Uma equipa da II Divisão B com nome estranho elimina um gigante galáctico. Um jogo entre dois candidatos ao título termina 5-5. Os protagonistas destas histórias da twilight do futebol são o antes anónimo Alcórcon e o grande Real Madrid, Lyon e Marselha, grandes equipas do futebol francês. Descobrir como é possível, de repente, o futebol entrar nesta dimensão quase louca é um dos maiores mistérios do jogo. Destrói, num ápice, o mito dos grandes orçamentos fazerem, por si só, as melhores equipas, e as teorias de disciplina táctica, perdida quando os jogadores tomam conta do…jogo.
Estes dois casos, porém, terão explicações menos sobrenaturais do que o seu simples registo pode sugerir. Depois de adormecido (sem atitude táctica e intensidade mental-competitiva, factos que nasceram da descompressão com que o jogo foi preparado) na primeira mão (derrotado 4-0!), o Real podia pensar em reescrever a história nos outros 90 minutos. Não o conseguiu. Sobretudo porque tentou mal essa aventura. Pelegrini pensou que tinha de fazer muitos golos, imaginou o Alcórcon fechado a defender e decidiu seguir o chamado instinto primário de muitos treinadores nessas situações: meter muitos avançados! Com isso, conseguiu, de facto, jogar muito tempo perto da baliza adversária, mas, em todos esses momentos, sempre longe do…golo. Não é um paradoxo. Ao jogar quase num 4x2x4 (com quatro avançados, Raúl, Van Nistelroy, Higuaín e Kaká sempre nos últimos 30 metros do campo) deixou o meio-campo para um duplo-pivot que jogava quase sentado à entrada da área (Gago-Diarra). Sem ter construção de jogo, é impossível construir jogadas para oportunidades de golo.
Esse processo tem, no relvado e no plano de jogo, espaço bem claro: o meio-campo. Isto é, médios. A presença de muitos avançados apenas encurta mais o campo pois coloca o jogo em poucos metros e favorece quem só pensa em defender. Por isso, o pequeno onze vindo das catacumbas do fútbol espanhol nem teve de sofrer muito para chegar ao milagre, afinal o resultado natural.
Em França, cinco golos em pouco mais de 10 minutos, como já nem existe em jogos de hóquei em patins. São necessários muitos erros para isto suceder, sem dúvida, mas Lyon e Marselha são, por princípio, duas equipas que pensam o jogo a partir de como atacam. Nesse sentido, o Lyon de Puel tem mais força e inteligência (espectacular Lisandro) porque tem quem construa melhor as jogadas de golo (Michel Bastos e Pjanic fantásticos). Ao Marselha de Deschamps faltou saber esconder a bola desse mundo cruzado de médios e avançados. A simples equação que, no fundo, explica como as aparições do futebol mais louco têm, no jogo, uma lógica racional.