Uma equipa a jogar bem é, essencialmente, o respeito por quatro ou cinco boas ideias de jogo estendidas pelos seus diferentes três sectores: defesa. Meio-campo e ataque.
A questão física ou a motivação são conceitos, por si só, vazios. No jogo, tudo isso tem um transfer táctico. Ou seja, não estar em condições (atléticas) para dar a melhor dinâmica aos princípios de jogo ensaiados, não estar com os índices de concentração (mentais) para, a cada jogada, tomar a melhor opção. Tudo isto é táctico. Quando um treinador sente a equipa física e mentalmente fragilizada, tem de a adequar tacticamente a essas circunstâncias. Quase como lhe encontrar um refúgio (mexer na distribuição dos jogadores, explorar mais o jogo posicional) para que, aos poucos, ela volte a respirar.
Uma tese muito desenvolvida, e divulgada, esta época é que a forma de jogar do Benfica (pela velocidade) cansa muito mais do que a forma de jogar do FC Porto (por ser mais lenta). É uma falsa questão, nem o jogo pode ter essa leitura tão simplista. Desde logo porque a táctica não é mais rápida ou mais lenta. A táctica é mais ou menos inteligente.
Por exemplo, a maior posse e circulação de bola pode, desde logo, obrigar a um desgaste mental (concentração táctica) muito maior, pela necessidade de execução técnica e tomada de opções com bola permanente, do que a mera velocidade que implica esse maior impacto físico imediato (piques, correr mais), mas extingue mais depressa a jogada e a sua concentração nela. Sem entrar no debate em torno de métodos de treino, a grande base passa pela capacidade de saber manejar os diferentes ritmos de jogo. Isto é, rotação de ritmos antes da rotatividade de jogadores.
São todos estes factores que, cruzados, desgastam mais ou menos uma equipa. A única coisa que a pode salvar ou afundar é a…táctica! A casa posicional que abriga a equipa e, delimitado cada espaço, cada jogador, durante 90 minutos. A questão agrava-se quando o problema se estende por várias competições ao mesmo tempo (Campeonato, Liga Europa, Taças de Portugal e da Liga). A dificuldade está em muitos vezes, as equipas não perceberem os melhores locais e ritmos tácticos para activar os seus princípios de jogo.
A coerência de jogo não é um conceito absoluto. Ou seja, numa adaptação clássica de Ortega y Gasset ao futebol, a cada jogo, ao longo dos 90 minutos, será sempre cada equipa e suas circunstâncias. O (bom) treinador é aquele que aproxima os seus jogadores (ou leva-os a descobrir) do seu máximo potencial. Não só no global, mas também em cada jogo específico (pois é uma ideia que também deve ser cruzada com as circunstâncias, as necessidades, de cada jogo). Fábio Coentrão, por exemplo, seria, neste momento, mais útil ao Benfica (órfão de profundidade ofensiva) a jogar como extremo em vez de defesa-lateral.
Em suma. Compor a defesa depois de ver o que o adversário exige. Montar o ataque sempre com ideias próprias, a chamada independência ofensiva.