O FUTURO DO FOOTBALL FRANCÊS

21 de Abril de 2001
Entre a geração Platini, nos anos 80, e a de Zidane, campeã do mundo e da Europa, em 98 e 2000, a selecção francesa, fiel ao seu técnico berço latino, consagrou, de forma sublime, o seu Football panache, bem emoldurado tacticamente, mas sempre regado a champanhe e com sedutor perfume negro, reflexo da vocação expansionista e imigrante da chamada França profunda. Apesar de todo esta glória e glamour, ninguém lhe exige que continue a ganhar tudo, mas nos ombros das gerações futuras repousa a responsabilidade de a manter mais ao alto nível. Depois dos homens da revolução, estes são os homens da renovação.
Tem ambos o mesmo semblante distante, românticamente tristes, com enigmáticos sorrisos de Gioconda: Platini e Zidane, dois tempos, o mesmo estilo blazé e sedutor que, nas últimas três décadas, fizeram a glória do football gaulês. Agora, é tempo, de construir o futuro. No Verão de 2002, quando a elite do ballon round mundial se reunir no Oriente, Zidane terá 30 anos. A idade ideal para uma derradeira aparição ao mais alto nível. Em seu redor, porém, novos talentos terão de eclodir, para continuar a cruzada futebolística gaulesa. Depois do adeus de Blanc e Deschamps, Les Blues buscam os seus herdeiros. No centro do progresso do futebol francês está o seu mundialmente idolatrado processo de formação, que constituiu imperativo de todos os clubes franceses de futebol profissional, obrigados a possuir um centro de formação nas suas fileiras e a constituir quantas equipas jovens, quanto o número de petit garçons inscritos para jogar. A captação é depois muitas vezes feita assistindo a essas centenas de jogos. No Auxerre do patriarca Guy Roux, por exemplo, existem cerda de 3000 miúdos que todas as semanas calçam as chuteiras. No total são 27 equipas. 25 jogos por semana. Multiplicado por 40 semanas, faz cerca de 1000 jogos por ano. É neste cenário, um autêntico laboratório genético de talentos, que o futebol francês congemina o futuro. Desta forma, na senda da geração-Zidane, está já uma nova casta de jovens promessas, entre os 20 e os 25 anos, -Lucin, Henry, Anelka, Pires, Mexés, etc- que garantem manter a França no Olimpo do futebol mundial e que, ao contrário do perfil triste dos seus antecessores, abrem um largo sorriso quando a bola lhes vem parar aos pés. Eles são a nova geração do

MEXÉS E ZEBINA: OS SUCESSORES DE BLANC

Sem a batuta de Laurent Blanc e com os restantes galos do seu sólido bloco defensivo, Thuram-Desailly-Lizarazu a entrar na casa dos 30, o futebol francês projecta as suas novas grandes referências defensivas em dois elegantes enfants, profetas do moderno fottball panache: Jonhatan Zebina e Philippe Mexés. Zebina, 22 anos, formado no AS Cannes é já actual titular da Roma, que esta época o contratou ao Cagliari, onde ingressara em 1999. É um central possante, 1,84 m., que, embora algo lento, parece sempre adivinhar onde a bola vai cair. Forte tecnicamente, estreou-se na principal selecção gaulesa no particular com a Espanha no mês passado. Mexés, é um petit garçon de 19 anos, produto do centro de formação do Auxerre, onde entrou com 15 anos, depois de descoberto por Guy Roux nas escolas do Toulose. A elegância com que conduz a bola lembra o perfil dos grandes líberos do futebol mundial. A sua soupless, no corte e no tackle, a finesse técnica no trato da bola e a forma personalizada como a conduz, de cabeça levantada, na saída da área, fazem dele, no futuro, o sucessor natural de Blanc, seu modelo. Elogiado por Capello e Alex Fergusson, toda a Europa fala dele, mas apesar das propostas dos gigantes de Espanha, Itália e Inglaterra que recebeu, o velho Guy Roux continua a abanar a cabeça: Philippe tem contrato até 2005 e só deve sair de Abbé Deschamps quando for titular indiscutível da selecção francesa principal, depois de já ter sido o patrão de todas as selecções jovens Sub-20, sagrando-se campeão da Europa Sub-18, em 1999, onde foi capitão de equipa.

CENTROS DE FORMAÇÃO: Aprendiz, aspirante, estagiário.

Com o fim de preparar a entrada das suas jovens promessas no futebol profissional, a Federação Francesa impõe que as primeiras equipas só possam inscrever 23 jogadores com contrato profissional no seu plantel. A partir desse número, se quiserem aumentar o elenco, só podem inscrever jogadores que, saídos dos centros de formação, realizem nesse ano o seu primeiro contrato profissional. Desta forma, para melhorar o elenco, os clubes são obrigados a investir na formação. Em 99/2000, 27,6% dos jogadores da Primeira Divisão jogaram no clube que os formou. No topo dos que melhor aproveitam os seus viveiros estão Nantes, Nancy e Auxerre. Segundo os regulamentos franceses a formação de um jogador de futebol passa por quatro fases contratualmente previstas: Aprendiz, Aspirante, Estagiário e, por fim, Profissional. Nesta última etapa impõe-se que o primeiro contrato profissional do jogador terá obrigatoriamente de ser com o seu clube de formação, se este assim o pretender, podendo-o manter durante três anos, altura em que o jogador será livre de assinar por outro clube. Se para contornar o sistema, utilizar o estrategema de assinar como amador por outro clube, terá de esperar sete anos até poder voltar a assinar como profissional. É um sistema que existe desde 1972. Mas hoje, com a União Europeu, os seus centros de formação, incontornaveis reservas do futebol profissional estão directamente ameaçados pelo recrutamento quase selvagem feito pelos gigantes de toda a Europa que visam os talentos mais jovens. Em meados dos anos 90, no entanto, a detonação da Lei-Bosman veio a ameaçar o real futuro de todo este processo de formação. O primeiro grande caso surgiu em 1997, com Anelka, que após cumprir a formação, só poderia assinar, como profissional, pelo PSG, o seu clube desde os 13 anos. O problema surgiu em face do contexto da União Europeia. Com a livre circulação de trabalhadores, este regime é ilegal e nunca poderá ser aplicado no plano externo, nas relações entre os Estados membros. Num ápice, os clubes franceses viram ameaçados os seus históricos centros de formação, e Anelka assinou, como profissional, pelo Arsenal, por seis anos, com o apoio de Arséne Wenger que considerou demagógica a posição critica da Federação e Liga Gaulesa, que nunca considerou imoral quando os clubes franceses vão buscar jovens africanos ou sul americanos para as suas escolas. Durante muitos anos, grande parte do futebol europeu, aprisionou para si o potencial de África e ninguém viu qualquer anomalia nessa colonização futebolística. Todos consideravam positivo que um jovem africano ingressasse nas escolas do clubes europeus. Agora, assiste-se ao reverso da medalha. Um clube rico e formador como a França perde jovens jogadores promissores para outros mais ricos, Inglaterra e Itália, tudo na óptica da economicista União Europeia.

TALENTOS FRANCESES NA EUROPA

A vulnerabilidade financeira e legal do jovem futebol francês continua hoje visível na forma como esses petits garçons, muitos deles desconhecidos do grande público, continuam a sair, em fim de contrato, aliciados pelos colossos europeus. Foram os casos, em 2000, de Yahia, Biakolo e Brelier, nas reservas Inter, aos quais se devem em breve juntar Mathieu Moreau, 18 anos, um dos guarda redes suplentes do Nantes, e Jerémy Guy, 20 anos, Meghni e Fabbre no Bolonha, e Coque, no Lecce, que junto com o Parma, cobiçam os avançados François Zoko, do Cannes, que acaba o contrato de aspirante, e Steve Théophile, 20 anos, do Nantes, em fim de contrato de estagiário e por isso vulnerável. Outros talentos franceses escondidos nos quadros de clubes europeus, são Alou Diarra, no Bayern Munique, Vignal Grégory, no Liverpool, Nicolas Fabiano, no Swansea e Rodrigue Boisfer, no Génova, todos internacionais Sub-20. Na Juventus, está Vicent Pricard, internacional Sub-18. Outro nome muito falado é o de Wilfried Dalmat, 18 anos, jogador do Nantes, irmão de Sthépane Dalmat que joga no Inter, que tem a intenção de os reunir em Milão. O novo acordo entre a comissão europeia e a FIFA/UEFA maquilhou um pouco o estado selvagem em que caíra o mundo das transferências. No capitulo dos jovens jogadores, os clubes formadores tem agora sempre direito a uma indemnização na contratação de jogadores Sub-23, mas esta compensação, insignificante para os grande clubes, não afasta a ameaça permanente sobre os seus viveiros de talentos.

AS RAÍZES DO FOOTBALL GAULÊS

Todos nós procuramos as nossas raízes. Elas nos moldaram, no passado e para o futuro. A nossa personalidade, as nossas lembranças. O nosso futebol também. As raízes do sucesso de final de século do futebol francês que reuniu genes futebolísticos de vários continentes, originários de antigas colónias ou territórios franceses, mora numa cruzada secular que foi até territórios da Oceânia (Nova Caledónia, Taiti...), ás ilhas americanas banhadas pelos mares das Caraíbas, (Guadalupe, Martinica...), continuando depois para o Norte de África. Até meados dos século XX, a maioria dessas paragens permaneceram colónias ou territórios gauleses. Muitos desses nacionais rumaram a França e formaram a chamada França profunda, que acolheu essa imensa onda imigrante. Novas gerações formaram-se á luz de outra cultura e bandeira. De Marios Trésor, natural da Ilha de Guadalupe, capitão dos anos 70, até Zidane, profeta do Magreb, nos anos 90. O futuro do futebol francês continua a assentar nos mesmos princípios. Com a mesma origem, além do hexágono, estão muitos outros nomes, para além dos campeões do mundo, que seleccionáveis e já em plena maturidade futebolística, mantêm a mesma filosofia exibicional. São os casos, por exemplo, de Djetou, Monaco, 26 anos, Pires, 28 anos, filho de emigrantes portugueses, Wiltord, 27 anos, originário da Guiné Conaquri, Arsenal, e Dhorasso, Lyon, 27 anos. Ente os novos talentos, estão, ente muitos outros, Gallas, Dalmat, Luccin, Trezeguet, de origem argentina, onde começou a jogar, no Platense, regressou a França com 16 anos, altura em que ingressou no Mónaco, ao lado de Thierry Henry.

O FUTURO DO FUTEBOL FRANCÊS

Apostando num trabalho em continuidade, o triângulo técnico das selecções francesas é chefiado, desde fins de 1998, por Roger Lemerre, seleccionador nacional, antigo adjunto de Aimê Jacquet, que por sua vez já fora adjunto de Houlier. Nos vértices inferiores do triângulo, estão Guy Stephan, um experiente treinador francês que já orientou o Bordeaux, responsável pela selecção A, equivalente á B portuguesa, -para Lemerre é obrigatória esta passagem antes de chegar ao onze principal- e Raymond Domenech, treinador da selecção de esperanças Sub-23, desde 1993. É neste circuito que gravita o núcleo principal de jogadores que, hoje na casa dos 20-25 anos, asseguram o futuro do futebol francês: DEFESAS Jonathan Zébina (AS Roma, 23 anos) Willy Sagnol (Bayern Munique, 24 anos) William Gallas (Marselha, 23 anos) Philippe Christanval (Monaco, 22 anos) Philippe Mexés (Auxerre, 19 anos) Michael Silvestre (Manchester United, 24 anos) Zoumana Camara (Marselha, 21 anos) Kodjo Afanou (Bordeaux, 23 anos) Nicolas Gillet (Nantes, 24 anos) David Sommeil (Rennes)x Djibril Diawara (Torino)x MÉDIOS Jerome Rothen (Caen, 21 anos)x Anthony Deroin (Caen, 20 anos)x Patrick Vieira (Arsenal, 24 anos) Stefan Dalmat (Inter de Milão, 22 anos) Peter Luccin (PSG, 21 anos) Ousmane Dabo (Vicenza, 24 anos) Julian Sablé (Saint-Etienne, 20 anos) Mathieu Berson (Nantes, 21 anos) Steed Maldranque (Lyon, 21 anos) Olivier Sorlin (Montpellier, 22 anos) AVANÇADOS David Trezeguet (Mónaco, 23 anos) Nicolas Anelka (PSG, 21 anos) Laurent Robert (PSG, 25 anos) Thierry Henry (Arsenal, 23 anos) Eric Hassli (Metz, 19 anos) Pegguy Luyindula (Strasbourg, 21 anos) Soufiane Kone (Nancy, 19 anos) Sidney Govou (Lyon, 21 anos) Nicolas Dieuze (Toulose, 21 anos) Cyril Chapuis (Stade Rennais, 21 anos) Nicolas Bonnal (Monaco, 24 anos) Olivier Kapo Obou (Auxerre, 21 anos) Cissé Djibril (Auxerre, 20 anos) Fréderic Kanoute (West Ham, 23 anos) GUARDA-REDES Sebastian Frey (Inter de Milão, 20 anos) Mickael Landreau (Nantes, 21 anos) O caso dos guarda redes merece, porém, uma nota especial. Teoricamente com uma carreira mais longa, resistem ao mais alto nível durante muito mais tempo, pelo que como sucessores de Barthez, 30 anos, podem-se citar Lionel Letizi, 27 anos, PSG, Ulrich Ramé, 28 anos, Bordeaux, Grégory Cupet, 27 anos, Lyon e Stéphane Porato, 27 anos, Mónaco.

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