Embora seja um onze que necessite de espaço para desenvolver o seu futebol ofensivo, desenhado essencialmente através de passes longos e rasteiros para os flancos onde explode a velocidade dos seus extremo-flanqueadores (Govou, a flecha direito, e Malouda, a flecha do lado esquerdo), o estilo do campeão francês, pelo elevado índice técnico de todos os seus médios (Juninho, Dhorasoo, Essien, Diarra, Carriére e o vagabundo Luyindula), daqueles que gostam de ter a bola no pé e praticar um jogo apoiado de toque curto, ultrapassa essa imagem redutora do contra-ataque.
É, apesar das influências estrangeiras, a típica escola latina. Os críticos, chamam-lhe um futebol de médios. Uma análise que, no papel, é suportada pelo facto de no grupo de 16/17 jogadores em que se baseia este Lyon, só existir um verdadeiro ponta de lança, Elber, um brasileiro com o estilo já, digamos, europeizado, pela forma musculada como batalha entre os centrais, deambulando pelos flancos fugindo ás marcações. O outro homem mais adiantado, sobre a zona central, é o virtuoso Luyindula, que nos últimos jogos, com o recuo do extremo esquerdo Malouda para lateral, alinhou no flanco canhoto, mas sempre em claro défcit exibicional, revelando sempre tendência para flectir no terreno, onde gosta de actuar com liberdade para criar. O grande velocista mora, porém, no flanco direito: Govou. Tem tudo o que deve ter um bom extremo: velocidade, visão de jogo, capacidade de centro e, depois de fazer as diagonais, com ou sem bola, remate colocado. Um jogador proibido perder de vista, e que, no fundo, é o grande responsável por muitos definirem este Lyon como uma típica equipa de contra-ataque.
As diferentes dinâmicas tácticas das flechas de Lyon

Em termos tácticos, a simples observação do trajecto do Lyon nesta Liga dos Campeões, permite detectar as suas principais opções e variantes. Assim, o sistema de referência, é claramente um dinâmico 4x2x3x1, que, ganha, num ápice, de posse da bola, fruto das movimentações dos seus extremos flanqueadores, um desenho mais ofensivo de 4x3x3, muito veloz e perigoso nos espaços vazios. Como principal alternativa, emerge o 4x4x2 com dois trincos, alas, um ponta de lança mais fixo (Elber) e um falso (Luyindula). A dinâmica de jogo, mais ou menos ofensiva, dependerá, depois, também das opções individuais de posicionamento de alguns jogadores-chave. Todas estas vertentes técnico-tácticas puderam ser observadas nos dois jogos realizados frente á Real Sociedad nos oitavos de final.
Assim, no primeiro jogo, em San Sebastian, Le Guen jogou em 4x3x3x1, com uma clássica dupla de trincos de contenção: Diarra, muito forte na marcação, por alto ou por terra, e Essien, mais construtor e que, esta época, também já foi adaptado ao flanco direito ou, até (como contra o Sochaux) a médio centro mais ofensivo. Á frente desta dupla, na zona da criação, o maestro Juninho, uma espécie de Deco do Lyon, grande visão de jogo, inteligente nas triangulações e exímio a marcar livres. Nos flancos, Maluda e Govou. Ambos tem grande cultura táctica, o que lhes permite, num ápice, ora serem extremos á moda antiga, velozes em ir á linha centrar, abrindo a frente de ataque a toda a largura do terreno, ou, perdendo o onze a posse da bola, recuar no terreno e fechar o flanco. Pela sua genética ofensiva, são, porém, claramente mais fortes a atacar, pelo que, sem a eficaz cobertura das faixas quando o adversário parte para o ataque, a equipa sofre muito defensivamente. É exactamente para colmatar essa lacuna que, nos jogos mais difíceis, Le Guen opta por uma dupla de trincos com maior peso defensivo, enquanto que noutros casos, joga com Juninho ao lado de Diarra, libertando mais a equipa de tarefas de marcação.
O 4x4x2 e Diarra, o único jogador insubstituível

No segundo jogo, em casa, Le Guen abandonou o 4x2x3x1 e sistematizou, ao invés, um 4x4x2 aberto a toda a largura do relvado, numa dinâmica de jogo baseada na versatilidade táctico-posicional dos alas, desta vez o adaptado Essien, á direita, muito mais eficaz a defender que Govou, e Dhorasoo, á esquerda, um rato do meio campo, exímio a fazer diagonais com bola, rasgando pelo centro e confundindo os seus marcadores. No centro, Juninho recuou mais para perto de Diarra, mas sempre pelo menos um ou dois passo á sua frente, para iniciar a saída da bola. No ataque, dois vagabundos, Govou, descaíndo para a direita, e Luyindula, partindo da esquerda para surgir depois, em movimento, no centro, perante a surpresa dos centrais que, em rigor, iniciam o jogo sem ter ninguém a quem marcar directamente na sua normal zona de acção.
Em parte, também foi este o sistema utilizado frente ao Bayern na primeira fase, em Munique. A diferença esteve na dinâmica individual, pois frente aos alemães Juninho jogou mais preso ao flanco esquerdo, surgindo Dhorasso sobre o centro, enquanto que, no ataque, Elber alinhou em cunha entre os centrais, surgindo Govou na direita explorando o contra-ataque. Um sistema mantido, em casa, mas com Juninho a reger todo o meio campo, Malouda e Essien nos flancos e Luyindula a apoiar a Elber. Como titular fixo, em qualquer sistema, emerge sempre o trinco Diarra, o único médio do onze com verdadeiro pedigree defensivo de marcação.
O sector defensivo
Na defesa, quer em 4x2x3x1, 4x4x2, ou na variante 4x2x2x2, mantêm-se a design a «4». Os laterais (Reveillere-Berthord ou Sartre) raramente sobem, excepto no caso da adaptação de Malouda que, por ser extremo de origem, tem sempre tendência para atacar mais. Nestes casos, porém, Juninho fica mais atento e surge a dobrar as suas subidas na faixa esquerda.
No eixo da defesa, uma dupla de centrais que perdeu algum peso nas jogadas de choque com a ausência do possante Caçapa, mas que conta com a elegância de um campeão do mundo, Edmilsson, ao lado do suíço Muller, magnífico sentido posicional. Sobre pressão, porém, e face á suavidade de cobertura defensiva dos médios, o sector sofre muito e revela muitas fragilidades.
OS DOIS SISTEMAS DE PAUL LE GUEN
Sistema: 4x2x3x1 (Real Sociedad, fora, 1ªmão)
(variante: 4x3x3)
Sistema: 4x4x2 (Real Sociedad, casa, 2ªmão)
Variante (4x2x2x2)