É um dos factores mais perturbantes para quem busca bom futebol: quando, durante um jogo, seguindo um bom jogador, imaginámos que a sua melhor posição devia ser outra. Refiro-me sobretudo ao facto dele poder jogar mais avançado ou menos recuado. Penso nisto vendo um dos jogadores que mais gosto no actual futebol espanhol: Parejo, de 21 anos, médio do Getafe. É o tipo de jogador que gosta de pegar nas rédeas da equipa e conduzir a bola. Tem, também, grande criatividade, drible curto, precisão de passe e remate. Estes diferentes traços do seu jogo colocam-no entre as duas linhas do meio-campo: ou pivot partindo de trás ou médio mais ofensivo.
No 4x2x3x1 com duplo-pivot do onze de Michel, a sensação incómoda nasce do facto de, na maioria do tempo, Parejo jogar muito recuado, como o pivot que dá saída de bola. Ou seja, passa muito tempo longe da área adversária, onde a sua visão de jogo, passe e remate, podia ser decisiva não na construção mas na definição, no último elo para o golo (vejam o golo fantástico que marcou ao Real Madrid).
Sendo o golo (ou criação de oportunidades) um bem de primeira necessidade para qualquer equipa, penso que Parejo deveria jogar mais adiantado. O treinador, claro, também verá tudo isto, pelo que, em concreto, este caso espelha como um só jogador específico pode por vezes levar um treinador a repensar tacticamente toda a estrutura da equipa.
Mantendo o 4x2x3x1, não vejo Parejo como o médio centro da segunda linha, pois não é um 10 e precisa de liberdade para se mover e, pegando na bola mais atrás, chegar em condução à área. Assim, imagino a equipa em 4x3x3, com um pivot-defensivo (Boateng) e dois médios mais subidos, com Parejo a conduzir transições e Manu mais perto do ponta-de-lança (mantendo os alas Gavilan-Rios abertos). No fundo, mexia-se apenas na distribuição do meio-campo.
Este efeito-Parejo é sentido por vários treinadores noutras equipas, noutros países. Existem, de facto, jogadores que merecem essa prioridade quando se pensa em como fazer a equipa (sua dinâmica táctica). Nessa classe de jogadores não incluo goleadores, extremos ou médios dribladores. Incluo o jogador mais evoluído a pensar e executar a construção e definição do jogo. Estamos a falar, quase sempre, num médio puro.
Definir os locais onde essas qualidades devem surgir no jogo da equipa faz toda a diferença. O ideal é começar o mais atrás possível e acabar o…mais à frente possível. Para criar esse espaço de jogo é necessário mexer na estrutura da equipa. Não colocar o jogador sobre carris mas dar-lhe as principais vias de comunicação táctica do onze. Num próximo jogo do Getafe, sigam Parejo e pensem em tudo isto.