O futebol escondido na “cave”

14 de Março de 2010 18:02
Quatro equipas, estilos distintos, a mesma a luta pela permanência. O que é, no futebol, o instinto de sobrevivência?

 

A situação em que uma equipa se encontra na classificação influi, ou modifica, o modo como ela (e seu treinador) entende o jogo. O mais natural, na equipa que cai no fundo da tabela, é sentir necessidade de ganhar mas, em campo, ficar dominada pelo…medo de perder. A bola, em vez de solução, passa a ser vista como ameaça, a granada que vai explodir junto à nossa baliza. Tende a defender mais atrás, com mais jogadores. Tenta evitar o lado imprevisível do jogo. Depois, procura oportunidade para lançar o contra-ataque, sobretudo com um passe longo ou uma transição individual. Este sub-mundo competitivo está hoje reduzido a quatro equipas: Belenenses, Leixões, Setúbal e Olhanense. Apesar do que seria esse padrão natural de comportamento, são onzes muito diferentes.
O Setúbal será quem mais se aproxima desse conceito. Viu-se contra o Braga. Bem fechado, o onze só saía da sua trincheira quando dela saia…um jogador em posse. Ney, sobretudo. Levava a bola de uma área à outra e, nessa altura, era como toda a equipa pusesse uma máscara de oxigénio. Neste mundo, porém, há sempre um elemento estranho que tenta confundir tudo. Um criativo que quer jogar…outro jogo. Como Hélder Barbosa. A bola ia ter com ele (finta com mudança de velocidade) e a equipa parecia outra. Mas não era. Percebia-se logo quando ia depois para outro jogador.
 
O Olhanense é, nesta luta, a equipa com o projecto mais solto. O que não quer dizer que seja a com maior instinto de sobrevivência. É, porém, a que tem melhor qualidade de vida futebolística. Mesmo quando perde. O seu puro 4x3x3 diz muito desta ideia que Ukra personifica em cada arranque. É a que tem mais pontos e joga melhor (com transições apoiadas). É impossível não reparar nesta relação que se traduz na fidelidade a uma ideia de jogo (para o bem e para o mal). 
Em Belém, Toni ainda não conseguiu comunicar tacticamente com os jogadores. Abdicou do seu 4x3x3 mas os outros sistemas (variantes do 4x4x2) vivem em campo numa prisão mental. Tem um problema de agressividade corte/recuperação à frente da defesa e perdeu a influência do seu elemento estranho, Zé Pedro, adormecido nas transições, enquanto, na frente, Lima personifica, na forma como parece ficar separado do resto da equipa, a desconexão táctico-mental entre sectores que atinge o onze
 
O Leixões com Castro Santos (pós-Zé Mota) não tem nenhum elemento estranho que faça a diferença. Na chamada desmotização de princípios, a principal preocupação é não cometer erros defensivos, mas custa-lhe muito chegar à baliza. O facto de ser ainda Zé Manuel quem melhor acelera a equipa diz quase tudo das suas limitações ofensivas.
A próxima jornada reúne estas quatro equipas entre si. Repare-se que não há mal nenhum na opção por um chamado «futebol de expectativa» (como Leixões e Setúbal) o problema é verem a bola como uma granada e a equipa, então, sentir-se mais confortável sem ela, fechando espaços para não se expor aos erros, do que quando a recupera e é obrigada a…fazer mais qualquer coisa.
 
 

 

 

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