O jogador e seus “sócios tácticos”

7 de Setembro de 2011 15:30
Transições, passes, contra-ataques e a importância do “avião a jacto” no sistema táctico

 

Debater a recuperação de um jogador de um jogo para outro quando medeiam curtas horas entre os dois, coloca em geral em causa questões físicas sensíveis a nível de metodologia de treino. Hulk saltou de um jogo para o outro, de Londres à Marinha Grande, em 24 horas. Ou seja, quando os princípios de jogo estão perfeitamente adquiridos, dentro de um 4x3x3 que joga de memória, um avião a jacto pode ser mais importante na dinâmica do sistema táctico e recuperação de um dos seus principais intérpretes do que qualquer treino, banhos ou massagens.
Vítor Pereira vai montando o seu FC Porto sem urgência de lhe colocar uma impressão digital própria. Mas, descubram as diferenças. A equipa continua a querer ser de posse, mas procura agora mais transições rápidas que rapidamente se transformam em…contra-ataques. Para isso pede aos médios interiores para conduzirem mais a bola mediante desmarcações simultâneas ou mobilidade dos avançados dando profundidade. A forma como James esticou a equipa quando Moutinho saiu com a bola no corredor central, revela os princípios de contra-ataque nascidos da transição rápida. O segredo: valorar a protecção da bola (diferente da simples posse) em transição. Mal perde a bola, transição defensiva, tenta fazer duas linhas de quatro mais rapidamente.
 
A importância de Kleber mede-se na directa proporção em que o resto da equipa (sobretudo alas e laterais) jogam para ele ou lhe metem a bola em espaços de finalização. Ou seja, o FC Porto não contratou um ponta-de-lança para substituir o Falcao perdido, mas ao manter Pereira, Moutinho e fazer renascer James, reforçou as capacidades do nº9 que já morava no centro do seu ataque. É outra forma de forma de reforçar a equipa. Percebendo que, quase sempre, o rendimento de um jogador, sobretudo um finalizador, depende muito do que os outros jogam (neste caso directamente para ele). E, de repente, os golos de Kleber reapareceram. O bom futebol necessita de sócios tácticos.
Recuperar uma bola, roubando-a dos pés do pivot (ou trinco) adversário é, quase sempre, meio-golo no sentido de apanhar a equipa adversária totalmente desposicionada, em início de transição ofensiva. Fica sem a bola e sem tempo de mudar o chip mental para a transição defensiva. É o ponto mais importante da pressão alta explicada na forma como Belluschi caiu em cima de Curto, o nº6 táctico do Leiria, e, depois, com um passe burocrático, devolveu Kleber à vida goleadora.
 
Quando Hulk sentiu o jet-lag futebolístico, percebeu-se, na sua dimensão máxima, a outra face, mais futebolística, do avião a jacto em cada movimento de James dirigido à baliza. A objectividade que ele põe em cada jogada resulta da sua natureza. A forma como decide resulta da sua interligação com os jogadores (os outros avançados) que o rodeiam. São os jogadores como portadores do modelo de jogo.  
 

 

 

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