O futebol tem “duas balizas”

21 de Setembro de 2011 16:20
Questão matemática: Ser um “nº6” construtor é muito diferente de um “nº8” com bola

 

O título parece uma evidência, mas no jogo, ter essa consciência não é assim tão simples. Consoante os jogadores, posição em campo, uma tem mais importância do que a outra. Sou, confesso, saudosista das numerações à moda antiga. Numeração futebolisticamente a sério era com os jogadores de 1 a 11, cada número quase um estatuto, para além de dizer as posições em campo. Foi a pensar nessa velha lógica que Vítor Pereira referiu que era assente o seu FC Porto continuar com três médios, mas queremos que o nº6 seja cada vez mais um nº8. Ao dizer isso, pensava sobretudo no perfil mais construtivo que pretendia para esse jogador, um pivot-primeiro organizador de jogo em vez do velho trinco destrutivo do passado. Foi também por isso que escrevi ser a posição de pivot-defensivo aquela que o FC Porto necessitava mais de reforçar esta época. Tenho dificuldade em ver Fernando fazer essa evolução. Souza não se assumiu nas oportunidades que teve. Voltei a pensar nisso, estendendo a ideia ao que deve ser uma equipa e seu equilíbrio posicional, vendo Moutinho a jogar nessa posição contra o Feirense.
 
Embora até pense que ele pode fazer muito bem essa posição (mas num jogar diferente) não é, por definição, um 6. Poucos jogadores têm a cultura táctica tão evoluída que lhe permita recuar de 8 para 6 sem a sua rotação de jogo queixar-se. Raul Meireles é um caso raro. É mais fácil o contrário. Passar de 6 para 8. Porque o risco defensivo se falhar posicionalmente, é menor. Moutinho (como Guarín) sente-se mais contente a 8, porque sente liberdade para subir, atacar e rematar. Se continuar, por princípio, a querer fazer isso a partir da casa 6 desequilibra posicionalmente a equipa. Sai do seu lugar e confunde a prioridade das balizas. Ou seja, ser um 6 construtor é muito diferente de passar a ser um 8. Moutinho faz, de facto, essa confusão. Uma indefinição que, na posição tacticamente mais importante do futebol moderno, confunde a referência fundamental (ou inicial) do seu jogo/posição e afecta a equipa no seu ponto mais sensível: equilíbrio defensivo.   
O 6 nunca poderá querer ser um 8. O que ele deve querer retirar é hífen defensivo da sua designação de pivot. Para isso basta ser um 6 diferente. Não precisa ser 8. Para o 8 a baliza mais importante é a…do adversário. Para o 6, existe, apenas (e é muito) o iniciar da forma de lá chegar. Recebe a bola e inicia a construção (passe curto, vertical, longo, depende do modelo). Outro princípio de construção típico do 6 é, na saída de bola, baixar para o meio dos centrais que alargam, os laterais sobem, e ele sai a jogar em posse. Para fazer isto é preciso cultura da posição.
 
Ou seja, o jogador tem cada vez de fazer mais coisas (missões) no jogo, mas não pode ser, por princípio, essas duas coisas (posições). Ter um nº6 que pensa como um 8 é o maior risco táctico que uma equipa com um só pivot pode correr.
 

 

 

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