Quando imaginamos uma equipa a sair para o contra-ataque, não imaginamos, no cenário ideal, a conduzir a bola em velocidade, um defesa-central. Imaginamos um médio rápido, de preferência tecnicamente dotado ou, noutra vertente, um lateral mais ofensivo. Como este momento do jogo (o contra-ataque) é, cada vez, um factor-chave para aproveitar os curtos instantes em que a equipa adversária fica desequilibrada, o perfil do tal jogador que o conduz é hoje uma questão mais sensível dentro de qualquer equipa.
O jogo tem outros esconderijos, mas, nos tempos tácticos que correm, o contra-ataque é quase como uma porta-secreta para fugir a um jogo dito tacticamente equilibrado. O Braga-Sporting foi, um bom exemplo, disso, quando, no arranque da segunda parte, face à subida do bloco leonino, o processo de contra-ataque bracarense descobriu a chave ideal para abrir essa porta-secreta com a condução veloz desde trás de Mossoró. Bastava recuperar a bola, mesmo em posições recuadas, ter um passe curto de Hugo Viana (transição lenta) e depois sair para o contra-ataque (diferente momento do jogo, organização ofensiva rápida).
Quando tirou do jogo esse elemento-acelerador, Mossoró, o contra-ataque desvaneceu-se num ápice e ficou preso à transição lenta dada por jogadores…lentos (nessa altura três médios, duplo-pivot Custódio-Luis Alberto, e Viana então mais subido). Na maior parte das vezes, as equipas mais do que temer a equipa adversária, temem o que ela pode vir a conseguir fazer. Foi o que o Braga, sem qualquer sintoma dessa transformação, sentiu e, por isso, mexeu daquela forma.
Mas, para nascer, o contra-ataque precisa de espaço. Um espaço que, mais do que conquistado, é dado pela…outra equipa (no momento de perda-recuperação da bola). Domingos decidiu mudar o desenho do seu meio-campo (de 1x2, um pivot e dois interiores muito subidos, para 2x1, dois médios recuados e um criativo solto na segunda linha). Com isso, Schaars e Elias recuaram alguns metros (surgindo Matias a 10). Melhorou o inicio de construção de jogo, que em vez de ser feito por um central (era Polga) passou para um médio (Schaars).
A questão, porém, coloca-se em relação ao jogo que escolheu para essa mudança: frente a um adversário que tem um início de construção muito forte à frente da sua defesa, com Hugo Viana. Ora, ao abdicar da pressão alta nesse jogo, deixou de pressionar Hugo Viana o mais cedo possível e acabou a pedir isso ao médio que…recuara estrategicamente, Elias. Ou seja, Elias acabou, afinal, a fazer o mesmo papel de antes (pressionar, em vez do jogar que o recuo podia lhe dar) só que fê-lo alguns metros mais atrás. Os metros suficientes para o Braga ganhar o meio-campo nos momentos-chave do jogo. Por estes espaços, território onde mora o melhor posto de controlo do jogo, andou a tal porta-secreta do contra-ataque., hoje o melhor plano de fuga táctico.