O “império dos sentidos”

8 de Abril de 2010 09:32
O impacto com o “ritmo internacional”, que razões para um treinador mudar a equipa e o horizonte do “derby”. Direitos e deveres.

 

O futebol tem muitos caminhos secretos dentro do relvado, mas, numa análise óbvia, a bola teria sempre mais tendência a entrar na baliza da qual estivesse mais perto. Não é assim tão simples. E, pensar no golo antes do jogo raramente é boa ideia. Muito do que é um jogo de futebol depende da velocidade a que ele se joga. É a chamada “rotação” de jogo. Quando se entra na dimensão europeia, entra-se no chamado “ritmo internacional” (90 minutos de permanente “alta-rotatividade” defesa-ataque/ataque-defesa). Em Liverpool, Jesus pressentiu que ia entrar num mundo para o qual as “frequências cardíacas” físico-tácticas da equipa não estavam preparadas para suportar. O terceiro golo do Liverpool, construído em 4 passes, começou num canto a…favor do Benfica. A bola, mesmo quando estava mais perto de outras redes, “sabia”, pelas indicações do jogo, para qual baliza devia naturalmente caminhar.
 
É pacífico dizer que todos os treinadores querem ganhar. Cada um tenta-o à sua maneira. O mistério, desde a bancada, é simples: o que leva um treinador a mexer na equipa? A mudar quando ela está a jogar tão bem. Em geral, a resposta é o receio do adversário. É, por princípio, uma reacção natural. O problema é quando essas alterações retiram a tua auto-determinação no jogo. Ou seja, quando a equipa fica refém da sua própria estratégia. Sucedeu um pouco isso em Liverpool. Jesus mudou a defesa exactamente porque queria que os seus jogadores desse sector fossem sobretudo isso: “defesas”. A mudança teve epicentro nas faixas. Saíram Maxi Pereira e Coentrão, entraram Ruben Amorim e David Luiz (foi Sidney para central). O desvio de David Luiz foi o mais debatido, mas frente a Kuyt, Jesus não queria um lateral-esquerdo, queria mesmo um… defesa-esquerdo. Como o Benfica é uma equipa que sai a jogar desde trás essencialmente pelos flancos, com os laterais, a ausência desses elementos travou desde logo esse princípio de transição. Sem os laterais que lhes levam as bolas, os alas perderam as suas referências-base de apoio, sobretudo Di Maria, que desapareceu do jogo.  
 
É verdade que a equipa chega a esta fase da época em esforço físico que, mais do que testar o seu estado, testa a sua capacidade de recuperação em períodos curtos. Nesse sentido, Jesus testou os limites da equipa e os…limites venceram. Táctica e humanamente natural. Porque ver Javi, Luisão, Di Maria, Cardozo ou Aimar não acompanhar as subidas do ritmo de jogo tem sobretudo consequências tácticas.
O “derby” devolve a equipa aos seus pressupostos naturais. Nenhuma destas questões vai-se recolocar a Jesus, pelo que o transfer das causas e consequências jogo de Liverpool para Lisboa não existe.
Na “casa do Leão”, é o último apelo à motivação. Um balneário com um treinador de saída nunca será, por princípio, um balneário fortalecido. E, em campo, a equipa é, directamente consequência disso. A história, no entanto, grita-lhe ao ouvido. É a marca do “derby”. Para lá das dúvidas tácticas (4x4x2 ou 4x2x3x1, um ou dois pontas-de-lança?) buscar raízes da motivação. Neste crepúsculo leonino, um renascimento: Yannick Djaló. Num momento de crise existencial, ter um jogador que sente estar a “nascer de novo” (o seu jogo e golos prova-o) é o ideal para combater o “lado cinzento” da mente colectiva. 
 
Uma equipa é um conjunto de direitos e deveres. Mudam os jogos, permanecem as obrigações, mudam as liberdades. Num mundo futebolisticamente saudável, as melhores equipas seriam as que conseguissem dar um máximo de liberdade aos seus jogadores sem perder a ordem colectiva. O grande desafio é conseguir fazê-lo no chamado “ritmo internacional”. Depois desta viagem “inter-galáctica”, regressemos ao nosso “pequeno mundo”…
 

 

 

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