Qual o verdadeiro valor da Liga portuguesa? Jorge Jesus referiu, na passada semana que estava entre as cinco melhores da Europa. É uma opinião discutível. Depende, claro, da perspectiva sob qual se fizer essa avaliação, mas, no geral, tenho dificuldade em a ver entre o chamado G5 (Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha e França). Quando penso como evoluiu o nosso futebol nas últimas épocas, tenho a paradoxal sensação que os jogadores pioraram mas as equipas…melhoraram. Estranho? Nem tanto. No fundo, isso espelha, afinal, as suas forças e fraquezas mais profundas.
Vejamos: No contraste com Ligas semelhantes da segunda linha europeia, como a turca (com menos poder táctico e técnico, mas maior intensidade competitiva) ou a holandesa (com menor equilíbrio defesa-ataque-defesa, mas maior cultura de movimentação ofensiva) existem pontos em que somos superiores e noutros não. Olhando o G5, a nossa Liga aproxima-se mais, no estilo, à italiana (embora diferente nos princípios). As equipas são quase todas fortes no plano da organização defensiva atrás da linha da bola. E pode começar nesta constatação táctica a justificação para a tal sensação estranha de jogadores piores, e equipas melhores. É, sobretudo, o poder dos treinadores portugueses, estrategicamente muito fortes, na vanguarda camaleónica europeia, muito acima, por exemplo, de ingleses e, até, espanhóis, estes no geral dogmáticos do 4x4x2 com duplo-pivot sem maleabilidade táctica.
A Liga francesa, noutra perspectiva, será mais leve na agressividade táctica, mas superior num sector fundamental para desenhar bom futebol colectivo: o meio-campo. Têm melhores médios e acho que essa é hoje a grande lacuna da nossa Liga. Faltam médios de qualidade construtiva (tirando, claro, os três grandes), daqueles que pensem o jogo e façam crescer a equipa quando têm a bola nos pés. Predomina antes o império dos recuperadores.
É mais fácil encontrar equipas que se destacam pelos avançados (nas pequenas, os mais rápidos com espaço em contra-ataque) o que provoca ilusão de qualidade pelo maior impacto ofensivo que essas individualidades causam em contraste com o trabalho estruturalmente táctico dos médios. As equipas preferem, em maioria, o 4x3x3 e isso, só com três médios, ainda se nota mais.
O que faz a grande força competitiva da nossa Liga é a organização das equipas. O posicionamento táctico. A qualidade técnica, essa, tem decrescido muito. E tal reflecte-se depois noutra realidade do jogo, a chamada táctica individual. Isto é, a capacidade do jogador resolver situações de jogo por primeiro pensar bem o que tem de fazer e depois saber executá-lo em conformidade. É um transfer muito difícil de fazer pelo comum dos médios do nosso campeonato. Por isso, a tal moldura italianizada. A maioria das equipas, fora do topo da tabela, só são competitivas porque se organizam bem a defender.