O importante é a bola

4 de Janeiro de 2010
A posse apoiada do Arsenal: desmistificação da superioridade táctico-moral das transições rápidas.

 

Vendo bem, num jogo de futebol só existe um segredo: ter ou não ter a bola. Neste mundo tão óbvio, há equipas que explicam melhor porque optaram por ter a bola. O Arsenal de Wenger é, na vertigem do futebol inglês, onde, por cultura, se perde e ganha a bola sem drama, o exemplo perfeito desta filosofia da posse onde é a bola que ordena o onze em campo. A equipa dá muitos toques porque ao fazê-lo os jogadores ficam mais próximos uns dos outros. Nesta forma de jogar, desmistificam a superioridade táctico-moral das tão idolatradas transições rápidas. O bom futebol não é uma questão de rapidez. É uma questão de saber dar importância à bola como referência no nosso jogar.
Ganhar ou perder já é outra questão. Por isso, o Arsenal não é campeão há vários anos. Vemos jogar o Chelsea ou o Manchester e percebemos porquê. Ancelotti monta o losango em Stanford Bridge. O 4x4x2 do Chelsea inventa um segundo avançado a cada jogo. Anelka move-se e arranca como um monstro em pés de bailarino. Sem ele, Drogba tem Kalou a seu lado. Joe Cole surge (como também já fez Malouda) no vértice ofensivo do diamante de quatro médios. Lampard e Ballack falsos-alas que partem como interiores, Mikel atrás e, depois, é quando entra o canhoto Sturridge, quase extremo, que a equipa ganha maior largura a atacar. Com Deco, no papel central do último passe, é diferente. A posse de bola não é circular como a do Arsenal. Lampard ou Ballack recebem-na e procuram logo verticalizar o jogo. Nunca cansam o adversário fazendo-o correr atrás da bola. A ideia que fica então é que na sua tentativa de construção o Chelsea cansa-se tanto como o adversário mais rudimentar a defender.
Entretanto, o Arsenal segue tocando a bola. Wenger perdeu Adebayor (saiu) e Van Persie (lesão) e sentiu o 4x4x2 ameaçado. Hoje, o onze parece um 4x3x3. Song e Denilson mais atrás, mas nenhum fica muito tempo parado como um bom pivot deve ficar. Quando Song o aprender a fazer a equipa irá melhorar muito as transições (todas feitas apoiadas entre-linhas). No ataque, Nasri tornou-se, na maioria do tempo, quase um ala, mas é curioso como, muitas vezes, Eduardo (o 9 mais puro do onze) joga sobre a ala esquerda e é Arshavin que se torna um vagabundo sobre o centro. Descubra o 9 é então o jogo para que desafio o adversário. No império do passe, Cesc é o rei que personifica o último elo para o golo, mas na dimensão física terrível do jogo inglês, é Diaby quem pega em toda a equipa e arrasta-a até à área adversária. Um transportador com dotes de organizador. É então que se percebe que quando não temos a bola, o importante é…recuperar a bola. E nessa altura, claro, volta a surgir Diaby.   
 
 
Manchester «digest» 
 
Um jogador acima de todos os debates: Rooney. Ele foi, no universo da táctica, o moicano emocional que quando cometeu o pecado de fazer um passe atrasado que deu o golo do empate ao adversário (contra o Hull) logo olhou para o banco, fixou Ferguson e, acto imediato, agarra o jogo pelos colarinhos para o virar outra vez. Duas grandes arrancadas, um passe fantástico, Berbatov encosta: 3-1! O Manchester vai alternando a estrutura. Entre o 4x4x2 clássico (com Berbatov-Rooney) e o 4x2x3x1, puxando um avançado para as costas de um 9 puro e escondendo Rooney na faixa. É quando ainda emerge Giggs. Na ala ou mais por dentro, a fineza de todos os seus movimentos e toques dão requinte ao estilo mais lutador.
Do lado azul da cidade, o Manchester City de Mancini ainda não difere muito do de Hughes. Dois jogos num 4x3x2x1 (quase 4x1x4x1) com três médios mais pressionantes (Barry-De Jong-Ireland), alas abertos (Petrov-Robinho ou Bellamy) e um avançado-centro (Tevez). Era a linha táctica, digamos, mais dura de Hughes. O que impressiona mais na equipa é a velocidade dos alas em contra-ataque (que nasce de uma transição rápida). Fica um 4x2x3x1 quando Ireland cai na direita e Petrov vai para dentro, mas a maior dúvida é saber se, com Adebayor, desenha o 4x4x2 e tira um médio. O mais certo é, então, esconder Tévez como falso-ala. Veremos.  

 

 

 

Michel Salgado a extremo
 
Nunca é tarde para mudar, mas há alterações que confundem. Mesmo em Inglaterra, onde o espírito mustang do jogo nunca deu referências muito fixas em campo. A maior alucinação deu-se nos últimos jogos do Blackburn Rovers de Allardyce com Michel Salgado (34 anos, uma vida como lateral-direito aguerrido em Espanha, no Celta e Real Madrid) a jogar agora quase como extremo-direito. No papel, ele é o médio-ala desse lado num 4x4x2 clássico, mas, depois, na dinâmica de jogo, tem missão de dar profundidade à faixa. Mas o seu estilo continua falar mais alto e, então, é curioso vê-lo a fazer a meio-campo os mesmos carrinhos que fazia como lateral para travar o extremo ou fazer faltas sobre o lateral adversário como fosse o último homem que ia a fugir.
Para Michel, todos esses gestos sempre fizeram parte do seu jogo. Por isso, podem-no por a extremo ou a médio-ala que ele nunca pensará como um deles. O mais certo quando surgir na área adversária é, em vez de ver a baliza, fazer um carrinho para desarmar o central adversário.  

 

 

 

 

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