Agora, é tempo de construir-mos as nossas próprias lendas”, foram as palavras de Jock Stein, em Maio de 1966, no dia em que, cumprindo o destino, se tornara treinador do Celtic, profetizando a construção da maior equipa que alguma vez Escócia havia de conhecer. Ao longo dos tempos, o futebol escocês cresceu e viveu sempre sob a sombra majestosa do gigante orgulho inglês, atitude imperial que criou raízes no longínquo Sec.XVII, quando, em 1707, a força das armas uniu territorialmente aquilo que ainda é hoje, o último velho Império que a história criou.
Quando se pensa no reino do futebol britânico pensa-se, muitas vezes, na Grã-Bretanha no seu todo, mas, a verdade, é que, entre as várias nações da Ilha para lá da mancha moram estilos de futebol e povos com identidades bem distintas. Entre eles, emerge como histórico opositor futebolístico da velha Inglaterra, a orgulhosa Escócia. Uma secular rivalidade e uma afirmação de sentimento patriótica que inspirou o brave heart, coração selvagem escocês, mas não impediu, n inicio do Séc.XXI, a contratação de um treinador estrangeiro para novo boss da selecção escocesa: Berti Vogts, um pequeno e feroz alemão, famoso como o nº2 da NacionalManschaft, com a qual fora campeão europeu como jogador e treinador. São os sinais dos tempos. Deprimida com a eliminação do Mundial-2002, a Federação Escocesa inspirou-se no exemplo de sucesso inglês e, após despedir o sereno Craig Brown, também ela resolveu contratar o seu seleccionador estrangeiro.
Vogts: Um alemão nas Highlands

Vogts surge num momento em que todo o futebol escocês se encontra em profunda renovação. Percorrendo as highlands, terras altas, sente-se, no entanto, que todo aquele povo fanático por futebol sofre por se encontrar órfão de grandes referências como as que fizeram a história gloriosa do seu passado. Jogadores como Dalglish, Strachan, Archie Gemmil, Billy Bremer ou Souness, mentores do período de ouro do futebol escocês, nos anos 70/80, e grandes técnicos como os míticos Bill Shankly e Matt Busby, até Alex Fergusson, e, acima de todos, o Grande Mestre Jock Stein, «o senhor futebol escocês» que um dia, ao pegar no Celtic, nos anos 60, disse “agora é tempo de construir-mos as nossas próprias lendas!”. Assim foi, até morrer no banco, em 1985, no decorrer de um emocionante Gales-Escócia de apuramento para o Mundial-86.
Hoje os tempos são outros. Após a retirada do elegante careca do meio campo Gary McAllister, a equipa nunca mais encontrou um patrão para a guiar em campo. Para além dele, porém, e desde que assumiu o cargo, Vogts deparou-se com a recusa de muitos outros antigos internacionais, como Ricahrd Gough, John Colins e o irascível ponta de lança Duncan Fergusson, em regressar á selecção. Os primeiros tempos de Vogts na selecção foram terríveis. Depois de goleado, na esteia, pela França (5-0), seguiu-se uma desastrosa digressão ao Oriente, onde foi de novo goleado, pela Coreia (4-1) e derrotado pela África do Sul (2-0). O pior surgiria, no entanto, com o inicio da fase de apuramento para o Euro-2004, quando após vencer a Islândia (0-2), o onze escocês sofreu para empatar frente á modesta selecção das Ilhas Faroe (2-2), depois dos escandinavos terem estado a vencer, por 2-0, até 5 minutos do final. Uma situação que se agravou nos últimos tempos após o defesa David Weir, em conflito aberto com Vogts que o criticou pelo empate nas Ilhas Faroe, também anunciar o seu abandono da selecção.
A equipa e o estilo de jogo

Sem grandes estrelas, Vogts baseou-se nas novas esperanças do futebol escocês para construir a sua selecção. Desde o inicio, a sua principal preocupação foi dar solidez competitiva ao meio campo, o coração da equipa. Para isso, apostou numa aguerrida dupla de médios-defensivos: Lambert-Ferguson. Ambos muitos fortes no tackle e na recuperação de bola, recriaram na selecção o espirito guerreiro da Old Firm, o histórico nome que define os titânicos duelos que, durante a época, os dois protagonizam pelos seus clubes, seculares adversários, Celtic e Rangers, respectivamente. Lambert foi mesmo o único jogador a ouvir os apelos de Vogts e aceitar regressar á selecção, quando seis meses antes anunciara a sua retirada.
Tacticamente, Vogts hesitou em conservar o 3x5x2, estendido em campo num dinâmico 3x4x1x2, preconizado pelo seu antecessor, Craig Brown, ou apostar antes num clássico 4x4x2, com reforço da zona central do meio campo. Com a falta de médios-ala fortes, a opção foi o 4x4x2, com a particularidade de, durante grande parte do jogo, o meio campo ser composto por cinco elementos, onde para além de Lambert e Ferguson, também se destaca o agressivo Gary Naysmith, do Everton, que também sabe rematar á baliza. A grande novidade na convocatória para o jogo com Portugal, reside, porém, na chamada, pela primeira vez na sua carreira, de Paul Devlin, 30 anos, médio do Birmingham, que tem realizado um excelente inicio de época.
Na defesa, sem Weir, impõe-se o central do West Ham Christian Daily, sendo também de referir as habituais incursões e cruzamentos de Maurice Ross quando sobe no terreno, enquanto no ataque, sem o gigante Ferguson, o onze perdeu a agressividade de outrora. A principal referência continua a ser o rebelde Paul Dikov, do Leicester, que nas Ilhas Faroe jogou sob o lado direito do meio campo, no que a critica considerou um imperdoável erro táctico de Vogts, acabando substituído ao intervalo. Para além dele, os avançados escoceses mais perigosos são Steven Thompson, do Dundee United, e Steven Crawford, do Dunfermline, neste momento os caçadores de golos predilectos de Vogts. Outras possibilidades são Don Hutchinson, Freedman, ou K.Miller.
FIGURAS:
PAUL LAMBERT
Clube: Celtic Glasgow
Idade: 32 anos
Posição: Médio
Um excelente jogador de meio campo. Destemido na recuperação de bola e inteligente, depois, a conduzi-la para o ataque. É a experiência personificada. Embora o pulmão muitas vezes começa a faltar, o seu genuíno espirito guerreiro escocês continua, no entanto, a fazer dele um pilar do sector.
BARRY FERGUSON
Clube: Glasgow Rangers
Idade: 24 anos
Posição: Médio
Outro exímio recuperador de bolas, daqueles que, se for necessário, até come a relva. O típico jogador britânico, forte fisicamente (1,80m.), para quem parece a bola nunca vai fora. No inicio da época, depois de já ter sido referenciado pelo Arsenal de Wenger, esteve a um passo do Liverpool.
PAUL DICKOV
Clube: Leicester
Idade: 30 anos
Posição: Avançado-centro
O tipo de avançado sempre em movimento que, embora limitado tecnicamente, parece sempre perto de fazer estragos. De pequena estatura, 1,68m., é um rato da área que também recua no terreno em busca da bola. Já não possui a velocidade de outrora, mas a época passada foi uma peça crucial na subida de divisão do Manchester City de Keagan.
CRISTIAN DAILLY
Clube: West Ham
Idade: 29 anos
Posição: Defesa-central
Sem Weir, ele poderá ser o novo patrão da defesa escocesa. Excelente defesa, pode jogar como defesa central ou colocado na frente dos centrais. Apesar de não ser um poço de técnica, tem uma presença elegante e sabe tratar a bola, entregando-a jogável ao meio campo.
JOCK STEIN: “THE BIG MAN”
DEU A VIDA PELO FUTEBOL ESCOCÊS

Nos grandes momentos do futebol inglês estão muitos homens escoceses. Um drama que, no campo dos treinadores, também minou o mundo futebolístico escocês. Entre muitos nomes, emergem três monstros, mais famosos que o de LochNess. Sentados no banco, eles conquistaram a Inglaterra futebolística: Matt Busby, Bill Shankly e Alex Fergusson. Analisando a história do futebol escocês surge a tentação de considerar que quase todos os seus grandes nomes ficaram muito a dever á nação que os criou. Um homem, no entanto, personificou todo o seu espirito: Jock Stein, “The Big Man”, o senhor futebol escocês, um homem que nunca virou costas ás suas raízes e que se tornou um mito quando morreu em pleno campo.
Depois de, como jogador, ter feito carreira no Celtic, Stein começou a moldar a sua mentalidade como treinador, numa era em que a abordagem táctica do jogo começava, por fim, a suscitar aceso debate no futebol escocês. Foi a época, por meados dos anos 60, em que figuras como Eddie Tumbull, Willie Ormonde e Jimmy Bonthrone passaram para um plano quase professoral, ao mesmo tempo em que Stein, devoto protestante, se tornava treinador do Celtic, finda a era do lendário Jimmy MacGrory, que ocupara o posto durante 20 anos, desde 1945, quando substituiu Willie Maley, uma espécie de pai do Celtic, após uma brilhante carreira como grande goleador, iniciada em 1921, que o consagrou, até hoje, como o melhor goleador de sempre na história do futebol escocês.
Quando iniciou a carreira, Stein tinha como grande rival Willie Waddel, o homem que se sentava no banco do Rangers. O futuro ditaria, no entanto, a superioridade da aura do protestante que, diziam os desconfiados, se intrometera no católico reino do Celtic.
Com o emblema do trevo ao peito, rompeu fronteiras e conquistou títulos, cujo auge situou-se, em 1967, no vale do Jamor, quando comandou o Celtic á vitória na Taça dos Campeões, a única na história do futebol escocês. Esse onze, onde jogaram imortais como , e que para a eternidade ficou conhecido como os Leões de Lisboa, é o maior símbolo da sua obra, onde constam, entre 66 e 78, 10 títulos de campeão nacional e 8 vitórias na Taça. Em 1978 rumou a Inglaterra para treinar o Leeds, mas só ficou alguns meses. Nostálgico da sua terra, regressou para tomar conta da selecção escocesa que guiou até aos Mundiais de 82 e 86. Ainda hoje, ele ainda o treinador britânico com mais títulos conquistados no seu palmares.
A última epopeia teria, no entanto, um trágico final. Corria o ano de 1985 e a Escócia jogava em Galles o jogo decisivo de apuramento para o Mundial-86. A poucos minutos do fim a Escócia faz o golo do empate que garante o direito de jogar um play-off de apuramento com a Austrália. Stein exulta, mas ao seu lado um homem, então seu adjunto, já estava mais preocupado com ele do que com o desenrolar do jogo: Alex Fergusson, o seu discípulo mais famoso. Desde o inicio do segundo tempo que o notava sem cor, a suar muito, longe da presença imponente que ainda ostentava, apesar dos seus 33 anos e do facto de, desde que em 1976, quando teve um terrível acidente de viação, o seu fulgor ter, desde aí, refreado. Muitos diziam que ele nunca recuperara física e mentalmente desse choque onde, durante a convalescença de uma ano, viu a morte de perto, e a consciência lhe dissera que talvez fosse tempo de parar.
Mas, Big Jack era imparável. Mesmo nesse dramático dia, a emoção com que vivia o futebol emergeu em toda a dimensão, quando pouco depois do golo do empate ouviu o apito do árbitro e, pensando ter sido o final do jogo, teve o impulso de se virar para o banco galês e confrontar o técnico England que dias antes tivera algumas palavras depreciativas sobre a selecção escocesa. Faltavam, no entanto, dois minutos para o seu termo. Nessa altura, Fergusson já chamara o médico para perto de Stein a fim de vigiar todos os seus movimentos. Ainda a bola estava em A última epopeia teria, no entanto, um trágico final. Corria o ano de 1985 e a Escócia jogava em Galles o jogo decisivo de apuramento para o Mundial-86. A poucos minutos do fim a Escócia faz o golo do empate que garante o direito de jogar um play-off de apuramento com a Austrália. Stein exulta, mas ao seu lado um homem, então seu adjunto, já estava mais preocupado com ele do que com o desenrolar do jogo: Alex Fergusson, o seu discípulo mais famoso. Desde o inicio do segundo tempo que o notava sem cor, a suar muito, longe da presença imponente que ainda ostentava, apesar dos seus 33 anos e do facto de, desde que em 1976, quando teve um terrível acidente de viação, o seu fulgor ter, desde aí, refreado. Muitos diziam que ele nunca recuperara física e mentalmente desse choque onde, durante a convalescença de uma ano, viu a morte de perto, e a consciência lhe dissera que talvez fosse tempo de parar.
Mas, Big Jack era imparável. Mesmo nesse dramático dia, a emoção com que vivia o futebol emergeu em toda a dimensão, quando pouco depois do golo do empate ouviu o apito do árbitro e, pensando ter sido o final do jogo, teve o impulso de se virar para o banco galês e confrontar o técnico England que dias antes tivera algumas palavras depreciativas sobre a selecção escocesa. Faltavam, no entanto, dois minutos para o seu termo. Nessa altura, Fergusson já chamara o médico para perto de Stein a fim de vigiar todos os seus movimentos. Ainda a bola estava eA última epopeia teria, no entanto, um trágico final. Corria o ano de 1985 e a Escócia jogava em Galles o jogo decisivo de apuramento para o Mundial-86. A poucos minutos do fim a Escócia faz o golo do empate que garante o direito de jogar um play-off de apuramento com a Austrália. Stein exulta, mas ao seu lado um homem, então seu adjunto, já estava mais preocupado com ele do que com o desenrolar do jogo: Alex Fergusson, o seu discípulo mais famoso. Desde o inicio do segundo tempo que o notava sem cor, a suar muito, longe da presença imponente que ainda ostentava, apesar dos seus 33 anos e do facto de, desde que em 1976, quando teve um terrível acidente de viação, o seu fulgor ter, desde aí, refreado. Muitos diziam que ele nunca recuperara física e mentalmente desse choque onde, durante a convalescença de uma ano, viu a morte de perto, e a consciência lhe dissera que talvez fosse tempo de parar.
Mas, Big Jack era imparável. Mesmo nesse dramático dia, a emoção com que vivia o futebol emergeu em toda a dimensão, quando pouco depois do golo do empate ouviu o apito do árbitro e, pensando ter sido o final do jogo, teve o impulso de se virar para o banco galês e confrontar o técnico England que dias antes tivera algumas palavras depreciativas sobre a selecção escocesa. Faltavam, no entanto, dois minutos para o seu termo. Nessa altura, Fergusson já chamara o médico para perto de Stein a fim de vigiar todos os seus movimentos. Ainda a bola estava em jogo, quando caiu fulminado vitima de ataque cardíaco. No relvado os jogadores ficaram confusos. Sob os gritos de Fergusson continuaram a lutar, segurando o resultado até final. Nas cabinas, Stein lutava pela vida. Conta Fergusson que quando desceu ao balneário e foi á sala onde os médicos tentavam reanimar Stein encontrou, já á porta, a chorar convulsivamente, Greame Souness, que findo o jogo voara para saber o que se passava com o seu mestre escocês: “Penso que o perdemos, Alex!”, dizia o duro capitão escocês. Em desespero, Stein ainda foi transportado de urgência ao hospital, mas já chegou sem vida.
Para a eternidade ficava o espirito do Big Man. Deu a vida pelo futebol do seu país e no seu epitáfio deveria estar escrito “Jock Stein- o homem que sabia tudo sobre o futebol escocês”. 15 anos depois, ele continua órfão de um homem com o seu saber e carisma. O seu espirito permanece nos corredores do Parkhead, inspirando as novas gerações que vão chegando ao Celtic, mas nunca mais ninguém conseguiu ocupar o seu lugar.
OS CLUBES ESCOCESES NAS COMPETIÇÕES EUROPEIAS
Quando em 1967, no Vale do Jamor, Jock Stein conquistou com o seu Celtic, batendo o catenaccio do Inter de Herera, a primeira Taça dos Campeões para clubes britânicos e a única na história da Escócia, Bill Shankly, outro mítico treinador escocês, virou-se para ele e disse-lhe: “Jock, a partir de agora, tu serás imortal!”.
Uma semana mais tarde, era a vez do Rangers chegar a outra final, a Taça das Taças, que, no entanto, perderia, já no prolongamento, frente ao Bayern Munique (1-0), depois de, ainda no mesmo ano, na Taça UEFA –então chamada Taça das Cidades com Feira- também o modesto Kilmarnock atingir as meias finais da competição, na qual seria eliminado pelo Leeds. Vivia-se a era dourada no futebol escocês de clubes.
O passar dos anos, com o aumento da competitividade por todo o futebol europeu, não iria, no entanto, honrar esta época histórica. Embora tivesse cultivado sempre a sua identidade própria, ao longo dos tempos, o futebol escocês de clubes cresceu e viveu sempre sob a majestosa sombra dos emblemas ingleses. Dessa forma, olhando a sua história, tirando o inesquecível feito dos Leões de Lisboa, e as proezas, já nos anos 80, do Aberdeen e do Dundee, a Escócia, mais do que através das exibições dos seus clubes no contexto internacional, destacou-se sobretudo graças aos grandes jogadores que sempre teve. Com efeito, fieis ao seu sentimento nacionalista, as equipas escocesas, selecção e clubes, criariam, ao longo dos tempos, um estilo próprio, que, se nos traços básicos se identifica com o tradicional sistema britânico -pontapés longos, kick and rush, chuta e corre, e muito forte nas chamadas segundas bolas- gerou, por outro lado, um must de talentos sem paralelo em todo o Reino Unido. Foram os casos de, entre outros, Law, Graham, e Gemmil, nos anos 60/70, Dalglish, Souness e Strachan, anos 80, e McAllister, nos anos 90. O drama reside, no entanto, em que todos eles, no auge das suas capacidades rumaram, tal como os seus mais emblemáticos treinadores –Shankly, Busby, Graham e, claro, Fergusson- ao futebol inglês, deixando os clubes escoceses órfãos do seu talento.
As aventuras falhadas do Rangers
Corria a época de 85/86, quando o Boavista recebeu, para a Taça UEFA, a visita daquela que se dizia ir tornar-se em breve uma grande equipa europeia: o Glasgow Rangers, então ainda comandada, no relvado e no banco, por Souness, o grande capitão dos últimos 30 anos da história do futebol escocês. O Rangers ganhou por 0-1 com uma grande exibição do extremo Cooper, entretanto já falecido, mas, apesar de nos anos seguintes, ter, de facto, construído um grande onze, apenas se limitou ás conquistas internas. A nível internacional, o melhor que logrou foi os quartos de final da Taça dos Campeões, em 87/88, sendo então eliminado pelo Steau Bucarest, depois afastado pelo Benfica. Mais tarde, nos anos 90 passaram pelo clube grandes estrelas estrangeiras, como Laudrup, De Boer e Boli, entre outros, mas a maior proeza reside na época de 92/93, quando, já em sistema por pontos, disputou a segunda fase da Liga dos Campeões, equivalente aos quartos-de-final, ficando a um ponto de atingir a final, ultrapassado pelo Marselha, futuro campeão. Dessa excelente equipa treinada por Walter Smith, e chefiada na defesa por Gough, fica a memória do seu belo meio campo, composto por Trevor Steven, McCall, o holandês Huistra e o soviético Mikhailitchenko, enquanto que, no ataque, emergia a forte dupla Hateley-McCoist. A conquista da Europa ficaria, no entanto, sempre adiada.
TAÇA DAS TAÇAS EM 1983:
O Abeerden de Fergusson e Strachan

Já passaram 20 anos desde que em 1983 uma equipa escocesa venceu uma prova europeia. O herói foi o Aberdeen, (vitória sobre o Real Madrid na final da Taça das Taças, 2-1, após prolongamento) nesse tempo treinado por um jovem técnico que ameaçava grandes feitos: Alex Fergusson, mentor de uma equipa diabólica liderada pelo pequeno Strachan, um dinâmico e magistral nº7 que, com grande visão de jogo e sempre com um sorriso nos lábios, lançava o pânico nas defesas contrárias. A seu lado, figuravam, entre outros, o guarda redes Leighton, os defesas McLeish e Rougvie, os médios Simpson e Cooper e, na frente, o avançado McGhee. Na época seguinte defrontaram o FC Porto nas meias-finais da mesma prova, sendo derrotados no jogo da segunda mão, no típico nevoeiro escocês, por um fantasmagórico golo de Vermelhinho.
Fergusson e Strachan não permaneceriam, no entanto, muito mais tempo nas Highlands. Atraídos pelas libras inglesas, rumaram para Inglaterra, para o clube de Mat Busby, o Manchester United. Muitos perguntam o que teria acontecido se os gloriosos 17 anos de Fergusson em Old Traford tivessem sido á frente de um clube escocês. Desde esse tempo, nunca mais o Abeerden conseguiu formar uma equipa capaz de vencer o titulo escocês ou singrar na Europa. Hoje, agoniza nos últimos lugares da fraca Liga Escocesa.
Anos 80: O sonho do Dundee United de Sturrock
Antes do Celtic chegar á final da Taça UEFA em 2002/03, a última equipa escocesa a brilhar na Europa, fora, sensacionalmente, em 86/87, na mesma época em que o FC Porto se sagrou campeão europeu, o Dundee United de Jim McLean, com uma equipa onde estavam figuras como os defesas Mclnally e Malpas, os médios Narey e Kirkwood, o avançado Redford e o perigoso e lutador extremo Paul Sturrock, que jogava sempre com as meias caídas em baixo, chegou á final da Taça UEFA –onde perdeu com o IFK Goteborg, 0-1 e 1-1- no corolário de um período dourado da sua história, que, antes, já o levara, em 83/84, á meia-final da Taça dos Campeões, perdida de forma polémica para o Roma de Conti, Pruzzo e Falcão. Depois de ter ganho em casa por 2-0 o Dundee não resistiu no segundo jogo. Para a história ficou uma derrota por 3-0 e uma suspeita arbitragem do francês Vautrot, que mais tarde levaria á suspensão do presidente romano Viola. Em termos desportivos, porém, o Dundee perdera uma oportunidade única de figurar entre os gigantes do futebol europeu. Foi, antes do renascer do Celtic de Martin O`Neil, o último fôlego escocês na Europa do futebol.
Procurando razões para a crise
Tacticamente rudimentar e com pouco ritmo competitivo, os clubes escoceses, sobretudo a partir dos anos 90, não conseguem depois, nas competições europeias, encontrar o ritmo certo para defrontar as equipas do Velho continente, por mais fortes ou fracas que sejam. Muitos atribuem esse facto á pouca competitividade da sua Liga. Em 40 anos apenas por quatro vezes o título fugiu á lendária Old Firm formada por Celtic ou Rangers. Foi no inicio dos anos 80, com o Aberden, por três 3 vezes, 80, 84 e 85, e o Dundee, uma vez, em 83. As causas da crise escocesa são, porém, mais profundas, e têm antes contornos de ordem estrutural e económica. Por uma lado, os clubes revelam-se financeiramente incapazes de segurar as suas maiores estrelas. Por outro, os últimos anos demonstraram, nos relvados, um claro decréscimo da qualidade técnica dos seus melhores jogadores, ao ponto de, nos anos 90, sem o perfume técnico dos craques do passado, ser a imagem do desdentado Craig Burley, um dos pulmões do Celtic e da selecção escocesa dessa época, a tornar-se no espelho fiel do futebol escocês, sempre um exército de paixões, mas carente do nível técnico de outrora.
Para além disso, o cenário do futebol europeu mudou muito nos últimos dez anos. Muitas nações, antes pouco competitivas, emergiram. As grandes potências aumentaram o seu numero de clubes inscritos, e, por fim, a Lei-Bosman rompeu as fronteiras e abriu o mercado, favorecendo os mais ricos, o que não é, claramente, o caso dos clubes escoceses. Um problema estrutural que exige um grande esforço dos seus clubes reter dentro de fronteiras as suas estrelas, embora nenhuma delas detenha hoje, por exemplo, a magia e a classe de Dalglish ou Souness. O Celtic que defrontou o FC Porto na final da Taça UEFA 2002/03 foi o exemplo fiel dessa realidade. Uma equipa guerreira, sem requintes técnicos, adepta dos pontapés em profundidade, forte nos ressaltos e nos lances divididos, mas que sente muitas dificuldades quando a bola desce á relva.