O «Futebol do presente»

24 de Outubro de 2009
Nas chuteiras do Ghana, o último romance futebolístico africano, menos romântico, mais realista

 

Chamaram-lhe o «futebol de futuro». Foi a designação, nome e a promessa, com que os encantos futebolísticos vindos de África, tão fantásticos quanto ingénuos) foram vistos, em inicio dos anos 80, pelo mundo do futebol. Tem sido difícil, porém, esse «futuro» encontrar o… «presente». O poder financeiro europeu e o atraso estrutural africano, sobretudo da região negra, traduziu-se, afinal, num novo modelo de «colonização». Nesse percurso, há 16 anos, um miúdo surgiu como principal inspiração. Lamptey. Até Pelé viu nele um seu sucessor. Jogava então a final do Mundial Sub-20 pelo Ghana. Perdeu, mas jogou muito e aos 17 anos já era titular do Anderlecht. O resto da sua carreira, porém, foi um caminho errante, dezenas de clubes e o talento eclipsado.
Ver como, em 2009, o Ghana escreveu, por fim, a página que faltava na história futebolística, foi, por isso, quase como um metafórico encontro com o futuro. Um simples penalty. Foi o que bastou para fazer a diferença. A questão do maior poder físico que se diz ser a base das proezas africanas no futebol jovem, não me parece fazer sentido na categoria Sub-20. Aqui, ao contrário, por exemplo, dos Sub-17 (onde essa superior musculatura genética marca diferenças) são necessárias outras qualidades, puramente futebolísticas. Foi a falta deles que os impediram de ganhar antes. Foi a presença delas que lhes permitiu ganhar este ano.  
A base: técnica. A moldura: condição física. O estilo: velocidade. O sistema: 4x4x2 (ver quadro em baixo).
Num primeiro olhar, pode ser uma desilusão ver como estas equipas, outrora mais soltas, também já passam a maior parte do jogo com pensamentos defensivos. Já não há romantismo. É futebol adulto puro. Tacticamente, tal nota-se, neste Ghana, na presença do homem-táctico por excelência: o pivot-defensivo, a posição 6 que equilibra a equipa à frente da defesa. Foi Agyemang Badu. Uma âncora de 1,73m., que ainda joga no Ghana, no Asante Kotoko.
Á frente dele, o traço criativo com um canhoto que herdou os genes paternos: Ayew, filho do Abdi Pelé, o melhor jogador ganês da história. O filho Ayew joga como se tivesse a bola atada à bota por uma corda. No ataque, duas serpentes negras: Osei (escondido no banco do Tewnte) e o goleador Adiyiah, para ser visto à lupa.
Foi um titulo que ganhou tons menos coloridos pelas contingências da final, onde, em inferioridade numérica desde cedo, baseou o jogo numa organização defensiva imperturbável. Todos estes jogadores, porém, disseram muito mais ao longo do Torneio. Toque, táctica, fintas e golos para, no futuro, fugir ao sindroma-Lamptey e dar um futuro diferente ao novo «futebol africano do presente».  
 
 
Notas do Mundial Sub-20
 
Seguindo o Mundial Sub-20, o bloco de notas foi-se enchendo de nomes. No Brasil, em 4x2x3x1, com os habituais dois volantes à frente da defesa (o duplo-pivot europeu). impuseram-se Souza, mais forte a sair para o jogo, e Renan ou Maylson, fortes sobre a bola. Recuperavam e lançavam um trio de criativos: Giuliano (o clássico organizador, mas que ainda se agarra demasiado à bola), Alex Teixeira (fintas e mais fintas), Paulo Henrique (canhoto de classe, mas algo lento) ou Douglas Costa (imaginativo, mas que joga aos repelões). Todos atrás do ponta-de-lança Alan Kardec, que, pouco móvel, não fez esquecer quem seria o titular natural, Walter (lesionado).
 
A nota europeia mais positiva veio da Hungria, com um nº10 para fixar: Koman, que, junto de Nemeth (nº9) deram grande qualidade ofensiva à equipa (na construção e no remate).
A nota mais surpreendente veio da Costa Rica. Um onze sedutor, criativo e rápido, com três avançados (4x3x3) em permanente movimento: Urena e Madrigal (nas alas), Martinez (no centro), apoiados, nas costas, por um 10 moderno, que joga de área a área, o incansável Diego Estrada. Jogam ainda todos na Costa Rica! Não sei se encaixariam facilmente nas exigências (ritmos e espaços) europeias, mas, a cada jogo, deram-me sempre 90 minutos bem passados. Razão suficiente para os querer voltar a ver rapidamente.
 
   ESTRELAS
 
 
 
Adiyiah (Fredrikstad)
Brilhou no ataque do Gana Sub-20. Foi o goleador do Mundial, com 8 golos em 7 jogos. Mais do que os golos, porém, Dominic Adiyiah destacou-se pela versatilidade do seu jogo, inteligente nas movimentações para ir buscar a bola em zonas mais laterais, controlando-a depois, até, procurando o drible ou espaço, arrancar para a área. Forte no um-para-um, ultrapassa defesas e, frente ao guarda-redes, revela grande frieza a concretizar. Com 20 anos, joga escondido no Fredrikstad da Noruega, que o foi buscar no ano passado ao Hearts of Lions do Ghana. Veremos a sua evolução. Pelo que se viu nos relvados do Egipto é, claramente, para brilhar em melhores relvados.  
 
 
 
Koman (Bari)
Nasceu na Ucrania, mas brilhou na Hungria Sub-20. É um organizador com grande capacidade técnica. Vladimir Koman, 20 anos, rumou aos 18 para Itália (Sampdoria, que o emprestou ao Avelino e, agora, ao Bari). Pode jogar como segundo avançado ou pelas faixas. Em qualquer lugar, revela notável qualidade de passe, visão de jogo e classe em tudo o que faz.
 
 
Alex Teixeira (Vasco da Gama)
Brilhou no Brasil Sub-20. O primeiro impacto resulta das suas fintas em velocidade, jogador-serpente. Depois, percebe-se que sabe desmarcar-se e tem remate. Na Final, jogou demasiado com o coração. Parece um extremo, mas pode jogar mais por dentro. Cresceu nas escolas do Vasco da Gama onde está desde os 9 anos. Aos 20, prepara o salto para voos maiores.   
 
 
 

 

 

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