O jogo como um desenho

21 de Janeiro de 2010 10:11
O controlo ou a divisão do espaço? As linhas (ou faltas delas) na dinâmica de jogo do Real Madrid.

 

A tentação mais comum quando se fala em grandes equipas a controlar um jogo é ligar logo essa ideia ao controlo da posse da bola. Ou seja: controlo de jogo = controlo de posse. Não é uma ligação tão directa. Desde logo, este conceito tem também implícito a noção de circulação. O jogar do Barcelona tem se tornado num futebol de culto. Como se não houvesse outra forma de jogar bem. O novo Real Madrid tem atravessado o período de construção do seu jogo com essa sombra. Ainda está muito longe do ideal, mas a primeira coisa a perceber é que quer jogar de forma diferente. O facto de ser mais ou menos atraente é outra discussão. Pellegrini pretende um jogo mais vertical (não confundir com directo) com menos passes horizontais.
Se pensarmos em jogadores como Ronaldo, Kaká ou Benzema imaginamos este tipo de jogo. A construção desse jogo vertical não favorece, no entanto, a construção de mecanismos de passe na equipa. Ou seja, o onze joga em diferentes variantes do 4x4x2 (do losango ao clássico, até ao 4x2x2x2 de Pelegrini) mas tem dificuldade em formar linhas através dos diferentes sectores da equipa. Este ponto é fundamental. O melhor termo para medir uma boa equipa é contar o número de linhas que ela desenha. Isto é, distribuição posicional/espacial dos jogadores ao longo do campo em apoio sucessivo.
 
O Real alterna entre um ou dois pivots defensivos (Lass-Xabi Alonso ou Gago), quer abrir com Marcelo (um lateral de origem puxado para médio é, desde logo, um indicador perturbante numa equipa de top) e encosta Kaká à outra ala, dando-lhe depois liberdade para fazer diagonais longas, abrindo o corredor às subidas do lateral, Sergio Ramos. Ronaldo e Benzema no ataque pensam sempre o jogo em velocidade e remate. Falta a noção de apoio, passe e tabela que Higuaín consegue dar. Não se trata de ser melhor jogador, trata-se de dar à equipa as coisas diferentes (gestos táctico-técnicos) que ela precisa.
O sistema, neste contexto, é só essencial na medida em que pode influenciar a transição e construção de jogo. Construir linhas em 4x4x2 é mais difícil do que 4x3x3, visto que, por definição, este sistema conseguir desdobrar-se melhor ao longo de campo. Como? Em 2x2x1x2x2x1. Seis linhas de origem: 2(os centrais)x2(laterais dois passos à frente)x1 (pivot)x2(médios de transição)x2(alas)x1(ponta-de-lança). Pelo menos seis linhas posicionais desenhadas. A posse torna-se assim natural. E não impede, no desenvolver do jogar, de meter a verticalidade que a filosofia própria do treinador quer. Em 4x4x2 é mais difícil desenhar tantas linhas. O problema do Real é por isso, um problema vertical de controlo e…divisão de espaço.
 

 

 

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