Falando sobre futebol, Laudrup, poeta dinamarquês da técnica e passe nos anos 80/90, deu definição fantástica: o futebol é um jogo colectivo cheio de egoístas. Isto não especificando a quem se referia. A frase terá várias interpretações, mas não a vejo como crítica. Pode ser, até, o destacar da qualidade mais estranha que deve revestir algum tipo de jogadores. Quais? O ponta-de-lança. O único lugar onde o egoísmo pode ser uma qualidade. Mais difícil, impossível, é ver o egoísmo como traço positivo de jogo de um médio.
Li isso e pouco depois vejo, talvez, o jogo mais empolgante da época (Nápoles, 4-Lazio, 3) num ambiente arrepiante: Local: S. Paolo, Nápoles: Actor egoísta principal: Cavani, estratosférico ponta-de-lança uruguaio que, com os seus golos, está a abanar as estruturas do Calcio. Desde de Maradona que não se via nada semelhante. Entretanto, o Nápoles chegou a cair até à Serie C. Agora está na luta pelo Scudetto (a três pontos do líder Milan).
Na base deste fenómeno, um treinador estudioso, que vive cada jogo com o coração nas mãos e subiu a pulso na carreira, Walter Mazzarri, das profundezas do Acierale e Pistoese aos provocadores de bom futebol Sampdoria e, agora, Nápoles. É talvez o treinador italiano da actualidade mais aberto em termos de versatilidade estratégia.
A estrutura-base desenha um dinâmico 3x4x2x1. São mesmo três defesas (centrais) puros: Campagnaro-Canavarro-Aronica. Todos fisicamente fortes, não são muito rápidos pelo que têm tendência a jogar encostados à área, fazendo descer o bloco da equipa e transformando os laterais em verdadeiros alas (Maggio, à direita, Dossena ou Zuniga, à esquerda) colocados de perfil com os médios-centro de contenção (Pazienza-Gargano ou Yebda).
Fica, assim, por vezes um espaço vazio excessivo entre primeira linha do meio-campo e zona ofensiva de criação atrás do ataque. É um espaço ocupado, alternadamente, por um dos elementos do zig-zagueante trio atacante: Hamsik-Lavezzi-Cavani. Dos três, o mais polivalente tacticamente a recuar e avançar é Hamsik. Grande carácter táctico para recuar em recuperação e depois fazer a uma última ligação meio-campo/ataque. Quase sempre, porém, em ruptura (entrando com bola desde trás), raramente o fazendo pelo passe. Uma linha atacante de egoísmo fantástico exacerbada por Lavezzi, veloz e ágil no um-para-um, e Cavani, um nº9 que também se esconde no flanco, com rapidez de execução e remate assombrosa.
Ver jogar este Nápoles é mergulhar no melhor futebol táctico-passional do presente. Aplicando a tese de Laudrup, uma grande equipa colectiva cheia de bons egoístas no ataque.