O melhor “egoísta”

9 de Abril de 2011 19:48
Os golos de Cavani e o excitante mundo do Nápoles de Mazzarri
Uma equipa que parece…“duas equipas”!

 

Falando sobre futebol, Laudrup, poeta dinamarquês da técnica e passe nos anos 80/90, deu definição fantástica: o futebol é um jogo colectivo cheio de egoístas. Isto não especificando a quem se referia. A frase terá várias interpretações, mas não a vejo como crítica. Pode ser, até, o destacar da qualidade mais estranha que deve revestir algum tipo de jogadores. Quais? O ponta-de-lança. O único lugar onde o egoísmo pode ser uma qualidade. Mais difícil, impossível, é ver o egoísmo como traço positivo de jogo de um médio.
Li isso e pouco depois vejo, talvez, o jogo mais empolgante da época (Nápoles, 4-Lazio, 3) num ambiente arrepiante: Local: S. Paolo, Nápoles: Actor egoísta principal: Cavani, estratosférico ponta-de-lança uruguaio que, com os seus golos, está a abanar as estruturas do Calcio. Desde de Maradona que não se via nada semelhante. Entretanto, o Nápoles chegou a cair até à Serie C. Agora está na luta pelo Scudetto (a três pontos do líder Milan).
 
Na base deste fenómeno, um treinador estudioso, que vive cada jogo com o coração nas mãos e subiu a pulso na carreira, Walter Mazzarri, das profundezas do Acierale e Pistoese aos provocadores de bom futebol Sampdoria e, agora, Nápoles. É talvez o treinador italiano da actualidade mais aberto em termos de versatilidade estratégia.
A estrutura-base desenha um dinâmico 3x4x2x1. São mesmo três defesas (centrais) puros: Campagnaro-Canavarro-Aronica. Todos fisicamente fortes, não são muito rápidos pelo que têm tendência a jogar encostados à área, fazendo descer o bloco da equipa e transformando os laterais em verdadeiros alas (Maggio, à direita, Dossena ou Zuniga, à esquerda) colocados de perfil com os médios-centro de contenção (Pazienza-Gargano ou Yebda).
Fica, assim, por vezes um espaço vazio excessivo entre primeira linha do meio-campo e zona ofensiva de criação atrás do ataque. É um espaço ocupado, alternadamente, por um dos elementos do zig-zagueante trio atacante: Hamsik-Lavezzi-Cavani. Dos três, o mais polivalente tacticamente a recuar e avançar é Hamsik. Grande carácter táctico para recuar em recuperação e depois fazer a uma última ligação meio-campo/ataque. Quase sempre, porém, em ruptura (entrando com bola desde trás), raramente o fazendo pelo passe. Uma linha atacante de egoísmo fantástico exacerbada por Lavezzi, veloz e ágil no um-para-um, e Cavani, um nº9 que também se esconde no flanco, com rapidez de execução e remate assombrosa.
 
Ver jogar este Nápoles é mergulhar no melhor futebol táctico-passional do presente. Aplicando a tese de Laudrup, uma grande equipa colectiva cheia de bons egoístas no ataque.  
 

 

 

Artigos Relacionados

  • NOTAS 2011/12 (34) NOTAS 2011/12 (34) 24 de Março de 2012 1. Viana e a selecção; 2. Recuar para...atacar; 3. Buscando espaços
  • NOTAS INTERNACIONAIS (22) NOTAS INTERNACIONAIS (22) 22 de Março de 2012 1.NextGean- Futuro `com pernas`; 2. Existe futebol grego?; 3. Gomez é mesmo nº9 craque?; 4. O intruso...
  • “Substituição defensiva” “Substituição defensiva” 22 de Março de 2012 A maior prova de sensibilidade táctica do treinador: meter um jogar mais defensivo e a equipa passar a...
  • Os "recados" da bola Os `recados` da bola 20 de Março de 2012 O “Jardim de futebol” do Braga: Acelerando, passo a passo, passe a passe. Bom futebol sem…“pressão...
  • As "ratoeiras" da velocidade As `ratoeiras` da velocidade 15 de Março de 2012 Uma equipa lenta como jogadores rápidos. Uma equipa rápida com jogadores lentos. Pode ser?