A meio da época, o mercado de Janeiro mexe com todas as equipas. Os empresários a rondar os clubes, o treinador à procura de reforços, o tal nº9 que faz golos ou o central que vai corta tudo, e os jogadores, ansiosos por novas portas financeiras, mal acaba o treino vão a correr ligar o telemóvel para ver se existe alguma sms milagrosa. Não há, na maioria dos casos. E a vida continua.
Neste mundo, os clubes portugueses vivem encurralados num mercado de segunda linha. Objectivo máximo: descobrir craques escondidos. Como mito urbano do scouting, a descoberta de Hulk, então na II Divisão do Japão e que quando contratado até motivou sorrisos irónicos dos rivais. Quase quatro anos depois é o que se sabe. Não sei se o seu DVD tinha 3 ou 30 minutos, mas a partir dessa data descobrir um novo diamante em bruto como Hulk passou a ser o grande objectivo de todos os clubes. Porque esta é que é a grande questão do fenómeno-Hulk. Quando chegou estava muito longe de ser o que é hoje. O seu futebol tinha o que a natureza lhe dera: velocidade, poder físico, técnica e remate rebeldes. Faltava-lhe tudo o resto em termos de fundamentos de jogo.
Por isso, ao ler Jesualdo sobre o seu processo de desenvolvimento (“não tinha noções tácticas de jogo e foi necessário explicar-lhe quando fazia as coisas bem e ou mal”) revi todo o processo indispensável para fazer crescer este tipo de talentos naturais sem escola táctico-técnica. Não existem fórmulas infalíveis (apenas indícios) para detectar o craque escondido, mas existem fórmulas mais sábias de fazer crescer jogadores sem os quais nada é possível.
A explosão de Hulk é um bom pretexto para falar duma ideia que surgiu esta semana no nosso futebol: a limitação de estrangeiros só a internacionais. O tema merece debate profundo mas tem, desde logo, dois prismas incontornáveis. Primeiro, o económico, o que verdadeiramente conduz tudo. Segundo, a tal capacidade do treinador português, pelos seus evoluídos métodos de treino e conhecimento/sensibilidade, ser um grande construtor da maturidade-táctica dos jogadores.
A sugestão baseia-se no workpermit inglês mas o seu transfer para Portugal é financeiramente utópico. O nosso mercado não é maioritariamente de internacionais que custam milhões (como o inglês) mas dos tais talentos escondidos. Para ver o alcance da proposta basta pensar que, com ela em vigor, Hulk não viria para Portugal. Quando chegou, ninguém sabia que existia. Agora está na selecção brasileira e ameaça tornar-se record no mercado de transferências. Defendo a aposta no jogador português, mas se tirarem este dom ao futebol português, acabam pura e simplesmente com a sua viabilidade futebolística/financeira.
O problema é que se continua a confundir o futebol português com o…jogador português. E, em rigor, são duas coisas muito diferentes. Não se pode proteger um (o jogador) afogando o outro (o futebol!)
