Os jogos, demonstram, sucessivamente, que o futebol é produto de muitas variáveis e privilegiar apenas uma delas pode ser fatal. Toda a memória táctica para 90 minutos pode perder-se com um passe fantástico que abre uma defesa, uma entrada dura que dá uma expulsão e coloca a equipa com menos um jogador, uma grande defesa do guarda-redes quando a bola vai mesmo a entrar ou, até, coisas mais exóticas, como um jogador engolir um insecto e a equipa (e treinador) ficarem assustados com o que se está a passar. Tudo isto aconteceu às equipas portuguesas na sua primeira aventura europeia conjunta da nova época. Witsel, João Paulo, Quim e Schaars, protagonistas de cada um desses episódios que, cada qual na sua dimensão, marcaram as viagens de Benfica, Guimarães, Braga e Sporting na Europa.
Depois da Final lusa da época passada, nenhuma equipa portuguesa marcou um golo (o Nacional também empatou) na primeira mão do play-off da Liga Europa. Foram jogos estranhos, daqueles que parecem feitos para os piores jogadores e um tormento para os melhores. Porque os chamados piores (penso nos menos vocacionados para gestos técnicos superiores) sentem-se protegidos quando percebem que não vai acontecer nada de muito transcendente, mas, os ditos melhores, sufocam com a falta de estímulo para soltar a sua criatividade. Neste cenário, os jogadores respondem quase sempre com cálculo, disciplina e passividade em campo.
No meio de tudo isto, um passe como o de Witsel é como um grito de ironia. E a inspiração, subitamente, aparece. Na Holanda, o Benfica de Jesus reciclou-se tacticamente (do 4x1x3x2 para o 4x2x3x1). Muda a fórmula, muda a forma de jogar, isto é, da equipa se equilibrar em campo. Entre a âncora Javi Garcia e o arquitecto Aimar, passa a existir outra personagem, o pirata Witsel, elo de ligação que une a táctica e a vida da equipa em campo. Saiu um avançado, mas a equipa passa a…atacar melhor. Contradição? Nem pensar. Apenas a mais linear demonstração que o futebol não é matemática de quantos mais avançados, melhor se ataca (como um carro com quatro rodas à frente também não anda mais depressa). O segredo é o equilíbrio. Para rodar e mudar de velocidade nos ritmos certos.
Analisar o Sporting tornou-se um exercício quase na fronteira da bipolaridade. De um jogo para o outro, sensações completamente diferentes. Nesta altura, o melhor era mesmo colocar um letreiro à porta (da Academia e dos jogos) a dizer Silêncio. Estamos a construir o futuro! E, assim, só se seria possível voltar a ver um jogo do Sporting quando o treinador viesse cá fora e retirasse o letreiro. Sem precisar de dizer nada. Na Dinamarca, num jogo soporífero, jogou a passo e não fez nenhum…passe que fosse superior a 90 minutos desenhados para acabar num perfeito 0-0. Em Madrid, o Guimarães estava a fazer, com navalha táctica, um jogo sem erros, até que João Paulo, para matar um contra-ataque a 70 metros da sua baliza, varreu um jogador madrileno e foi expulso. A partir daí, a equipa perdeu-se e sofreu dois golos. O Braga sonhador de meses atrás é hoje uma equipa diferente. Só Quim, fazendo, mesmo a acabar, uma defesa de outro mundo provou como é mesmo verdade que se só se vive duas vezes.
Entretanto, no FC Porto confirmou-se o voo do Falcao no mercado. O futebol português pode até voar durante algum tempo, mas no fim, acaba sempre por ter de voltar à terra. Uma vez mais o espectáculo estivera na ilusão com que vivemos de sermos eternamente infelizes. Pura utopia.