O jogo depois da “batalha”

21 de Agosto de 2010 10:54
A equipa é uma inteligência colectiva que compromete onze jogadores com uma ideia de jogo. Mas, em 90 minutos, um jogo passa por muitos diferentes momentos…

 

A paisagem que fica do relvado depois da “batalha” (jogo) destapa tendências, provoca análises e suscita conclusões. Uma equipa é uma inteligência colectiva que compromete onze jogadores com uma ideia de jogo. Repete-se a palavra “equipa” para recordar que o futebol é um jogo colectivo, mas o golo, o ultimo remate, é obra de um jogador só. Por isso, quando Matheus sacou uma chupeta para festejar o histórico golo do Braga que bateu o Sevilha na Champions, ele, naquele instante, personificava o onze inteiro. Parecia então que o jogo se resumia a esse toque com a cabeça, mas por trás dele estiveram 90 minutos de ordem e pressão que fizeram a equipa ir crescendo após um início em que não conseguia encontrar a bola. Mas, para a “inteligência compactada” que deve ter uma equipa, o mais importante é ter a consciência que, durante 90 minutos, o jogo passa por diferentes momentos. E nem todos são a nosso favor. Tem a ver com a táctica, colocação em campo, talento, lado mental, etc. O segredo está em perceber cada um deles. Aguentar quando é do adversário. E aproveitar quando sentimos que aquele é o “nosso momento” no jogo. O Braga de Domingos “sonha alto” desde há muito tempo (interna e internacionalmente) porque é, sobretudo, uma equipa que percebe sempre todos esses “momentos” do jogo. Os seus e os do adversário. Defender bem para atacar melhor.
 
O Benfica entende 90 minutos sempre da mesma forma. Cada batida do ponteiro do relógio tem de ser sempre o “seu momento” no jogo. Futebol em “alta voltagem”. Quer ganhar o jogo a cada minuto (momento) que passa. Tem uma arma colectiva (ideia de jogo) muito forte, mas, a cada jogada, é, individualmente, cada jogador, na sua posição, que desenha o jogo. E num futebol em que todos abusam das armas colectivas, é perigoso fugir à lógica de que as características de cada um deles pode dar ao jogo.
Perdido o jogador mais subversivo (Di Maria) e o mais pendular (Ramires) o jogo entra obrigatoriamente noutro cenário. Isto é, necessita de uma ideia diferente. Porque é impossível pedir as mesmas coisas a jogadores diferentes (Peixoto, Gaitan ou Coentrão não são Di Maria; nem Amorim é Ramires). Mas, mudar nunca é fácil. Em muitos casos, trata-se de um processo de regeneração táctica muito sensível, porque choca as ideias preferenciais do treinador. Terá sido o que sentiu Jesus na pré-época quando, sem aqueles dois elementos fundamentais, inventou um híbrido 4x3x3 como “plano B” alternativo ao seu 4x1x3x2 de devoção. Estava a correr bem (porque, no fundo, o novo sistema respeitava mais as características de cada jogador em cada posição) mas na hora do arranque competitivo a sério voltou ao seu sistema preferencial. A “inteligência colectiva” do onze sentiu o abalo. É então que, nesse processo, de repente um jogador parece personificar todo o onze. Porque é quem o “ilumina” melhor: Fabio Coentrão. A cada lance que entra devolve à equipa o instinto e afirma que por mais colectivo que seja o jogo, quem o decide, em cada jogada, é um jogador só!
 
Coentrão e Matheus são dois jogadores subversivos que provocam “pequenos terramotos tácticos” no jogo. Para a saúde primitiva do adepto, é fundamental celebrar esse seu atrevimento criativo, mas, para o treinador, vendo a paisagem depois da batalha, a solução só pode ser repetir a palavra “equipa, equipa, equipa” as mais vezes possíveis. E, depois, fazê-la entender os diferentes momentos pelos quais o jogo passa. Adequando a táctica às características de cada um dos seus elementos. Mas, claro, o golo só o mete um jogador!  
 
 
O susto
do “leão”
 
Encontrar uma identidade passa por mostrar uma coerência de comportamento. Só depois de adquirido esse estatuto, é possível mutações de comportamento que não comprometam a personalidade base. Estou a falar de uma equipa de futebol, sua forma de construção e crescimento.
O Sporting que começara a pré-época com excelentes ideias de jogo, entrou na fase competitiva mais dura sem a mesma convicção. A intenção de Paulo Sério querer que a equipa saiba jogar em mais que um sistema táctico, alterando posições, retirou ao onze, nesta fase inicial, a estabilidade necessária para fazer crescer em campo a tal identidade-base de jogo.
 
A falta de Pedro Mendes, mentor da saída de bola, abalou a dupla de pivots à frente da defesa. Maniche sentiu a falta desse primeiro toque e o seu futebol perdeu o impulso inicial que lhe era dado pela segurança do colega de sector. Em Paços de Ferreira, a colocação de Carriço (central adaptado) nesse espaço, ainda prendeu mais a equipa a outros conceitos de jogo. Contra o Brondby, em busca de novo fôlego, Paulo Sérgio voltou a mudar. O sistema (de 4x4x2 para 4x1x3x2) e jogou pela primeira vez com um pivot único (André Santos), tentando alargar Maniche na direita. Os hábitos do jogador, porém, forçavam-no sempre a vir para o meio. Perdido no meio destra equação, Matias Fernandez que em Paços começara deslocado do seu habitat (do centro, onde respira, para a ala direita, onde tem dificuldades em arrancar). Restam as subidas de João Pereira, mas são apenas aventuras individuais, enquanto, na frente, Liedson e Postiga sofrem para descobrir o golo.
Dois jogos, duas derrotas. É, claro, apenas o início. O facto, porém, de não se detectar uma identidade forte no onze é, neste momento, o factor mais inquietante do seu comportamento.
 
 
Um Porto
“seguro”
 
A forma como Villas-Boas passa 90 minutos de pé, semblante carregado, gritando para os jogadores, diz muito de como o novo treinador do FC Porto busca construir a sua equipa (e imagem) na entrada no topo do futebol português. O comportamento do onze em campo é a face mais visível dessa tentativa de afirmação de personalidade. A equipa também tenta jogar em diferentes sistemas tácticos mas ao contrário do Sporting de Paulo Sérgio parte já de uma base estabelecida. Isto é, Vilas Boas não mudou a estrutura, a distribuição dos jogadores em campo (4x3x3) em relação à época passada. Apenas tenta mudar a sua movimentação. O Sporting mudou estrutura(s) e movimento(s).
Na mudança portista, basta ver os intérpretes para perceber algumas dessas novas ideias. É difícil imaginar com Jesualdo um meio-campo com Fernando-Moutinho-Belluschi. O factor mais improvável seria, claro, Belluschi, o argentino “peso-pluma” que era preterido por um jogador mais “pica-pedra” como Guarín (a quem Villas-Boas, noutras circunstâncias, recorreu para desbloquear o jogo de “pressão-contra-pressão” da Naval). A diferença aumenta quando na frente surgem extremos puros (Ukra-Varela) e um ponta-de-lança (Falcão). Ou seja, não existe nenhum a recuar para fazer quatro médios. Quando o quer fazer (passando para 4x4x2) Villas-Boas troca mesmo de jogadores. Na Figueira, meteu Guarín e tirou Varela (soltando a dupla Falcão-Hulk na frente); Na Bélgica, tirou Varela e meteu Souza (soltando Ukra-Facão). Souza foi então para a direita do losango. Pouco depois, entrou Micael, saiu Ukra e passou para um 4x2x3x1 com o trio Moutinho-Micael-Belluschi nas costas de Falcão. Ganhou 3-0. Ou seja, muda de sistema, mas antes, percebeu que a equipa já tinha uma identidade-base para suportar essas mudanças.

 

 

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