica e os craques para descobrir.
Olhando relvados gregos
É quase um clássico no futebol europeu. Ver Cuper perder uma Final. Desta vez, na Final da Taça, contra o Panathinaikos (0-1). O Aris de Cuper joga num 4x4x2 que se torna mais imprevisível pelos movimentos, no ataque, de Koke, enquanto Campora procura o choque no centro. Na direita vê-se facilmente que o francês Meriem, que já passou o auge da sua carreira. Quando entrou o espanhol Javito, muito veloz, abanou mais as coisas, num jogo onde, nos últimos minutos, ressurgiu Fredy Adu. Procurou a bola, tentou inventar sempre qualquer coisa em todas as jogadas, mas ficou-se pelas intenções.
Depois da Liga, o Pana conquistou a Taça. Trocou de treinador a meio da época (saiu Ten Cate entrou Nikos Nioplias) mas manteve a mesma identidade táctica. O esquema é um falso 4x3x3, porque esconde um avançado-centro numa faixa (Salpigidis) que, com a bola a chegar à área, aproxima-se em diagonal de Cissé, em cunha no centro. A melhor exibição foi, no entanto, do argentino Leko, demolidor, em força e criatividade, desde a esquerda, num onze que nunca perde o equilíbrio táctico devido ao duplo-pivot Simão-Gilberto Silva. Como médio centro ofensivo, o criativo Ninis. É um belo jogador, mas não tem dotes de organizador. Vendo-o o jogar, penso que acabará um dia encostado a uma faixa. E isso até poderá ser melhor para o seu futebol.