O grito que assusta os “pássaros”

April 8, 2011 4:30 PM
Um central deve sempre ser analisado na lógica de “dupla”. Regra: um é sempre “pai” do outro

 

Um jogador pode ganhar importância dentro de uma equipa (patrão autoritário ou operário essencial) por razões diferentes. Existem razões tácticas e de carácter. Quase sempre, porém, elas acabam por se relacionar, mesmo que seja em pequenos espaços de terreno. Tenho elogiado Moutinho como um elo táctico motorizado fundamental para unir os sectores da equipa em todos os momentos do jogo Não é um mero operário, mas também não é um líder no sentido autoritário do termo. O que se ouve em campo são os sons dos seus passes quando a chuteira bate na bola. E como o que decide mesmo os jogos é a relação jogador-bola, pode parecer estranho que outro tipo de presença também possa ser tão importante de igual forma. Mas é.
O Benfica começou a época com muitos jogadores novos, mas a grande preocupação de Jesus extravasava a táctica pura. Para estabilizar uma defesa que nunca tinha jogado entre si (relação entre centrais-laterais) não se ansiava por um jogador tacticamente inteligente. Ansiava-se antes por um jogador espiritualmente superior. Em suma: A aura de Luisão. Com ele em campo, o resto da equipa ficava logo mais descansada. 
 
Claro que Luisão não é só o seu grito. Também mete medo aos adversários e assusta os pássaros quando sobe no jogo aéreo (bolas paradas defensivas ou ofensivas), sabe pôr melhor a bola longe da sua área do que sair desta com ela serenamente na sua posse, mas onde a sua importância se nota é na forma emocional como hoje, no actual Benfica, faz crescer os outros jogadores perto de si.
É um exemplo perfeito da razão pela qual raramente gosto de analisar um central isoladamente. Isto é, sem saber qual o outro que vai jogar a seu lado. Porque eles funcionam sempre em dupla e é nesse sentido que, na óptica de funcionamento da equipa, eles devem ser analisados (e avaliados). É como se um fosse sempre o pai do outro. Como se um (imperial) fizesse crescer o outro (mais light). Repare-se como se elogiava Jardel quando começou a jogar no Benfica, pela segurança e confiança que ia as bolas. Tinha Luisão a seu lado. Repare-se como se passou a criticar Jardel, no início desta época, e ele a tremer e cometer erros até então nunca vistos. Deixara de ter Luisão a seu lado (chegou a fazer jogos com Roderick, resgatado aos Sub-20).
 
Sensível à importância desse grito na estabilidade táctico-emocional da equipa (ignorando uma entrevista surrealista no aeroporto), o treinador voltou a poder colar as peças do quarteto defensivo. Mesmo Garay, central sábio, respirou doutra forma e entendeu mais facilmente a complementaridade da dupla do que se a tivesse de fazer com um outro central sem essa autoridade natural.
Há momentos em que, para o treinador ou adeptos, parece que não existem bons ou maus jogadores. Apenas um onze e, dentro dele, a necessidade de um jogador que lhes guie e proteja espiritualmente. Um grito que ponha a táctica em sentido. 
 

 

 

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