Façamos uma viagem pelos sonhos de futebol. Qual seria a selecção brasileira de todos os tempos? Pensando nos Mundiais, eis uma sugestão: Leão (78); Carlos Alberto (70), Domingos da Guia (34, 38), Orlando (58) e Nílton Santos (58, 62); Falcão (82), Zizinho (50) e Zico (82); Garrincha (58,62), Leônidas (34, 38) e Pele (58,70). Todos eles têm um ponto em comum: amor e respeito pela bola. O instrumento de arte que Domingos da Guia definiu como “a melhor amiga da minha vida. Ela e suas irmãs. Uma família a que agradeço eternamente. Sem ela nunca teria saído de uma fábrica de Bangu para conhecer o mundo inteiro.” Graças a ela, diz, também conheceu muitas mulheres “Também são uma coisa gostosa, não?” questionava Domingos. Talvez por isso o campo do Bangu FC onde fez a maiores exibições da sua vida, só podia ter o nome de “Estádio Moça Bonita”. A semente do bom futebol de Domingos nesse relvado foi tão fértil que dela nasceu outro craque, seu filho Ademir da Guia, mestre da Copa de 50. O carinho que estes magos tinham pela bola era tanto que Didi chegava a dizer que mais do que treinar muito o jogador devia era dormir com uma bola debaixo da cama para logo ao acordar, ainda meio estremunhado de olhos fechados a começar a acariciar, sentir-lhe o cheiro, abraçá-la, tocar-lha. Tal como a uma mulher bonita. Só isso criava a intimidade perfeita.

Ok, visto isto, no meio campo daquela intemporal equipa de sonho também podia estar Didi, príncipe etíope dos anos 50, ou, vendo bem, até Zito, cabeça-de-área de 58 e 62, se quiséssemos alguém para impor ordem e dar um grito quando fosse preciso, até em Pelé, como fez tantas vezes no escrete e no Santos. é que, vendo bem, todas as grandes selecções campeãs do mundo tinham um tipo de jogador menos estético, por vezes feio mesmo, na primeira linha do meio campo, para fazer o chamado trabalho sujo e libertar os mágicos. Reparem: Stilles (Inglaterra 66), Bonhoff (RFA 74), Gerson (Brasil 70), Gallego (Argentina 78), Tardelii (Itália 82), Baptista (Argentina 86), Berthold (RFA 90), Dunga (Brasil 94), Deschamps (França 98) e Gilberto Silva (Brasil 2002). Parreira percebeu isso e quis trazer o futebol brasileiro de volta à realidade. Foi assim que surgiram Dunga, Kleberson, Gilberto Silva, Emerson etc. Atacar como sul americanos, mas…defender como europeus, mas sem perder de vista que mesmo na era do futebol-força, quem decide é o futebol-arte. O segredo estava em aprender também a jogar sem bola, mas sempre consciente que isso apenas é a base do essencial que é a arte ofensiva.

Jogar sem bola. Foi o que faltou ao Brasil de 82, para muitos estudiosos a melhor selecção brasileira de todos os tempos, superior até à de 58 ou 70. Seu mentor, um técnico amante do futebol arte: Telê Santana. Seus poetas: Junior, Falcão, Cerezo, Sócrates, Eder e Zico. Jogava um futebol de encantar e perdeu com a fria Itália. Faltava-lhe, afinal, esse Maquiavel táctico nas costas. Só por isso Zico merece um lugar no onze de todos os tempos. Ele foi um poeta num futebol que já se tornara refém de sistemas defensivos e dos carrinhos dos médios raçudos. Zico teve muitas homenagens, delírios colectivos de 100 mil cabeças no Maracanâ, loucura na Gávea, mas a maior terá sido de um anónimo adepto que era cego e só o ouvira jogar. Mesmo assim ficara seduzido pela beleza do seu futebol, ao ponto de o procurar no fim dos treinos, para lhe pedir: “Por favor, Zico, me conta seu golo!” Naquele onze de todos os tempos, faltam também os contemporâneos, é certo, mas este é um exercício sobre o futebol de outros tempos, entre o real e o imaginário. O confronto lenda-realidade, mas, como diria Adian Garcia Schlee: “Se a lenda foi maior do que homem, pois que permaneça a lenda!”

Mas, ás vezes, apesar da delicadeza do tratamento, o craque e a bola de desentendem. Na parte final da carreira, claro, pela intransigência do tempo, antes porque o talento confundia o objecto. Só assim se explica que duas das mais belas jogadas de Pele em 70 não tenham dado golo. Foi com o chapéu do meio campo ao checo Viktor, passando a bola a rasar a barra. E foi após uma finta sem bola que, indo Pele para um lado e a redondinha para outro, entortou o guarda-redes uruguaio Mazurkiewicz, perdendo-se depois num remate cruzado rente ao poste. Se não entrou, a culpa não foi de Pele, que fez tudo perfeito. A culpa foi mesmo da bola que não entendeu a velocidade de raciocino do Rei e não completou a obra-prima. Mas se Pele foi o maior de sempre, quem foi então o melhor jogador que o Rei viu jogar? Quando lhe fizeram essa pergunta, se esperavam hesitações e respostas evasivas, enganem-se. Pelé foi imediato: Zizinho, craque dos anos 40 e parte dos 50. Chamaram-lhe Mestre Ziza. Defendia, armava, ataca e fazia golos. Jogador moderno, portanto. Dizia-se, a provar sua classe, que nenhuma bola lhe ficava indiferente. Aqui está, mais uma vez, o respeito pela bola.