O “futebol dos elefantes”

12 de Fevereiro de 2009
O jogador e a equipa, gigantes presos por uma simples corda espetada na terra (relva) como um elefante num circo.

 

 
Apesar da sua enorme força, o elefante é um animal dócil na pista de um circo, conduzido por uma simples corda. Só isso causa admiração, mas o espanto cresce quando reparamos que antes, durante dias seguidos, ele fica preso, submisso, apenas por uma corda ou corrente que aprisiona uma das suas enormes patas a uma pequena estaca espetada na terra. Apesar da sua força, capaz de arrancar árvores com a tromba, ele permanece preso. Seria tão fácil arrastar a estaca e fugir, mas não o faz. A explicação está no facto dele estar desde muito pequeno preso à estaca. Nesse tempo, sem a força gigante de adulto, ele lutou muito por se libertar mas nunca o conseguira. Ficava exausto, até que acabou por aceitar ser incapaz de se libertar. Conformou-se com o seu destino. E, em adulto, gigante, permanece preso porque está domesticado, dominado pela recordação de impotência, memória de elefante, que ficou desde o inicio de vida. Nunca mais tentou libertar-se da pequena estaca.
 
As equipas de futebol também vivem muito desses estados de espírito, dilemas mentais, prisões da memória. O jogador também. Pode parecer estranho mas é comum uma equipa ou jogador ficarem presos a uma determinada forma de jogar e não se atreverem a tentar outra. É o chamado “futebol dos elefantes”.  
 
Será por isso que, no Benfica, falo tantas vezes de Katsouranis estar muito limitado tacticamente no jogo, demasiado “preso” à posição de trinco, quando deveria jogar mais na frente, como é capaz, tentando o golo até. Está a transformar-se num “jogador-elefante”. Com a estaca táctica espetada à frente dos defesas-centrais. Às vezes, acho que não sai da posição por já estar tacticamente domesticado, ficando a ver Yebda solto à sua frente, tentando “comer” a bola.
 
Encontro a mesma lógica do “futebol do elefante” em Alvalade. A estaca táctica do losango domesticou as diferentes posições da equipa e todos os jogadores vivem com a mesma lógica. Talvez por isso muitos, dão a sensação de quererem ser mais do que aquilo que o treinador lhes pede. A equipa convenceu-se que não consegue jogar de outra forma e já nem tenta fugir para outra via táctica, mesmo quando, como sucedeu frente ao Braga, se vejam onze jogadores amestrados em campo num plano de jogo cristalizado, controlado pela corrente do adversário que, embora forte, não era assim tão impossível de ser partida. Desde que nasceu, o Sporting de Paulo Bento, só conhece o losango. Mesmo recém-nascido já abria os olhos e via o seu desenho. Agora, em adulto, também só entende o jogo em losango. Mas há um jogador que me dá a sensação de querer sempre, em cada jogo, voltar ao princípio da história. É Moutinho. Vejo-o, nesta fábula futebolística, ainda como o pequeno elefante que acredita poder libertar-se. E tenta-o em cada jogo.  Em várias posições do losango. Numas parece até que vai partir a corda, mas acaba quase sempre esgotado. Talvez seja por isso que fico com a sensação que um dos seus principal defeito do seu jogo é…correr demais. O maior receio é, um dia, em plena idade adulta, também ele não acreditar ser possível viver de outra forma num relvado.
 
A luta pelo título explodiu no nosso campeonato. Os “grandes” continuam a respirar uns em cima dos outros, com o sonhador Braga de Jesus vigiando-os. Os factores decisivos poderão estar em vários pontos, mas, seguindo o trilho dos elefantes, suas memórias e prisões, acredito que o maior candidato será aquele que, nos jogos, surgir menos domesticado por uma única estaca táctica.

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