O FUTEBOL NOS JOGOS OLÍMPICOS (1904-2004)

August 28, 2004 12:00 AM
O utópico ideal de amadorismo dos Jogos Olímpicos e o secular profissionalismo do futebol. Duas realidades em confronto que, desde a origem, regeram a controversa relação entre o maior evento desportivo mundial e o chamado desporto-rei. Uma história de herois e vilões, desde os mitológicos Nielsen e Fuchs, eternizados na história futebolística como autores, cada um, de 10 golos em apenas um jogo(em 1908 e 1912)até á vitória Argentina em 2004, passando pelo extenso dominio de leste e do explodir do futebol africano...

1. A origem das lendas e os Magos do Uruguai

O utópico ideal de amadorismo dos Jogos Olímpicos e o secular profissionalismo do futebol. Duas realidades em confronto que, desde a origem, regeram a controversa relação entre o maior evento desportivo mundial e o chamado desporto-rei, que, antes da FIFA criar o seu Mundial, teve no Torneio Olímpico uma espécie de discreto “Campeonato do Mundo”. Estávamos nos loucos anos 20, a era dos Magos do Uruguai, heróis olímpicos que sucediam aos pioneiros ingleses e a dois jogadores mitológicos, Nielsen e Fuchs, eternizados na história futebolística como autores, cada um, de 10 golos em apenas um jogo. Foi em 1908 e 1912...
1904. Quando a noticia começou a correr por toda a Velha Albion, todo o mundo ficou escandalizado. O Middlesbrough Football Club, fundado há apenas seis anos, em 1899, promovido á Primeira divisão do Foot-ball inglês em 1902, contratara ao Sunderland Football Club, pela astronómica quantia de mil libras esterlinas, o avançado goleador Alf Common. Revoltado com a loucura milionária cometida, o prestigiado Athletic News perguntava: “Onde é que isto irá parar?” Era um tempo em que o desporto ainda era visto como uma actividade amadora, dedicada á exaltação atlética, longe dos centros financeiros. Um ideal nobre e de boas famílias, que inspirara, em 1896, o Barão Pierre de Coubertin a lançar, em Atenas, os Jogos Olímpicos da era moderna. Apesar do valor de Common, um dos melhores jogadores do mundo nessa época, o seu envolvimento nesse mundo contaminado do football profissional afastava-o, decisivamente, desses ideais olímpicos. A desconfiança do Comité Olímpico não se cingia, porém, apenas ao caso de Common, mas estendia-se a todo o futebol, então visto como um desporto muito distante da nobreza de competições, totalmente amadoras, praticadas por gentlemans, como o Atletismo ou o hipismo. Assim, depois de em 1900, nos Jogos de Paris ter-se limitado a surgir como modalidade de exibição, com a Inglaterra a apresentar um onze totalmente amador (Buckenham; Hones, Gosling, Quash, Barridge, Chalk, Haslam, Zealey, Nicholas, Apackman e Turner), mas capaz de vencer a França por 4-0, quatro anos depois, em 1904, ano da astronómica transferência de Common , os Jogos de St.Louis, no Canadá, já não contaram com qualquer representação nacional europeia, e mesmo as duas selecções presentes, do Canadá e duas equipas do EUA, eram totalmente compostas por jogadores do Galt FC e do St.Rose. Só em 1908, após previamente expurgar os indecorosos profissionais, indignos de entrar na pura Vila Olímpica, o futebol passaria a fazer oficialmente parte do programa dos jogos. Embora não tivessem a fama de Common, o torneio realizado na pátria do futebol, a Inglaterra, em Londres, exibiria, no entanto, outro grande goleador que, sempre com a baliza nos olhos, entraria eternamente para a história do futebol: o dinamarquês Sophus Nielsen, perigoso avançado, 20 anos, jogador do BK Frem. Vindo do frio do norte da Europa, Nielsen assombrou os 1000 espectadores que rodeavam as quatro linhas do White City Stadium ao marcar 10 golos em apenas um jogo, na meia-final contra a França, esmagada pela Dinamarca por 17-1! Embora na final, a Inglaterra mantivesse a sua coroa de inventores do futebol, vencendo os dinamarqueses por 2-0, foi sobretudo o nome de Nielsen que passou a figurar, a letras de ouro, na história do futebol mundial, mesmo que, continuando a jogar no amador futebol dinamarquês, tal proeza não lhe tivesse trazido nenhuma vantagem financeira, só a honra de passar a morar, no Olimpo, entre os grandes. A suprema glória, afinal, do ideal Olímpico. Nos anos seguintes, Nielsen continuou a jogar futebol na Dinamarca, passou pelo SV Holstein Kiel, mas já não surgiria, em 1912, nos jogos de Estocolmo, para defrontar a Inglaterra na final do torneio desse ano, onde muitos sonhavam vingar a derrota de Londres. A Inglaterra venceu 4-2, mas, ao lado de Nielsen, surgia agora outro diabólico goleador: o alemão Gottfried Fuchs que, no torneio de consolação, também marcaria 10 golos em apenas um jogo, frente á Rússia, numa vitória por 16-0. Juntos, Nielsen e Fuchs, os homens dos 10 golos, figuram na história como os primeiros grandes heróis do futebol olímpico. Mesmo sem terem se sagrados vencedores, os seus records de golos marcados num só jogo só seriam superados, em competições oficiais, em Abril de 2001, quando num jogo de apuramento para o Mundial 2002, o avançado australiano Archie Thompson marcou 13 golos á selecção da Samoa Americana, então esmagada pelo onze canguru com um placard de 31-0!

Antuérpia, o nascer da «Fúria»

Aos poucos, ainda nas primeiras duas décadas do Séc.XX, num tempo em que os contactos internacionais eram escassos e as viagens sempre muito longas e demoradas, os Jogos Olímpicos já proporcionavam como que um discreto “campeonato do mundo”. Em 1920, depois da interrupção provocada pela primeira guerra mundial, os Jogos de Antuérpia, foram como que o primeiro grande sinal que a Inglaterra já não estava sozinha na vanguarda da evolução futebolística, quando, para espanto de todo o mundo, foi derrotada pela Noruega, por 3-1. A grande estrela do torneio seria, no entanto, um elástico guarda-redes que surpreendeu todos os analistas com um invulgar estilo, ágil e voador, gritando com os defesas e realizando defesas espantosas, que guiaram o onze espanhol até aos quartos-de-final: Ricardo Zamora, então com apenas 19 anos. Seria ele o inspirador de uma postura heróica que iria, ao longos dos tempos, confundir-se com o estilo de jogo espanhol: a fúria, uma definição que ganhou asas e chegou até aos tempos modernos como principal referência do futebol espanhol. A origem remonta, porém, aos longínquos jogos de Antuérpia, no inicio dos anos 20, onde só a Bélgica, jogando em casa, conseguiria travar essa memorável fúria hispânica, seguindo em frente para uma polémica final contra a Checoslováquia que não chegaria ao fim, após os checos terem decidido abandonar o campo, revoltados com o árbitro inglês Lewis, por este ter, primeiro, marcado um penalty inexistente, e, depois, validado um golo obtido em nítido fora de jogo. A gota de água surgiria aos 40 minutos, com a expulsão de Steiner. Indignados, os checos decidiram abandonar o relvado, entregando a vitória á selecção belga. A grande sensação continuava a residir, porém, na derrota da Inglaterra que deixara os seus dirigentes e jogadores em estado de choque. Para eles, a explicação para a derrota era simples: a falta dos seus categorizados profissionais. Com eles, seria fácil ganhar, diziam. Receosos de novo desaire, as quatro federações britânicas decidem então, sob o pretexto da reintegração da Alemanha, Áustria e Hungria, nações derrotadas na guerra, abandonar a FIFA. Por trás desta decisão estava, no entanto, o confronto aberto entre o amadorismo e o profissionalismo que começava a dividir, através do futebol, todo o movimento olímpico

«Loucos anos 20»: Mágicos de Montevideo

Repassando a história, existem, claramente, dois torneios olímpicos que se destacam dos demais: 1924 e 1928. Num tempo em que a FIFA ainda não criara o seu Mundial, eles foram os primeiros verdadeiros Campeonatos do Mundo do futebol. Vivivam os chamados “loucos anos 20”. Finalmente, ás selecções europeias juntavam-se outras vindas de distantes continentes, como o sul-americano, morada do mágico Uruguai. Apesar das notícias que iam chegando do “Novo Mundo” sobre a categoria do futebol charrua, o Velho Continente continuava, porém, convencido da sua superioridade. Reza a lenda que, em 1924, chegados a Paris, para disputar os Jogos Olímpicos, depois de cruzar o Atlântico de navio, hospedados em terceira classe com bilhetes comprados pelo dirigente Atilio Narancio, que para arranjar dinheiro tivera que hipotecar a sua casa, os jogadores uruguaios realizaram um treino no Estádio de Colombes preparando o jogo com a Jugoslávia. Ao descobrir que sentados nas bancadas estavam, a assistir ao treino, os jogadores jugoslavos, resolveram fazerem-se passar por desastrados, chocavam uns contra os outros e muitos jogaram descalços, rematando no ar ou mandando a bola para fora. No dia do jogo, porém, os jogadores celestes soltaram toda a sua magia, feita de dribles e gestos técnicos nunca antes vistos, goleando a estupefacta Jugoslávia por 7-0! Levitado pelo seu mágico futebol, o Uruguai conquistaria os dois títulos olímpicos de 24 e 28, autênticas consagrações mundiais que seriam confirmados no primeiro Mundial organizado pela FIFA em 1930. Como grandes magos dessas conquistas Olímpicas figuram quatro jogadores que hoje moram na elite do Olimpo: O grande capitão Nasazzi, o lateral direito Andrade, dita a maravilha negra, o médio interior direito Scarone, grande goleador, e, a seu lado, na meia-cancha, o esquerdino Cea, profetas da chamada pirâmide mágica, nome que consagrou a disposição em campo do onze uruguaio. Hector Sacarone era um polivalente, que jogava no campo todo. Orientava a defesa e lançava o ataque. Dizia-se que cantava enquanto jogava. José Nasazzi, o Gran Mariscal, era um central intransponível, por quem, dizia-se nem sequer passava o raio x. Em 1933, tornou-se, ao ingressar no Nacional de Montevideo, na primeira estrela da era do profissionalismo, integrando a famosa Máquina Branca. Pedro Cea, El Peón, era um prodigioso esquerdino, nascido na Galiza, que, embora lento, tinha uma astúcia diabólica e dele se dizia ter o estranho dom de adivinhar sempre a jogada seguinte. Foi o único jogador que jogou todos os jogos das Olimpíadas de 24 e 28 e do Mundial de 30. Andrade era a grande estrela. Nesse tempo nunca a Europa vira um negro a jogar futebol. Ele fora o primeiro. Para a história fica o registo de um defesa lateral direito, que, acariciando a bola, subia pelo seu flanco com a elegância de um bailarino, driblando num jogo de cintura que parecia dança. Conta-se que num jogo atravessou meio campo com a bola dominada na cabeça.

2. Os glaciares Olímpicos de leste

O pós-guerra gerara um mundo diferente, dividido em dois blocos, política, social e culturalmente separados. Durante quarenta anos, por entre a guerra fria, o desporto transformou-se, muitas vezes, numa bandeira ou num instrumento de propaganda no qual os Jogos Olímpicos foram palco privilegiado. Numa era em que o futebol rasgara fronteiras e profissionalizara todas as suas estruturas, o torneio olímpico ficou prisioneiro do domínio de leste que sob o manto do falso amadorismo, surgia sempre com as suas selecções mais fortes, mentora de um ciclo de vitórias protagonizadas por gigantes como Puskas, Kocsis, Yashine, Blokhine, todos amadores campeões olímpicos...
Quando os Jogos Olímpicos regressam, em 1948, após o fim da segunda guerra mundial, o futebol já não conseguia disfarçar a envolvente profissional que tomara conta dos seus destinos entre as maiores potências. O pretensa capa de amadorismo com que surgiam no contexto Olímpico revoltava as consciências mais puras dos seguidores de Coubertin que nunca viram com bons olhos esse tipo de, digamos, profissional dissimulado. Por outro lado, ninguém pretendia afastar o maior desporto do mundo dos Jogos Olímpicos. Esta invasão do profissionalismo no futebol olímpico ficou clara na selecção sueca que surgiu no Jogos de Londres, em 48, alinhando um célebre trio que, findo o torneio, assinaria volumosos contratos com o AC Milan, formando o famoso Gre-No-Li, iniciais dos fantásticos Gren, Nordahl e Liedholm que, nesse ano, venceram na final a virtuosa Jugoslávia por 3-1. Depois da corrente existencialista que varreu o mundo no pós-guerra, os anos seguintes foram criando, no entanto, um clima mais tenso entre as grandes potências vencedoras do conflito mundial. Era o advento da “Guerra fria”. Um confronto político, social e cultural, que encontraria no desporto um placo previligiado de confronto e propaganda, do qual os jogos olímpicos foram muitas vezes vitima. Escondidas atrás de um profissionalismo camuflado, mas apresentando-se ao mundo com o uniforme do amadorismo, as selecções do leste europeu iniciaram, nos anos 50, um período de domínio que se estenderia pelas quatro décadas seguintes. Enquanto os outros países surgiam com onzes compostos por jovens promessas ou jogadores de segundo plano, as selecções de leste, entre as quais a URSS que faria a sua estreia nos jogos de 1952, apresentavam-se na máxima forma, com as suas grandes estrelas. Uma “máscara olímpica” que decorou a ouro sucessivas selecções alinhadas atrás da cortina de ferro. 1952, Helsínquia: Hungria; 1956, Melbourne: URSS; 1960, Roma: Jugoslávia; 1964, Tóquio: Hungria; 1968, Cidade do México: Hungria; 1972, Munique: Polónia; 1976, Montreal: RDA; 1980, Moscovo: Checoslováquia; 1988, Seul: URSS; Cada qual no seu estilo, mas interpretando um ideal de jogo colectivista comum, típico da fria escola de leste que aterrorizou a Europa entre os anos 50/80, deixaram a sua marca nos relvados olímpicos. No arranque desse ciclo de futebol regido pelo “Pacto de Varsóvia”, emergiu, seguindo as tendências que tinham ficado da década de 50, o fascinante estilo centro-europeu que tinha como principal representante a fabulosa selecção da Hungria, onde todos os jogadores, em nome do patriótico ideal socialista, tinham patentes militares. No campo, porém, ficaram conhecidos como a Aranyacspat, a equipa de ouro magiar que, apesar de ter falhado a consagração num Mundial, maravilhou o mundo nos jogos de Helsínquia em 1952, realizados no meio de um período glorioso, entre Maio de 1950 e Junho de 1954, em que não perderam um único jogo. Estrelas principais desses Mágicos do Danúbio, um grupo de jogadores fabulosos, não só tecnicamente, como, sobretudo, tacticamente, cuja coroa de glória residia em terem derrubado, em campo, o mito do WM, utilizando uma estratégia de 4x2x4 inventada pelo seu sábio treinador Gustav Sebes. A equipa campeã em 1952:, que na final de 52 derrubou outra grande selecção de leste, a Jugoslávia, o onze cigano, colectivamente menos forte, mas dona, talvez, de mais brilhantes individualidades como Mitik, Bobek e Zebek. A invasão das tropas soviéticas em 1956 impediram o continuar daquele sonho de futebol húngaro. Muitas das suas maiores estrelas ficaram exiladas fora do país e a selecção de ouro desmembrou-se, mas, sempre com o mesmo estilo, foram passando outras gerações de classe, como a que, nos anos 60, reconquistou por duas vezes, 64 e 68, o título olímpico. Foi a era de astutos magiares, todos titulares das mais fortes equipas húngaras (Ferencvaros, Ujpest e Honved), como Palotai, Juhasz, Szucs, Dunai, que nos jogos decisivos venceram outras grandes selecções de leste, a Checoslováquia e a Búlgária, respectivamente.

Yashine e o futebol servido frio

A grande escola do genuíno futebol de leste morava, no entanto, nos glaciares laboratórios da URSS, fundadores do chamado futebol científico, que, em 1956, surgiu em Melbourne, na Austrália profunda, com uma aura misteriosa protagonizada por um jovem guarda-redes todo vestido de preto: Lev (em russo, leão) Yashine. O mundo ficaria a admirá-lo como a Aranha Negra, que, nessa final, aprisionou na sua teia a serpente eslava que brilhava na selecção da Jugoslávia, Sekularac. Após dois torneios consecutivos em que caiu apenas no último jogo, tendo de contentar-se com a medalha de prata, a Jugoslávia teria, finalmente, a sua consagração olímpica em 1960, no Jogos de Roma. Paradoxalmente, porém, terá sido a edição onde o seu trajecto até á final teve menor brilho, sobretudo no facto de a meia-final, frente á Itália (então com um atraente onze onde estavam Rivera e o duro médio defensivo Trapattoni), ter sido decidida por...moeda ao ar (!), após um empate, 1-1, no prolongamento. Era esse o obsoleto sistema de desempate nesse tempo. Não existiam penaltys, nem golos de ouro. Uma moeda a girar, dois capitães especados, e os insondáveis desígnios da sorte a ditarem o vencedor. Na final, frente á Dinamarca de Harald Nilsen, brilharia a classe de Galic, Matus e Kostic, autores dos golos que selaram um vitória por 3-1. O ouro era, finalmente, jugoslavo. Com a guerra fria no auge e o terrorismo a iniciar a sua escalada de violência, a década de 70 assistiu, futebolisticamente, ao emergir de outras nações de leste demolidoras no contexto olímpico, onde falso amadorismo, dito de estado, atingiu patamares revoltantes. O torneio Olímpico tornara-se num desnivelado confronto entre as mais fortes selecções de leste e as outras selecções do mundo ocidental que apresentavam equipas compostas por jovens promessas que, apesar do seu valor, nunca resistiam à enorme diferença competitiva expressa em campo. No Torneio de 60, perante os protestos dos países ocidentais, a FIFA e o COI, tentaram uma solução de compromisso para estabilizar a situação, criando a chamada dos “menos 22 dois”, isto é seria possível convocar todos os jogadores menos os que já tinham participado num Mundial. Esse regulamento só vigorou durante esses quatro anos. Em 1964, voltava-se ao mesmo status de profissionalismo de leste dissimulado.

A Polónia e o último fôlego soviético

É imperioso dizer, no entanto, que apesar desta injusta realidade, o valor das selecções de leste era inquestionável. Tratavam-se de grandes equipas que, no inicio dos anos 70, produziu uma selecção que também jogava futebol total: a Polónia. Interpretes de um inteligente e veloz jogo colectivo, surgiu em Munique, em 1972, como um fantástico onze composto por mitos como Lato, Deyna, Gadocha e Lubanski, entre outros, vencedores de um torneio que teve na disputa das meias-finais quatro equipas do Pacto de Varsóvia: a Polónia de Lato, a Hungria de Dunai, a RDA de Sparwasser e a URSS de Blokhine. Em 1976, apesar de contar com a mesma geração de talentos, reforçada por Szarmach, Kasperczak e o exótico guarda-redes Tomaszewski, a Polónia perderia, na final, frente á RDA de Croy, Kurbjuweit, Lauck, Lowe, a outra face, para lá do muro de Berlim, do futebol alemão. Pela primeira vez, no entanto, o Brasil conseguia ir longe num torneio olímpico, apresentado um talentoso onze mas inexperiente, onde estavam os ainda garotos Junior e Edinho, apenas seria derrotado na meia final pelo forte onze Polaco. Depois de Yashine em 1956, os Jogos de 1980, em Moscovo, perante o boicote dos EUA e de grande parte do mundo ocidental, revelaram outro grande guarda-redes da escola soviética, Dasaev, a bandeira de um onze que ansiava repetir em casa o triunfo de 22 anos atrás. Apesar de ter no ataque o terrível goleador Andreyv, para além de figuras como Chivadze, Khidiatulin, Baltacha e Chelebadze, o onze soviético seria derrotado na meia-final pela RDA de Steinbach. A final assistiria, porém, a uma nova consagração do belo futebol checoslovaco, sem penaltys de Panenka, mas com o mesmo estilo centro-europeu de outrora, gerido pelo elegante médio criativo Vizek, conquistador do ouro após bater na final a RDA de Svoboda. Em 1988, já com a Perestroika no ar, o último fôlego do futebol de leste nos jogos Olímpicos teria como palco Seul e uma sedutora selecção soviética inspirada no cirúrgico futebol científico do coronel Lobanovski, que aplicou no onze nacional as mesmas directivas utilizadas Dinamo Kiev, símbolo do futebol ucraniano então propriedade da URSS, que via nesse território hoje independente o melhor viveiro de criativos mecanizados. Um ideal expresso, por exemplo, nos movimentos de Mikhailichenko, Kutznesov e Yarovenko, entre outros. Uma novo ciclo estava, porém, a despontar...

3. O novo milénio e o despertar africano

Com a “Perestroika” e a queda do “muro de Berlim”, desintegrado o Pacto de Varsóvia, o futebol olímpico, entrou num novo ciclo. Visto com desconfiança pela FIFA, que nunca lhe permitiu resgatar as suas maiores estrelas, buscou novas soluções para garantir o seu nível competitivo. Um choque de interesses, desportivos e comerciais, que gerou, desde os anos 90, um novo conceito de futebol olímpico, destinado, sobretudo, ás selecções Sub-23, criando uma espécie de “Campeonato do Mundo de Esperanças”, no qual podem penetrar três excepções. Como o clarão de um relâmpago, explodiu, no presente, o chamado “futebol do futuro”: África.
Visitando a história em busca de triunfos latinos no contexto olímpico, a análise divide-se em duas épocas, totalmente diferentes, encurraladas em dois tempos sem qualquer ponto de contacto. Os anos 30, com a soturna vitória da Itália de Pozzo, no tempo de Mussolini, e, já nos anos 80/90, com a vitória da França, em 84, e da Espanha, em 92, cada qual com particularidades conjunturais muito próprias. Surgida ainda num tempo em que o futebol de leste respirava de plena saúde, o triunfo francês nos Jogos de 84, em Los Angeles, reveste-se, por esse facto, de maior significado, apesar de nenhum jogador dessa jovem selecção gaulesa ter, no futuro, se destacado ao mais alto nível. Alguns, como Xuereb, Touré, Lacombe, Ayache, ainda passaram por equipas de primeiro plano, mas nuca sem conseguir alcançar um lugar de membro na elite da chamada geração-Platini. Extinta a velha fórmula do falso amadorismo que proporcionou o domínio avassalador das nações de leste no futebol olímpico, procurou-se encontrar um sistema mais justo que equilibra-se o nível competitivo entre as várias selecções, através de um modelo de jogadores seleccionáveis que se aplica-se uniformemente, sem atingir os megalómanos interesses da FIFA que, desde sempre, sempre viu com desconfiança, o Torneio Olímpico. A solução de compromisso residiu. Assim, em restringir a participação nos jogos a jogadores sub-23, na prática as selecções de esperanças de cada país, que fariam a fase de qualificação, ficando depois aberta a possibilidade de, na fase final, serem convocados mais três jogadores sem limitações de idade. As grandes estrelas das superpotências continuavam, assim, fora dos relvados olímpicos, mas mesmo apesar dessas limitações, o nível e o equilíbrio competitivo subiu claramente. Para se entender esta nova realidade, basta citar que nas três ultimas edições passaram pelo jogos, craques como Ronaldo, Bebeto, Claudio Lopez, Crespo, Amokachi, Roberto Carlos e Okocha, entre outros. De resto, a maioria das chamadas jovens promessas já são, no entanto, titulares nas primeiras equipas, criando-se, assim, quase como um “campeonato do mundo de esperanças”.

A geração Guardiola e o «futebol do futuro»

O torneio de 1992, em Barcelona, marca, assim, um ponto de viragem no futebol olímpico. O apuramento das selecções europeias é feito através das quatro primeiras classificadas no Europeu Sub-21: Itália, Suécia, Dinamarca, Polónia e a anfitriã Espanha que, orientada por Vicente Meira, surgiu com uma renovada geração que olhara de lado a fúria e criaria um novo estilo para o fútbol espanhol, mais técnico e artístico, protagonizado por artistas como Guardiola, Kiko ou Luis Henrique, que derrotaram, na final, a Polónia de Jukoswiack, como um golo no último segundo, por 3-2. A conquista da medalha de Bronze, pela primeira vez na história, por parte de uma selecção africana, o Ghana de Ayew, deixava adivinhar, porém, que um novo ciclo se abria, confirmado nas seguintes edições, onde o chamado “futebol do futuro”, vindo das profundezas de África, revelou toda a sua magia e crescente maturidade técnico-táctica também já exibida nos Mundiais. A Nigéria e os Camarões, sensacionais medalhas de ouro em 1996 e 2000, são a face visível desta nova era, onde a chamada África negra truculenta, espelhada nos dribles desconcertantes das “águia verdes” Kanu, Ikpeba, Amunike ou Babangida, e nos “leões indomáveis” Eto´o, Geremi, Womé ou Mboma, assume-se como uma nova superpotência olímpica. Depois do pioneiro domínio inglês, dos magos uruguaios de fins dos anos 20, do extensa hegemonia de leste durante a guerra fria, surge agora, com licença das forças latinas, o ciclo do futebol africano, apesar das ferozes tentativas dos gigantes sul-americanos, Brasil e Argentina, em conquistar um titulo que, há quase 80 anos, desde 1928, não era conquistado pelo continente do tango e do samba. Este é, aliás, o único titulo que falta ao Brasil. Em toda a história, os canarinhos foram por duas vezes á final do torneio olímpico. Em 1984, com a selecção de Gilmar, Silvinho, Mauro Galvão e Dunga, (perdendo com a França, 0-2), e em 1988, com um onze onde estavam Romário, Aloisio, Geovani, Bebeto e Taffarel (perdendo com a URSS, 1-2). Em 1996, surgiu como Ronaldo, Roberto Carlos, Aldair, Juninho, Flávio Conceição e novamente Bebeto, mas não conseguiu melhor que o terceiro lugar, depois de uma águia verde desconcertante os ter afastado da final em movimentos exótico de perna-longa. Nos gestos de Kanu, a girada da Nigéria, a personificação dos novos tempos do futebol africano no grande elite dos campeões olímpicos, que, por fim, reencontrou-se, em 2004, com os magos sul americanos através de uma fortíssima selecção argentina com Ayala, Kily Gonzalez, Tévez, Saviola, entre outros, conquistadores do ouro na relva de Atenas. Cem anos depois da transferência de Alf Common, se fosse possível aos escandalizados escribas de um século atrás entrar numa máquina do tempo e desembarcarem no tempo presente, o simples citar dos montantes envolvidos, por exemplo, na transferência de Drogba do Marselha para o Chelsea, 35 milhões de Euros, iria faze-los desmaiar num ápice. A profecia desses velhos jornalistas de há cem anos estava, porém, certa. A transferência de Common fora apenas o começo de uma escalada de investimentos faraónicos que, cada um no seu tempo, foram marcando ao longos dos tempos o mundo do futebol. Um século depois, no território da televisão, o desporto confunde-se com o espectáculo e o futebol com o negócio. A limitação da idade dos jogadores parece, á primeira vista, tirar dimensão competitiva á competição olímpica, mas, no fundo, acaba por ser uma sublime montra para os chamados caçadores de talentos descobrirem, num ambiente menos tenso do que num Mundial ou num Europeu, qual a verdadeira consistência de muitas sedutoras promessas que durante a época despertaram a esperança num futuro melhor, menos táctico e mais atraente. É, no fundo, o direito a sonhar, que faz a essência dos Jogos Olímpicos...

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