O LIVERPOOL DE BENITEZ: Alma, estilo e táctica

5 de Fevereiro de 2006
De rosto conservador, este onze de Benitez é, talvez, o mais cínico do futebol inglês. Procura o choque a meio campo e nunca perde as suas referências defensivas. Uma verdadeira ratoeira onde caem muitos adversários, como, na época passada, na caminhada europeia, Juventus e Chelsea. Mas, comparando a actual equipa com a que venceu a Liga dos Campeões em 2005, existe uma girafa que, vinda de Southampton, como que mudou a face dos seus processos atacantes: Peter Crouch.
Durante quase 50 anos, desde 1959 a 1998, o Liverpool foi orientado apenas por quatro treinadores, todos eles da mesma equipa técnica que se foram sucedendo no seu comando: Bill Shankly, Bob Paisley, Joe Fagan e Roy Evans. Pelo meio, na fase final desta dinastia, também passaram Dalglish e Souness. Todos eles eram, dizia-se, donos do grande tesouro que tornava mítico o Liverpool: o chamado segredo do bootroom, isto é, o segredo do balneário. Juntos, estes homens levaram o Liverpool das divisões secundárias ao topo da Europa, conquistando entre 77 e 83, quatro Taças dos Campeões Europeus. Uma era inesquecível, escrita por jogadores eternos como Clemence, Lawrence, Kennedy, Keegan, Dalglish, Rush e outros terríveis «diabos vermelhos» O final do século iria alterar, porém, a face de Anfield Road. A dinastia Shankly extinguiu-se e um novo ciclo abriu-se com a vinda de técnicos estrangeiros. Primeiro o francês Houlier e, depois, o homem que iria devolver o Liverpool à glória europeia: o espanhol Rafa Benitez. Entre as duas épocas, desde o mítico Paisley nos anos 70 até ao castelhano Benitez em 2006, existe, porém, um verdadeiro abismo. No estilo de jogo e no perfil da equipa. Em vez do carácter lutador de outrora, com passes em profundidade e lances divididos, símbolos do clássico futebol britânico, surgiu um estilo de traço continental, com jogo apoiado e tacticamente elaborado, procurando, acima de tudo, manter a segurança defensiva. No fundo, os princípios de jogo de Benitez tem a mesma essência de Mourinho. A consciência de que as grandes equipas modernas são sobretudo as que sabem defender, e, depois, nunca distinguir, na construção do jogo, a fase atacante da fase defensiva. Isto é, ligar o pressing com a construção. Por isso, este onze de Benitez é, talvez, o mais cínico do futebol inglês. De rosto conservador, procura o choque a meio campo e nunca perde as suas referências defensivas. Uma verdadeira ratoeira onde caem muitos adversários, como, na época passada, Na caminhada europeia, a Juventus e o próprio Chelsea. No fundo, Mourinho provara com Benitez do seu próprio veneno táctico. É este o novo Liverpool construído por Benitez. De início, foi um choque de culturas. Depois, acusaram-no de estar a destruir a identidade do velho Liverpool de Paisley, sem a mesma alma lutadores de outrora, mas para isso, o espanhol iria preparar uma resposta demolidora: A identidade é feita de vitórias! A conquista do título europeu devolveu a essência ganhadora a Anfield Road.
Tacticamente, o Liverpool de Benitez é um equipa estruturalmente cautelosa cuja primeira preocupação reside, claramente, na organização defensiva. Pragmático, Benitez nunca arrisca perder o equilíbrio táctico da equipa. Tal, no entanto, condiciona muitas vezes a evolução da estratégia para jogos onde é imperioso ganhar. Para o técnico espanhol, porém, a obrigação reside em manter sempre o equilíbrio entre as três linhas. Em termos de sistema, varia entre o 4x4x2, nos jogos em casa, e o 4x2x3x1 que utilizado sobretudo nos jogos fora, contra adversários mais difíceis, se transforma antes numa espécie de 4x5x1. Um esquema rochoso que visa sobretudo ganhar a batalha do meio campo. Para isso, joga com uma dupla de pivots defensivos, formada habitualmente por Xavi Alonso, responsável depois pelo primeiro passe na transição defesa-ataque, e Sissoko, um monstro que tem como principal missão roubar bolas e pressionar os adversário e roubar bolas. É devido a esta obsessão táctica, que um dos principais dilemas do actual modelo de jogo da equipa, reside em encontrar o local certo para Gerrard. Face ás suas qualidades de passe e remate, para além de ser um líder natural, o melhor lugar seria no centro com liberdade para subir. No desenho do 4x5x1, Benitez tende a encostá-lo ao flanco direito e, com isso, a equipa perde grande parte do seu carácter. Quando pega na bola, porém, seja em que zona do campo for, a categoria e carácter de Gerrard faz estremecer qualquer jogo. Na defesa, impõe-se uma gigante dupla de centrais, verdadeiro muro que se ergue em frente ao guarda-redes Reina. Veloz, destemido no corte e com perfeito sentido posicional, Carragher é um titular indiscutível da selecção inglesa. Hyypia, embora sem grande jogo de cintura, é imperial no jogo aéreo e nunca receia um lance de choque. Nestes dois homens personificam como o Liverpool é também muito forte nos lances de bola parada, a defender e a atacar, revelando uma concentração granítica em todas essa jogadas Uma das zonas mais fortes do reside por todo o flanco esquerdo, onde, desde e defesa, incute sempre grande profundidade ofensiva ao jogo. Ora com o veloz e aguerrido Riise que, como médio ala ou lateral, arranca de trás com grande decisão, para rematar ou meter a bola na área, e Kewell, o mágico australiano canhoto, um vagabundo da zona de construção, claramente o jogador mais criativo da equipa. Em síntese, o Liverpool é uma equipa que gosta de jogar em contração. Prefere ser dominado e, após adormecer o jogo, soltar o contra-ataque, do quer ser obrigado a assumir o jogo e, como isso, desiquilibrar os elos de ligação entre os três sectores. Ou seja, tem sempre como prioridade a segurança da transição defensiva. A sua arma, depois, reside em pressionar o adversário, recuperar a bola a meio campo e aproveitar o balanceamento da equipa adversária. O resto é Gerrard e a sua capacidade de resolver um jogo sozinho.
Comparando a actual equipa do Liverpool com a que venceu a Liga dos Campeões em 2005, existe um homem vindo de Southampton que, do alto do seu 1,98m., como que mudou a face dos seus processos atacantes. Seu nome: Peter Crouch. Uma verdadeira girafa que caminha por entre os defesas adversários. Meio desengonçado, parece feito de borracha por chegar ás bolas mais impossíveis. Apesar desse aspecto algo inestético, é muito difícil de ser marcado em cima e mesmo sem ter qualquer hipótese de ganhar um concurso de beleza, o seu jogo é temido por todos os adversários tal a forma como se movimenta e ataca cada bola. A sua presença descaracterizou, no entanto, a forma de atacar do onze, que, tendo-o como referência fixa na área, passou a usar e abusar do jogo directo para a sua cabeça. É perigoso, mas previsível. Um dinâmica de jogo que se pode dizer pouco interessante vendo o grupo de avançados que Benitez tem ao seu dispor, como Luís Garcia, Cissé e Morientes. Quando joga em 4x4x2, Morientes costuma alinhar ao lado de Crouch na frente de ataque num esquema de 4x4x2. Nessa dinâmica tem tendência a jogar mais solto, caindo nos espaços vazios, mas nesses movimentos perde quase sempre o seu melhor lugar que é, claramente, na área. O mais sacrificado da presença de Crouch e das opções tácticas de Benitez é, no entanto, o francês Cissé. Ponta de lança por definição, dono de um potente remate, e que gosta de explodir em força, técnica e velocidade nos últimos 25 metros, é quase sempre colocado na faixa direita, como extremo, quando a opção é jogar em 4x2x3x1, só com um ponta de lança e homens mais ofensivos nos flancos. Nessa posição Cissé fica impossibilitado de mostrar a força do seu futebol e parece um fantasma do grande avançado que é. Insatisfeito com esta situação, esteve quase a sair em Janeiro, mas, por enquanto, continua em Liverpool. Outro homem a ter em conta quando se fala num Liverpool de rosto mais ofensivo é, sem dúvida, a gazua espanhola Luís Garcia. Veloz e imprevisível, rasga pelos flanco, muitas vezes disfarçado de extremo. Surge também muito bem na área e surge com muito perigo nas costas dos defesas. É um desiquilibrador nato. Ou seja, no papel, o Liverpool tem um excelente grupo de avançados como Morientes, Cissé, Luís Garcia. Perigoso em velocidade, remate e jogo de cabeça. Todos eles, porém, giram hoje em torno de Crouch. O gigante desengonçado que habita na área. Quando o virem a mover-se até podem achar ter uma nota pitoresca, mas quando o virem a atacar a bola, o melhor mesmo é… suster a respiração.

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